O baixo movimento nas ruas do Rio confirma que população está seguindo a orientação das autoridades de saúde de ficar em casa para combater o novo coronavírus. Na noite desta terça-feira, o presidente Jair Bolsonaro defendeu, em pronunciamento em rede nacional de televisão e rádio, o fim do “confinamento em massa” e a reabertura do comércio e das escolas, na contramão das recomendações de médicos e cientistas. O GLOBO percorreu as principais vias do Centro e da Zona Sul da cidade e constatou o pequeno número de pessoas em circulação e o fechamento de lojas.
Na Central do Brasil, local que recebe diariamente milhares de pessoas de diversos bairros do Rio e de municípios da Região Metropolitana, apenas quem trabalha em serviços essenciais está fora da quarentena. Na Rua Uruguaiana, um dos centros comerciais mais importante do centro do Rio, nenhuma loja estava aberta, assim como nas avenidas Rio Branco e Presidente Vargas.
Na Saara, também no Centro, todas as lojas estão fechadas e há poucas pessoas pelas ruas. O mesmo cenário é visto é Madureira, o principal polo comercial da Zona Norte. Estabelecimentos que não se enquadram no decreto estadual e municipal estão com as portas cerradas. Na Zona Sul, todos as lojas também estão fechadas.
Moradora de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, a fiscal de loja Andrezza da Silva Kremmer, de 25 anos, disse que o pronunciamento de Bolsonaro foi “desrespeitoso” com a população e os parentes das vítimas da doença. As restrições têm sido utilizadas no combate ao novo coronavírus, que já deixou 46 mortos no país.
— É preciso seguir as recomendações das autoridades médicas e ficar em casa. É um desrespeito o chefe da nação desmerecer essa doença. Já são milhares de pessoas mortas pelo mundo afora e ele trata como uma gripezinha? — indagou.
Aline diz que tem cumprido à risca as recomendações dos médicos.
— Se eu pudesse, ficaria em casa. No entanto, como não posso, evito ficar perto fechamentdas pessoas, passo álcool em gel e uso máscara — lembra Andrezza, que afirma que o movimento no trem, que usa diariamente, “caiu muito”.
O taxista Leordi Nascimento Ferreira, 59, que trabalha há 20 anos no Leblon, critica a falta de sintonia entre o presidente e o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta:
— As autoridades estão fazendo o certo de manter tudo fechado. Os números do mundo mostram que não é uma gripezinha qualquer. Foi irresponsável da parte dele fazer um discurso desses em rede nacional. O presidente age contrário ao ministro da saúde. Não estão em sintonia. O Mandetta é profissional da saúde e eu prefiro seguir a recomendação dele ao do presidente — afirma Ferreira.
O taxista confirma que a população carioca tem ficado em casa, respeitando a quarentena.
— Diminuiu muito o número de pessoas que está pegando táxis. Antes das 9h, eu costumava pegar uns seis passageiros. Hoje, só fiz uma corrida.
Passageiros sentados nos ônibus
Nos pontos de ônibus, passageiros que geralmente pegam o transporte público cheio relatam que estão conseguindo encontrar bancos vazios e estão indo para o trabalho sentadas. Nas praias de Ipanema e de Copacabana, a areia da orla está sem banhistas nem turistas.
Em um posto de gasolina de Copacabana, até as 8h50m, nenhum carro tinha parado para abastecer, contra 15 veículos nos dias normais neste horário, contou o gerente Pedro Batista:
— Por dia, vendíamos 3 mil litros. Ultimamente, não passa de 500 litros. A economia é importante. No entanto, é mais importante pensar na saúde da população. Muitas pessoas pelo mundo estão morrendo por conta da doença — lamenta Batista.
A empregada doméstica Maria Adelaide da Silva, de 56 anos, diz que não está saindo de casa e que sua patroa já cancelou as faxinas que ela faria nos próximos dias. Adelaide é a favor das medidas restritivas adotadas pelas autoridades estaduais e locais.
— É preciso pensar nas pessoas nessa hora tão difícil. Não é uma simples gripe. É uma doença que ainda não tem vacina e não sabemos quais serão as consequências. É preciso ter prudência ao ir para a TV e pedir que ninguém fique em casa. É preciso se cuidar, e isso é feito com isolamento — diz.
Fonte: Globo
Postado: Raul Motta Junior