Numa época em que basta acessar a internet para ter à disposição uma infinidade de músicas, por mais raras que sejam, seria plausível imaginar que a Música Popular Brasileira estivesse numa fase de ouro. Mas a realidade não é exatamente essa. Artistas tradicionais e de novas gerações precisam desdobrar-se para conquistar e manter seus espaços num mercado cada vez mais competitivo. Na região, projetos para televisão, web e teatro vêm fazendo com que nomes de diferentes épocas unam forças nessa batalha.
Um deles é a série “Os ímpares”, que começou a ser gravada há cerca de uma semana no Estúdio Maravilha 8, em Botafogo, e tem estreia prevista para o primeiro semestre do ano que vem no canal Curta!. Com direção de Henrique Alqualo e Ísis Mello e produção musical de Berna Ceppas, o programa vai resgatar dez álbuns lançados nos anos 1960 e 1970 que foram desencorajados pela indústria fonográfica da época, mas acabaram tornando-se grandes influências para futuras gerações da MPB.
— Gostamos muito desses álbuns e acreditamos que é importante divulgá-los e dar a eles o devido reconhecimento. São discos raros e, muitas vezes, de difícil acesso. Então, pensamos em fazer um programa para resgatar esses trabalhos — afirma Ísis.
No programa, intérpretes contemporâneos de diferentes estilos musicais farão releituras de canções incluídas no álbum e que façam referência ao tema de cada um dos episódios. A série vai acompanhar todo o processo de criação e as ideias que sairão dos encontros. Discos de Jards Macalé, Jorge Mautner, Itamar Assumpção e Walter Franco estão entre os destaques que terão regravações feitas por artistas como Criolo, Nação Zumbi, Emicida, Alice Caymmi, Tulipa Ruiz e Teresa Cristina.
— Achamos que uma roupagem contemporânea para as músicas seria um atrativo para as novas gerações. Então, selecionamos artistas atuais, relevantes no cenário musical, para trazerem um novo olhar para os discos. Não se trata apenas de um programa de releituras, mas sim de um resgaste histórico de obras fundamentais para a Música Popular Brasileira — explica Alqualo.
A cantora Alice Caymmi participou do primeiro dia de gravação e cantou “Nega música”, de Itamar Assumpção. Para ela, o programa é uma boa oportunidade para resgatar a ideia de álbum como um acontecimento marcante para uma época, algo que não se vê mais atualmente.
— Hoje, esse conceito vem caindo em desuso, o que é uma pena. Fiquei muito feliz em poder gravar uma música do Itamar, que não é uma influência direta para mim, mas alguém que as pessoas sempre relacionam com o meu trabalho. Já fui convidada algumas vezes para cantar músicas dele — comenta Alice.
Outra iniciativa que vem reunindo um time de peso de diferentes gerações é o projeto “A luz do solo”, que marcou o ano de 1985 e foi retomado há cerca de uma semana no Teatro XP Investimentos, no Jockey Club. A ideia é promover shows intimistas, com voz e violão, nas noites de quarta-feira. A edição original aconteceu no Golden Room do Copacabana Palace e reuniu nomes como Toquinho, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Geraldo Azevedo e Gonzaguinha. Alguns shows deram origem a álbuns clássicos, como “A luz do solo”, de Geraldo Azevedo; e “Totalmente demais”, de Caetano Veloso. Todos gravados ao vivo.
À frente da retomada do projeto está Luiz Guilherme Niemeyer, um dos sócios do teatro junto com João Guilherme Magalhães, e filho do idealizar do “A luz do solo”, Luiz Oscar Niemeyer.
— A ideia é resgatar essa marca que foi muito importante para toda uma geração. Usamos o mesmo cenário da edição original, e a ideia é reunir artistas que marcaram época no “A luz do solo” com nomes da nova MPB que estão despontando por aí — explica Niemeyer.
Luiz Guilherme Niemeyer e João Guilherme Magalhães são sócios do Teatro XP, nova casa da “A luz do solo” – Thiago Freitas / Agência O Globo
O primeiro show da temporada, há uma semana, contou com a participação do cantor Geraldo Azevedo, artista que serviu de inspiração para a criação do projeto original.
— O Geraldo ficou muito emocionado por estar de volta ao projeto, que rendeu, inclusive, um disco para ele. Uma das coisas bacanas do show foi que ele usou a mesma boina da apresentação dos anos 1980. Estamos com a programação definida até o fim de setembro, mas a ideia é que o projeto seja permanente — explica o empresário.
As próximas atrações estão programadas para os dias 13 (Dori Caymmi), 20 (Pedro Luis) e 27 (Marcos Valle). Informações no site.
ENCONTROS NA WEB E NA TV
Detentor de um vasto acervo musical (incluindo oito mil discos, entre clássicos e raridades) e um conhecimento profundo da Música Popular Brasileira, o escritor, produtor e pesquisador Rodrigo Faour decidiu voltar à cena com um programa bilíngue na internet sobre esse universo. O objetivo do “MPB com tudo dentro” é apresentar, semanalmente, entrevistas com nomes de diferentes gerações. Faour também dará pequenas aulas sobre movimentos musicais e mostrará curiosidades e resgates da obra de artistas importantes da música brasileira. Apresentará ainda vídeos de seu baú e de produções que teve a oportunidade de registrar e que até agora se mantinham inéditas.
— A MPB vive um momento dramático atualmente. O mercado mudou muito e hoje só há espaço para artistas de massa nas mídias tradicionais. Não tenho preconceito contra gêneros, mas a massificação da música é algo muito empobrecedor para a nossa cultura. Como estou nesse segmento há anos, decidi que era hora de fazer algo pela MPB. Nada melhor do que apostar na internet como um meio para isso — explica Faour.
Edy Star e Ney Matogrosso foram convidados do programa do Rodrigo Faour – Fabricio Menicucci / Divulgação/Fabricio Menicucci
Ele conta que, assim como em boa parte dos seus projetos, uma das marcas será promover encontros entre artistas de diferentes gerações, algo que para ele é uma medida benéfica para ambas as partes.
— O Brasil é um país que, infelizmente, não valoriza a sua memória. Com os encontros de gerações, os fãs dos novos artistas podem conhecer os antigos. Muitas vezes, um artista da cena atual também não sabe que teve influência de algum nome do passado. Busco sempre trazer algo da memória da Música Popular Brasileira que tenha relação com o trabalho do entrevistado mais jovem — destaca Faour.
Um dos encontros promovidos pelo produtor para o programa foi o que uniu os cantores Johnny Hooker e Maria Alcina — que têm a transgressão como uma característica comum. Os dois participaram de um quiz baseado nas letras de músicas vingativas de Hooker.
Boa parte dos episódios é gravada no seu próprio apartamento, no Leblon. Na empreitada, Faour tem a parceria do produtor e videomaker Rody Martins, conhecido por seus clipes com Gretchen.
— É leve sem ser superficial, e vai ter o humor e a dobradinha de música e comportamento, que são marcas de toda a minha obra. A ideia é alternar pautas mais sérias com outras bem divertidas numa mesma entrevista, incluindo testes e brincadeiras com os artistas — diz o apresentador, que é autor do livro “História sexual da MPB”, obra que virou programa de rádio e de televisão, show, CD, DVD e até um troféu.
Outra característica do programa “MPB com tudo dentro” é que todos os episódios serão legendados em inglês.
— Viajei pra Nova York em julho. E entrando em contato com músicos estrangeiros que vivem lá, decidi investir no formato bilíngue. O tipo de música brasileira criativa de que eu gosto e que divulgo também tem fãs fora daqui. Por isso, quero colaborar para romper essas fronteiras e criar um intercâmbio com gente do mundo todo. Neste momento de crise do mercado para a música brasileira mais diversa e criativa, precisamos unir forças e ampliar seu raio de atuação — conclui o pesquisador.
O programa de Rodrigo Faour pode ser visto no site . A cada terça-feira, um episódio inédito entrará no canal.
Já o ex-baixista do Barão Vermelho, Dé Palmeira, acaba de gravar a terceira temporada do programa “Estação ronquenrou”, do Canal Brasil, prevista para ir ao ar no primeiro semestre do ano que vem. No programa, ele reúne artistas veteranos e expoentes do rock num estúdio em Copacabana.
Estação Roquenrou é comandado pelo ex-baixista do Barão Vemelho Dé Palmeira – Divulgação
— Acho essencial esses encontros entre gerações. Todos aprendem, inclusive eu. Na próxima temporada, teremos nomes como Jards Macalé e a banda Baleia — diz.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior