A economia, quando os tempos estão bicudos, todo mundo sabe, deve começar dentro de casa. Seguindo esta máxima, administradores dos condomínios da região estão se esforçando para cortar os custos de manutenção das áreas comuns dos edifícios, e estimulando os vizinhos a fazerem o mesmo dentro de seus imóveis — em muitos casos, com alguma supervisão. O objetivo é evitar ou superar a inadimplência, buscando manter a qualidade de vida dos moradores.
No Edifício Port of Spain, do condomínio Village São Conrado, tem sido assim. Quando assumiu o cargo de síndico, em junho, o economista inglês Quentin Lewis constatou que havia pouco dinheiro em caixa, o que dificultaria o pagamento do décimo terceiro salário dos funcionários no fim do ano. Decidiu então, junto com o gerente administrativo, Manoel de Paiva, renegociar os contratos com todos os fornecedores do condomínio. O resultado, diz, foram R$ 200 mil de redução de custos em dois meses.
Segundo Paiva, o contrato de jardinagem, por exemplo, caiu de R$ 1.900 para R$ 900. Apesar de mantido o valor de R$ 8.400 para a manutenção dos elevadores, a empresa responsável concedeu-lhes desconto por cinco meses, até o fim deste ano. As lâmpadas das áreas comuns foram trocadas por modelos de LED, o que reduziu o valor da conta de luz em 15%. Maior gasto do condomínio, as folhas de pagamento tiveram 500 horas extras cortadas, uma economia equivalente ao pagamento de um funcionário e meio por mês, diz o gerente administrativo:
Olhamos todas as possibilidades e tentamos alocar cada empregado em funções essenciais. Nossa filosofia agora é manter a administração enxuta, pensando no futuro, implantando um sistema que possa trazer mais qualidade de vida aos moradores com o menor custo possível. É isso que uma administração moderna deve fazer.
As medidas continuam em curso: as 12 válvulas redutoras de pressão (VRP) do prédio vêm sendo trocadas por outras, com maior capacidade de redução do fluxo da água levada aos apartamentos, o que resulta em consumo menor, explica Lewis. Além disso, toda semana uma equipe visita cada apartamento para orientar os moradores a respeito de desperdícios pouco notados no dia a dia, como torneiras pingando ou descargas mal reguladas: graças a essa iniciativa, em algumas semanas a conta de água do edifício baixou de R$ 46 mil para R$ 32 mil. O síndico — que recusou a isenção de cota condominial a que teria direito — costuma também debater com moradores mudanças de comportamento que possam gerar redução de custos, como combinar horários para uso da sauna.
Acho que o trabalho de síndico passa por um dever cívico. Não é papel nosso dizer o que as pessoas vão fazer, mas há algumas práticas que, depois de adotadas, começam a ser compreendidas e apoiadas. A pessoa pensa: “Não vou descer dois andares de elevador; posso ir de escada, fazer a minha parte também”. O consumo de água continua igualzinho a antes, mas diminuímos os gastos com estas medidas simples, o que faz bem para o bolso e para o mundo — observa Lewis.
Medidas nem sempre bem aceitas
Na Associação Bosque Marapendi (ABM), do qual fazem parte 26 prédios, um plano oficial de diminuição de custos foi lançado pela diretoria em abril passado, e permitiu cortar a cota de transporte em 16%, após redução da frota de ônibus que serve aos condomínios. Para isso, verificou-se, por meio dos chips presentes nos cartões usados na hora de embarque, a quantidade de passageiros e a frequência das viagens em cada linha. Dados apurados, definiu-se uma nova grade de horários, o que permitiu reduzir o número de veículos de 29 para 23 e o valor cobrado dos moradores mensalmente pelo serviço, de R$ 220 para R$ 185.
Há seis anos, Mônica Lima e Silva é síndica do edifício Itapoã, que integra a ABM. Ela conta que, desde então, vem tomando medidas visando a economizar. Há dois anos, as lâmpadas comuns deram lugar às de LED. O sistema de captação de água para serviços de limpeza e jardinagem, por sua vez, existe desde 2012. Nos corredores, há lixeiras para cada tipo de resíduo, e a coleta seletiva é feita duas vezes por dia pelos porteiros, que ganham uma bonificação pelo trabalho. O material selecionado é vendido para cooperativas de reciclagem. Tais ações vêm garantindo algum dinheiro em caixa permanentemente, explica Mônica.
— Estamos educando as pessoas e ajudando o meio ambiente. Para fechar as contas, temos que pensar a longo prazo. Quando você tem boa conservação e manutenção no edifício, por exemplo, isso traz resultados por muito tempo.
Lewis reviu os contratos de todos os fornecedores do Port of Spain, no Village São Conrado – Analice Paron
Com 17 prédios e cerca de mil moradores, o Parque das Rosas é outro que enfrenta desafios orçamentários. Desde que se tornou síndica, no ano passado, Vera Marquez vem trocando as lâmpadas do condomínio Rosa Maior por outras de LED. A água da piscina, que é limpa toda semana, se perdia: agora, os cinco mil litros necessários para enchê-la, em vez de irem para o ralo, são recolhidos em um reservatório, tratados e voltam à piscina. Há um ano, foi implantado um sistema de captação de água de chuva, usada para a manutenção do jardim e a limpeza das áreas de uso comum. Além disso, de três em três meses, bombeiros são chamados para verificar as condições de itens como descarga dos vasos sanitários, torneiras e carrapetas.
— Sentimos necessidade de nos mexer, e os moradores entendem que precisam colaborar, mudar de mentalidade. Se tem vazamento, eles ligam para a administração e logo mandamos o bombeiro lá. Se for um caso que se possa resolver na hora, como trocar uma carrapeta ou obturador, isso já é feito de imediato.
Manoel Tavares, síndico do Varandas das Rosas, conta que, há oito meses, foram colocadas placas de plástico, que reduzem a pressão da saída de água, nas torneiras de todos os apartamentos: com isso, a conta da Cedae baixou de R$ 50 mil para R$ 43 mil. Para este ano, Tavares quer ir além, com projetos que incluem estrutura de captação e reaproveitamento de água de chuva. Já foram comprados os filtros e as tubulações, mas, orçada em R$ 40 mil, a obra aguarda aprovação em assembleia. Há planos, ainda, para implantar um sistema de captação de energia solar capaz de iluminar ao menos os apartamentos e corredores do prédio. Apesar de os custos para tanto serem elevados, o síndico defende que investimentos que levem em conta o meio ambiente se revelam lucrativos com o tempo.
— Nós nos adiantamos muito, e hoje temos uma reserva confortável. A maioria dos moradores é receptiva, porque sabe que o momento é de pensar o futuro — conta Tavares, outro que adotou lâmpadas de LED no condomínio.
Na Associação de Moradores da Rua Aroazes (AMA), também na Barra, o tempo ainda é de ajustes. Embora seja o último item na lista de eventuais cortes orçamentários, está cada dia mais difícil manter a segurança, afirma Luciano Dias, presidente da entidade, cuja existência não é unanimidade entre os vizinhos. Segundo ele, devido à crise, o número de associados tem diminuído nos últimos seis meses: dos 1.800 que havia, cem já desistiram de pagar os R$ 50 mensais, o que baixou a arrecadação de R$ 60 mil para R$ 55 mil.
Com as providências tomadas, o que incluiu o corte de horas extras dos funcionários e a suspensão da manutenção preventiva na sede da associação, Dias vem compensando a perda de receita. Ele lamenta, no entanto, que muitos moradores se recusem a contribuir.
— Tem gente que participa dos eventos que promovemos e vem elogiar, mas não contribui. Tentamos conversar, mas falta senso de comunidade — opina.
A inadimplência nas taxas condominiais dos prédios da AMA também aumentou, afirma Dias. No Barra Premier, residencial do qual é síndico, o número de apartamentos em atraso saltou de dois para oito no último semestre. Medidas de economia tomadas por Dias incluem a diminuição do tempo de uso da piscina e a substituição dos serviços diários de jardinagem por intervenções pontuais. As ações têm desagradado a alguns moradores.
— A maioria deles é contra, porque, se você tira, por exemplo, o professor da academia, como fizemos, e a pessoa faz questão de um, tem que contratar um personal trainer, o que aumenta seu custo. Mas você tem que manter essas decisões, em prol do coletivo. Se não, acaba afundando o condomínio — diz.
Como diz Quentin Lewis, do Village São Conrado, gerir um condomínio hoje é como tocar uma empresa:
— Temos nos concentrado em fazer uma administração bem profissional, porque, na situação em que estamos, não há espaço para amadores.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior