Emily, de nove anos, faz acrobacias ao som dos secadores de cabelo no salão onde sua mãe trabalha, no Complexo do Caju. Letícia, de 17, se conformou em cair e levantar do chão duro de uma academia em Campo Grande, onde conseguiu uma bolsa graças ao seu professor. Thales, também de 17, luta pelo sonho de ir aos Jogos de Tóquio na sala da casa de seu instrutor, onde o barulho da TV se mistura ao dos corpos que se arrastam no tatame instalado sobre o piso. A Bruno, de 20, sem ter onde treinar para sua primeira competição internacional, só restou a esperança de que, na hora da prova, os bons ventos e a torcida do seu pai lhe ajudem a lançar a pelota o mais longe possível.
Desde que 12 das 22 vilas olímpicas da prefeitura pararam suas atividades por causa do fim de contratos, entre novembro e dezembro do ano passado, a frustração e o improviso têm sido companheiros desses e de outros jovens atletas que dependem das instalações para realizar seus sonhos no esporte. Menos de seis meses depois do maior evento esportivo do planeta ter contagiado a cidade onde nasceram, o legado olímpico ainda lhes parece muito distante.
A prefeitura alega que “a subsecretária de Esportes e Lazer, Patricia Amorim, está trabalhando para que a abertura das vilas seja realizada o mais rápido possível”. Além das 12, outras duas vilas estão com o contrato rompido, mas funcionando.
LUTA PELO ESPORTE
No Parque Alegria, comunidade do Complexo do Caju, todo mundo conhece a “mulher elástica”. É assim que Emily de Souza é chamada pela mãe, Maria Heloísa de Souza, de 40 anos. Com a vila olímpica Mané Garrincha, onde treina, parada desde novembro, a menina se contorce onde pode para não perder a flexibilidade. Até o salão de beleza onde Heloísa trabalha virou local de treinamento, onde Emily executa seus movimentos delicados em meio ao vai e vem dos clientes. Quando vão à praia de Ramos, as duas treinam também na areia. Heloísa vê os vídeos das apresentações da filha e tenta memorizar os movimentos para corrigir a menina. Sustenta sozinha dois filhos que moram com ela e conta que, quando não tem dinheiro, almoça biscoitos para comprar uma refeição reforçada para a menina.
— Isso tira o ânimo do atleta. Quando você tem baixa renda, é tudo mais difícil. Os atletas estão sofrendo — lamenta a cabeleireira.
Já no Engenho de Dentro, a família de Gilberto Arbués, de 53 anos, já se acostumou com o clima de combate em casa. Esbarrar com adolescentes gritando, se encarando e se espatifando no chão é corriqueiro para quem decide fazer um simples lanche na cozinha. Como a Vila Olímpica do Encantado, onde ele dá aula de luta olímpica, não tem cobertura no tatame dedicado ao esporte, quando chove as aulas são suspensas. Por isso, há mais ou menos um ano, decidiu montar um centro de trinamento improvisado na sala de sua casa. Hoje reforça, de graça, o treinamento que 12 jovens recebiam na vila. Agora que ela atravessa uma crise — parte dos funcionários não recebeu o salário de dezembro nem o 13º completo — o tatame de Gilberto tornou-se o único local em que promessas da vila olímpica conseguem treinar.
Um deles é Thales Reis, de 17 anos. Em só um ano e meio de treinamentos na modalidade, já conseguiu se sagrar campeão estadual e brasileiro. Para tornar o sonho do filho real, o pai de Thales, Whashington Alves, faz um trajeto de 7 quilômetros de ida e volta até a empresa onde trabalha como estoquista para que sobre dinheiro para o garoto competir e se alimentar — ele come quase 1 quilo de frango por dia. Gilberto, virou então, um “segundo pai” para o garoto, que chega a ficar concentrado na casa do treinador antes de competir:
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— Meu ídolo, hoje, é meu professor — confessa Thales, com um sorriso envergonhado, mas sem titubear.
Quando Bruno Barbosa de Freitas, hoje 20 anos, tinha dois anos, seus pais, uma enfermeira e um metalúrgico, perceberam que havia algo de diferente com o menino, que quase não falava e andava. Com o diagnóstico de paralisia cerebral, a mãe dele, Ivania Barbosa, largou o emprego e passou a dedicar-se ao filho. O medo de que as limitações impedissem Bruno de ter uma vida minimamente normal – e feliz – tirava o sono dela e de Dirley Freitas, pai do garoto.
AS HISTÓRIAS DOS ‘ÓRFÃOS’ DAS VILAS OLÍMPICAS DA PREFEITURA
Não sabiam que, anos depois, estariam despedindo-se do jovem na rodoviária para que ele fosse competir em Jundiaí, em dezembro do ano passado. Eram as seletivas de uma competição internacional, as Olimpíadas Especiais, que acontecem em abril, no Panamá. Mesmo correndo entre pedras portuguesas quebradas e lançando pelotas improvisadas em uma área com areia, já que a vila olímpica não tem instalações apropriadas, se destacou no atletismo, Surpreendendo os dos funcionários da Dias Gomes, conseguiu uma das cinco vagas para representar o Brasil na modalidade. Só que, desde 16 de dezembro, a vila olímpica está fechada devido ao fim do contrato da ONG que a administra, e ninguém sabe quando ela vai reabrir.
— Há momentos em que fico pouco otimista devido a essa situação. Seria tão bom se ele tivesse fazendo o treinamento e se desenvolvendo. Se parar, ele perde totalmente o ritmo. E os outros estão se preparando — preocupa-se Dirley.
Mesmo com pagamentos atrasados, os professores de Bruno fizeram uma vaquinha para que ele conseguisse tirar seu passaporte. Os pais do atleta vivem com ele em uma casa de um cômodo e não têm celulares. Hoje, sem a vila, caminhar com o pai todos os dias até a instituição filantrópica onde estuda é a única atividade física que Bruno pratica, além das peladas que joga na rua onde mora em Anchieta – vez ou outra interrompido pelos tiros ouvidos no Chapadão.
— Estou sentindo falta da piscina, do alongamento. De tudo — reclama Bruno.
PELA JANELA
Quando era criança, Letícia Lopes, que hoje tem 17 anos, praticava os golpes que via nos filmes de luta que o pai costumava assistir na TV com o irmão, três anos mais novo. A menina que arrumava confusão no colégio quando alguém debochava dela por ser “pouco feminina”. Foi então que pediu aos pais para participar de um projeto social na comunidade onde mora, em Campo Grande, que ensinava lutas. Ouviu uma resposta negativa, porque aquilo era “coisa de menino”. A solução foi pular a janela do quarto, aos 11 anos, e ir a um treino pela primeira vez. Apaixonou-se pelo esporte e, hoje, compete profissionalmente na luta olímpica.
— Eu quero ir para uma olimpíada. É um dos meus maiores sonhos — diz a menina.
No ano passado, o sonho parecia mais próximo quando começou a treinar no Centro Esportivo Miécimo da Silva, em Campo Grande. Bem equipado, o centro de treinamento já revelou nomes como Gilda de Oliveira, atleta que representou o Brasil na Rio 2016. Mas no final do ano passado, o contrato com a prefeitura acabou e as atividades pararam. Para não perder a forma, Letícia e seu próprio professor da vila olímpica, Emmanuel Neto, conseguiram uma bolsa para ela na academia onde ele começou a trabalhar. O chão do local, entretanto, não tem tapumes adequados para a prática.
— Todos nós ficamos preocupados com o fechamento da vila. No tapume olímpico, você tem mais realidade da luta que você pratica. Ter um local apropriado pra treinar é sempre melhor — explica Letícia, que quer voltar o mais rápido possível para o centro de treinamento onde se acostumou a lutar.
Letícia segue treinando cinco dias por semana, às vezes seis. Descobriu um jeito de, mais uma vez, pular um obstáculo para fazer o que ama.
Fonte: O GLobo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Fernando Lemos / Agência O Globo