O intercâmbio cultural ou estudantil, por si só, já dá um upgrade no currículo profissional de qualquer um. Isto é consenso entre os recrutadores. Mas agora os viajantes buscam agregar uma experiência voluntária ao perfil profissional e até pagam para trabalhar de graça em países da América Latina, Europa, Ásia, Oceania e África. Outros, mais qualificados, buscam o voluntariado na ONU, o que garante uma renda de subsistência. A aprovação do mercado privado ainda é pontual, mas faculdades e ONGs estão cada vez mais de olho em quem se submete ao voluntariado no exterior.
No ano passado, a procura pelo intercâmbio voluntário cresceu de 15% a 30%. Este ano, a expectativa da agência CI é ter um incremento de 20%, apesar do alto preço do dólar.
— As pessoas estão percebendo que o trabalho voluntário estimula várias competências necessárias nas empresas — afirma Renata Barcellos, gerente da CI.
A África do Sul foi o destino escolhido pela estudante de Design Paulina Amaral, de 19 anos. Após uma viagem de turismo com a família, ela ficou encantada pelo país, mas voltou bastante tocada pelas situações de desigualdade social que presenciou durante o passeio.
— Há anos eu tinha o sonho de fazer trabalho voluntário e voltei para o Rio com isso na cabeça. Como sempre fui apaixonada por crianças, fui me informar sobre programas de intercâmbio que me permitissem ajudar as que mais precisam — conta a estudante.
Em julho do ano passado, Paulina embarcou para a Cidade do Cabo, onde trabalhou por três semanas em uma creche na comunidade de Masiphumelele, com crianças entre 3 e 5 anos. Sua rotina começava às 7h e terminava às 16h30m. Todos os dias ela brincava com os pequenos, ajudava a dar almoço para o grupo e criava exercícios lúdicos para ensiná-los sobre cores, formas e texturas.
— É uma favela com 50 mil habitantes, onde a maioria enfrenta situação de carência extrema. Muitas crianças eram órfãs ou moravam com vizinhos porque os pais haviam desaparecido. Algumas eram soropositivas e abusadas em casa. — relata. — Foi uma vivência muito intensa e transformadora tanto para mim quanto para eles. Eu e outros colegas procurávamos passar para a turma valores como o afeto e o respeito, já que a violência faz parte da realidade de tantos deles.
A estudante registrou sua experiência na Cidade do Cabo em um belo ensaio fotográfico disponível no blog paulinaamaral.wordpress.com.br – Arquivo Pessoal
Do Brasil, a estudante levou para os pequenos uma aquarela e vários pincéis para desenvolverem atividades artísticas.
— Eles nunca tinham visto tintas e ficaram fascinados. Das tarefas, surgiram pinturas lindas e eu trouxe algumas para guardar de recordação. — afirma ela, que conta ter vivido momentos de forte emoção ao longo desse período. — Quando chegávamos na classe, eles corriam para nos abraçar, gritando “teacher, teacher”, a única palavra que sabiam falar em inglês. O dialeto local deles é o xhosa, então nossa principal forma de diálogo era por meio de gestos, olhares e sorrisos.
Paulina, que já tinha viajado duas vezes para estudar na Alemanha, acredita que essa modalidade de intercâmbio proporciona uma experiência de vida mais enriquecedora.
— O aprendizado numa viagem de trabalho voluntário é maior, vai muito além do idioma. É uma formação humana, que eu quero transmitir para os meus filhos e tento passar para os meus amigos. Você não vai receber nada material em troca, mas uma visão mais ampla da vida, que a gente leva para sempre. O que eu quero é ser um pouco como essas crianças, aprender a viver mais feliz com menos — enfatiza.
Já a empresária Priscila Marochi não precisava de intercâmbio para aprimorar a língua. Ela morou nos Estados Unidos, na Austrália e fez várias viagens para a Europa. Em 2014, começou a fazer ioga e reiki, atividades que a levaram ao trabalho voluntário no Rio.
— Eu sabia dos problemas da África do Sul e não podia visitar Johannesburgo ou a Cidade do Cabo como uma turista comum. Foi aí que deu vontade de fazer um intercâmbio voluntário, desde que tivesse interação com animais e crianças — lembra.
Na época, Priscila investiu US$ 1.800 e mais as passagens num programa de trabalho voluntário na Glen Afric (o valor atual é de US$ 2 mil), uma fazenda que tem uma reserva ambiental nos arredores de Johannesburgo e que cuida de animais abandonados. Nas duas semanas em que ficou alojada, conviveu com leões, rinocerontes, elefantes, zebras e outros animais africanos.
— Tenho 45 anos e saí preocupada com a idade, pensando que iria encontrar apenas adolescentes, mas achei muita gente na faixa dos 30 anos e foi uma experiência maravilhosa — enfatiza.
A estudante de Psicologia Ana Luiza Ferreira de Carvalho Braz foi para a Glen Afric em março do ano passado, quando tinha 17 anos, e passou três semanas lá. Como já tinha feito intercâmbio nos Estados Unidos e no Canadá, o interesse também não foi melhorar o inglês. A rotina pesada passava longe da realidade de Ana Luiza. Apesar do cansaço, ela conseguiu tirar lições que pretende levar para o resto da vida:
— Convivemos com gente de vários países e com ideias, muitas vezes, divergentes. São atividades que geram conflito e que fazem as pessoas amadurecerem.
A humildade foi outra característica que a estudante exercitou durante sua passagem pela fazenda.
— Tínhamos que limpar cocôs de elefante maiores do que a minha cabeça. Se você tiver nojinho, não fica lá, porque é muito sujo. Agora nem reclamo mais para limpar o cocô da minha cachorrinha — diz, bem-humorada.
Ana, Priscila e Paulina ainda não tiverem que testar o novo conhecimento em busca de um emprego, mas a empresária é categórica ao afirmar que, daqui em diante, vai olhar com outros olhos os currículos que receber em sua loja de roupas.
— Quando vir no currículo que a candidata fez trabalho voluntário, a chance de contratação vai aumentar, pois sei que se trata de uma pessoa que foi testada, que é proativa, tem espírito de equipe e que tem muita boa vontade para trabalhar — afirma Priscila.
A STB também oferece oportunidade de trabalho voluntário. Os pacotes começam em US$ 1.800.
OPÇÕES PARA DIFERENTES INTERESSES
Quando Rennan Rojas conseguiu fazer um intercâmbio, ele já tinha terminado a faculdade de Arquitetura. O objetivo principal era melhorar a fluência no idioma inglês, mas a situação melhorou quando ele descobriu que poderia estudar a língua e incrementar seu currículo trabalhando voluntariamente numa escola de design na Dinamarca. Ele topou e, após cinco meses de consultoria, embarcou, em 2014, para os seis meses de experiência.
Mão na massa: o arquiteto Rennan Rojas em ação durante o estágio na Dinamarca – Divulgação/ René Thorup Kristens
Rojas morava na escola, que fica na cidade de Randers. Lá ele dormia, fazia as refeições, estudava, trabalhava e ensinava os colegas, por meio de palestras, sobre o Brasil e sua profissão.
Um dos trabalhos de que mais gostou foi o projeto de um estande usado pela instituição em feiras educacionais. Ele foi responsável pela concepção e execução dos trabalhos.
— Essa feira percorreu as cinco principais cidades do país. Soube este ano que o mesmo estande será novamente utilizado, o que é motivo de muita satisfação — declara.
Além das boas lembranças, Rojas voltou com fluência no inglês, conhecimento de dinamarquês, e com uma experiência que faz questão de colocar no portfólio, já que trabalha como profissional autônomo.
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— Essa experiência de voluntariado foi muito importante para o meu currículo, pois ajudou na pontuação para entrar na pós-graduação em Arquitetura Contemporânea e para o ingresso na graduação de Artes Visuais — comemora.
A diretora nacional da AFS Intercultura, Andreza Martins, explica que o intercâmbio feito por Rojas promoveu um trabalho voluntário qualificado, executado em empresas ou organizações parceiras da agência, uma organização não governamental.
— Nós somos uma ONG com parcerias em vários países e com o intuito de promover o intercâmbio. Temos empresas e associações parceiras que permitem trabalhos de curta e longa temporada. É como se fosse uma espécie de estágio, mas sem as exigências acadêmicas — explica, acrescentando que, ao fim de cada programa, a AFS emite um certificado.
Os programas da AFS para maiores de 18 anos são feitos na América, Ásia, África, Europa e Oceania. Os preços variam de US$ 2.900 (três meses na Tailândia) a US$ 8.600 (um ano na Alemanha).
Por trabalhar em parcerias e com hospedagem em instituições ou casas de família, Andreza diz que os custos da AFS são menores, embora não revele o quanto. Acrescenta que os programas oferecem atividades de orientação antes, durante e depois do intercâmbio, com foco em aprendizagem intercultural.
— Temos como diferencial a preparação para a imersão cultural e o acompanhamento e suporte que damos a quem está no programa — destaca Andreza.
Quem não tem dinheiro para investir em trabalho voluntário pode se candidatar a alguma vaga oferecida pela ONU. Existem duas modalidades: a on-line e a presencial.
Na on-line, o voluntário presta serviços sem sair de casa. Trabalha na elaboração de projetos, de pesquisas e traduções. Não paga nada para trabalhar, mas também não tem renda auxiliar.
No programa presencial, o voluntário vai a campo em missões humanitárias e sociais. Para isso, recebe uma renda de subsistência que gira em torno de US$ 2.500, dependendo do país. Mas para ser selecionado é necessário cumprir uma série de pré-requisitos e qualificações profissionais.
Em 2005, a jornalista Mariana Nissen tinha quase todas as qualificações, só faltava experiência em campo. Como seu sonho, desde a infância, era ser voluntária e trabalhar na ONU, ela passou quatro anos com uma ONG na Colômbia, onde se qualificou em Direitos Humanos e Comunicação. Até que em 2010 foi para o Haiti a serviço das Nações Unidas.
— Cheguei na semana do terremoto, e o que era para ser um ofício institucional tornou-se um trabalho humanitário — diz.
A experiência no voluntariado ajudou na realização do sonho. Hoje Mariana é consultora da ONU no Rio.
— No voluntariado da ONU você vai aprender, mas tem que estar qualificado para a função. No Haiti eu era chefe de comunicação da missão. Tinha um cargo que é profissional, mas com a remuneração de voluntário — enfatiza.
Associada do programa de voluntariado da ONU no Rio de Janeiro, Monica Exelrud Villarindo explica que, além das vagas qualificadas, há oferta para jovens inexperientes, com idades entre 18 e 29 anos.
As oportunidades para trabalho voluntário surgem de acordo com a necessidade da organização e estão ligadas aos conflitos e crises globais. Não existe restrição de formação profissional.
— Depende dos acontecimentos ao redor do mundo. Mas no ano de 2016 acabamos de lançar os objetivos do desenvolvimento sustentável que vão até o ano de 2030. Serão muito importantes formações que ajudem a alavancar a agenda das 17 metas estabelecidas a serem alçadas até 2030. A participação voluntária será fundamental para que se atinjam as novas metas do desenvolvimento sustentável — destaca Monica.
EXPERIÊNCIA NÃO É DETERMINANTE, MAS AJUDA
A empresária Priscila Marochi trabalhou com animais em uma reserva ambiental na África do Sul – Divulgação/Rob van der Horst
Diretora-geral e sócia da Jobplex Brazil e especialista em recrutamento e seleção de altos cargos, Ana Paula Montanha reconhece que o trabalho voluntário desenvolve capacidades e habilidades que são de interesse das empresas, mas revela que a expectativa do voluntário no exterior ainda não corresponde à realidade das empresas locais, que estão mais interessadas na experiência do intercâmbio do que no voluntariado em si.
— Quase todas as multinacionais, independentemente da indústria, diferenciam candidatos com habilidades e competências interculturais e sensibilidade, como um requisito importante, senão fundamental — explica.
A psicóloga Ana Lúcia Seixas, responsável por recrutamento e seleção na Personale Consultoria, diz que o trabalho voluntário é mais valorizado em multinacionais, em faculdades e em ONGs.
— O voluntariado é muito bem visto lá fora e agora começa a ser visto assim também no Brasil, principalmente em empresas ou organismos que têm uma cultura mais globalizada — afirma.
O analista de Recursos Humanos da ONG Viva Rio, Diego Reis, conta que a indicação de trabalho voluntário no currículo não é fator determinante para a contratação, mas é um diferencial valorizado.
— É importante dentro da nossa proposta, que é de trabalho social. Nascemos do trabalho voluntário — relata.
Reis acrescenta que as pessoas que trabalham de forma voluntária para a ONG entram num banco de currículos que, não raramente, é utilizado:
— Quando precisamos de uma vaga específica, procuramos no banco de currículos.
No Green Peace o item também é bem visto.
— Determinante não é, mas olhamos o currículo de forma diferente. Além do conhecimento cultural e de língua estrangeira, o voluntariado demonstra maturidade — afirma Fernanda Pasetto, analista de RH.
SERVIÇO
AFS: afs.org.br. Tel.: 3724-4464.
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CI: ci.com.br. Tel.: 2496-3588.
ONU: unv.org.
STB: stb.com.br.Tel.: 3419-5701.
Fonte: O Globo
Foto: Fernanda Dias/Agência O Globo
Postado por: Raul Motta Junior