Programa atrai 80 mil visitantes por mês em Copacabana

O local foi escolhido a dedo e de modo estratégico, como manda o preceito militar. Aquela região cujos rochedos avançavam contra o mar, na direção da entrada da Baía de Guanabara, era o ponto ideal para fixar, inclusive, canhões de longo alcance e performance 360° que permitissem intimidar qualquer invasor estrangeiro. Do lançamento da pedra filosofal, em 1908, levaram seis anos até que o terreno fosse meticulosamente moldado ao espelho do desafiante projeto, em forma de casamata, num trabalho que envolveu 2.238 pessoas. Era portentosa, especialmente para os recursos da época, aquela obra de muralhas com paredes de 12 metros de espessura, abóbodas, guindaste elétrico de 80 toneladas, torres em eclipse de 75mm (e cerca de 16 toneladas), além de cúpulas encouraçadas e giratórias de 190mm e 305 mm. Tudo foi possível graças à tecnologia e aos aparatos alemães, importados da Casa Krupp.
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Foi assim que a Igreja de Nossa Senhora de Copacabana ou Socopenapan, no linguajar indígena, cedeu seu promontório ao Forte de Copacabana, diversas vezes deslocado até ganhar um lugar próprio. Ele funcionou como unidade bélica — então considerada a maior da América Latina — até 1987, quando passou a sediar o Museu Histórico do Exército. Os projéteis perderam, então, sua vez, já que era chegada a hora da cultura assumir o papel como arma mais poderosa. Mas uma imagem da santa (não a original da igrejinha), de 1 metro de altura (1,20m com a coroa), tem lá seu abrigo numa capela exclusiva na Fortificação. Outro homenageado é o engenheiro Ricardo Franco, idealizador da planta, que dá nome à Praça Coronel Eugênio Franco, na entrada na instituição.
POINT ALTERNATIVO
TIRO DE CULTURA E CIVISMO
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Coronel Júlio, Comandante e Diretor do Museu Histórico do Exército e Forte de Copacabana – Bárbara Lopes / Agência O Globo
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Quando os portões da instituição se abrem às 10h, especialmente nos fins de semana, já há uma expressiva fila na porta, com cerca de 500 pessoas, segundo o Coronel Júlio Teodorico Nascimento Netto, atual Comandante e Diretor do Museu Histórico do Exército e Forte de Copacabana (MHEx/FC). A visitação é oferecida de terça a domingo, até 19h30m, porém o funcionamento do Museu e da Fortificação se encerra às 18h.

— Nossas filas não ultrapassam 12 ou 15 minutos, fluem rápido. Nós recebemos, mensalmente, cerca de 80.000 pessoas. Aos sábados e domingos, essa fluência gira em torno de 2.500. Mas no último Dia dos Namorados chegou a 3.500. A paisagem é o primeiro convite — diz o militar, responsável pelo local há quase cinco meses.

Interior da Confeitaria Colombo. Café também é servido ao ar livre, assim como na cafeteria 18 do Forte – Bárbara Lopes / Agência O Globo
O roteiro do programa segue a seguinte dinâmica: o visitante entra pelo Pórtico; segue pela Alameda Octávio Correia; pela Sala de Vídeo do Museu; pela Sala de Exposição Temporária; pelo Museu de exposições de longa duração; pela Confeitaria Colombo; pela loja de souvenir Vitacura; pelo Café 18 do Forte; pela Fortificação; e, finalmente, pela Cúpula dos Canhões. Há ainda um laboratório destinado ao trabalho de preservação e restauração de obras e peças históricas, no local. As atrações são sempre gratuitas e o café da manhã é um atrativo à parte.

Nas tardes de terças e quintas, grupos escolares e outros previamente agendados aproveitam o percurso com aulas guiadas; basta ter, no mínimo, 15 pessoas. Cada ponto de parada é um passeio pela história do Brasil sob o ponto de vista do Exército brasileiro, cuja história também se confunde com a do país.

— As crianças conhecem o Museu, interagem e brincam. É uma sensação porque elas gostam de entra marchando e cantando e os demais visitantes ficam contagiados, param seus cafés para aplaudir. Eles são guiados por uma professora daqui. Ao final, fazem pinturas e desenhos. Ao mesmo tempo, estamos passando para eles um pouco da nossa história, que é belíssima. Nós, brasileiros, às vezes não a valorizamos tanto quanto deveríamos.

Nossa Senhora de Copacabana: réplica da original existente no santuário da cidade homônima na Bolívia, cedida ao Forte – Bárbara Lopes / Agência O Globo
A placa de entrada na sala dedicada à Nossa Senhora de Copacabana — réplica da original existente no santuário da cidade homônima na Bolívia, cedida ao Forte — anuncia que ela foi abençoada pelo Papa Francisco, durante a 18ª Jornada Mundial da Juventude, em 2013. Além desta, é possível percorrer todas as instalações da Fortificação, exceto a que mantém o antigo maquinário de geradores de energia. Quando ativo, ele permitia usufruir a energia cinética do tiro dos canhões.

— Um tiro que a gente dava naquela canhão (de 305mm) fornecia energia elétrica por uma semana ao bairro de Copacabana e por um mês à Fortificação. O pessoal do bairro, naquela época, já sabia: quando ouviam aquele barulho singular, eles teriam energia de sobra. Era um sistema muito desenvolvido para a época, de engenharia alemã, que o Brasil não teria condições de fazer — afirma Netto.

O Forte de Copacabana está bem no ranking dos locais mais visitados do Rio, de acordo com o Coronel, como um point de entretenimento de fato aproveitado pela população local, além dos estrangeiros.

— Muitas vezes, o MHEx/FC funciona como um destino alternativo. Às vezes recebo ligação para visita de comitivas e autoridades que, devido a condições climáticas, ficam impossibilitadas de ir a lugares como o Cristo Redentor ou o Pão de Açúcar. Nós distribuímos nossos folders em 50 hotéis pela cidade, mas recebemos muitos cariocas e brasileiros, de diferentes níveis sociais e idades. Acredito que a segurança torna o local muito convidativo para um passeio muito familiar. Vejo crianças correndo para lá e para cá, enquanto os pais tomam um café tranquilamente nas confeitarias; e outros que trazem seu próprio lanche e vêm curtir a bela paisagem e o pôr do Sol aqui — conta.

Uma área da cúpula dos canhões, denominada Campo de Marte, com auditórios e salas, foi, inclusive, requisitada pelo Comitê Olímpico Rio 2016, alocado no espaço desde abril. De lá serão coordenadas as maratonas aquática, de triatlo e de ciclismo, programadas para o bairro durante os Jogos.

TIRO DE CULTURA E CIVISMO

FORTE DE COPACABANA E MUSEU HISTÓRICO DO EXÉRCITO: DE CONSTRUÇÃO BÉLICA À EQUIPAMENTO CULTURAL

Construção do Forte envolveu 2.238 pessoas Foto: Divulgação

Projeto levou seis anos até ser finalizadoFoto: Divulgação

Para erguer estrutura, em forma de casamata, foram utilizados aparatos e tecnologias alemães Foto: Bárbara Lopes

Geradores: energia cinética do tiro dos canhões fornecia energia por uma semana ao bairro de CopacabanaFoto: Bárbara Lopes

Base do canhão de 305 mm de longo alcance: rotação 360°Foto: Bárbara Lopes

No Gabinete de Curiosidades, é possível encontrar até miudezas como uma mecha (pouquíssimos fios) de cabelo de Napoleão BonaparteFoto: Divulgação

Museu: cenário retrata expedições bandeirantesFoto: Divulgação / Soldado Anastácio

Museu: cenário retrata Movimento TenentistaFoto: Divulgação / Soldado Anastácio

Museu: cenário indígena é retratadoFoto: Divulgação/ Soldado Anastácio

Museu: batalha retratada em miniaturaFoto: Divulgação / Soldado Anastácio
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Apesar de o Museu Histórico do Exército ter sido implantado entre 1986 e 1987, somente dez anos mais tarde é que foi inaugurado o Salão Colônia Império (no 2º andar) com a exposição permanente “O Exército na Formação da Nacionalidade”. Ela abrange o período que vai de 1500 a 1889, em dez módulos, como os que retratam a Batalha dos Montes Guararapes, ocorrida em Pernambuco, e as expedições bandeirantes. Já em 1998, foi criado o Salão da República, também com mostra fixa, abrangendo o período da República até 1945, incluindo de Canudos à participação da FEB na Segunda Guerra Mundial. Os cenários chamam a atenção pela riqueza de detalhes e pelos personagens retratados em tamanho real. Outra surpresa é o Gabinete de Curiosidades, onde é possível encontrar até miudezas como uma mecha (pouquíssimos fios) de cabelo de Napoleão Bonaparte. A ala de exposições temporárias recebe, em julho, a exibição “Os 18 do Forte”.

Este mês será, inclusive, bastante movimentado por parte dos onze projetos culturais que atraem o público ao MHEx/FC, em atividades noturnas envolvendo música, dança, cinema, literatura e teatro. Haverá, nos próximos dias, o Chorinho no Forte (10), o Sarau no Museu (15), o Música no Museu (26), o Centro de Literatura (28) e o Orquestra Violões do Forte (30). Alguns têm datas regulares, caso do Sarau, realizado sempre na terceira sexta-feira de cada mês.

Moradora de Copacabana, Cleia Gonçalves comanda o Coral Vozes do Forte e o Encontro de Corais no maior pique, aos 76 anos. Ela própria procurou a instituição, há dez anos, a fim de conseguir um lugar para os ensaios de uma turma — todos maiores de 60 — que já liderava em 2004.

— Na época, eu procurei o Coronel responsável, que já queria criar um coral com soldados do Forte (o Vozes do Forte). Nós conseguimos entrar e fizemos a primeira apresentação do projeto, daí veio o Sarau. Contratei um tecladista e organizei de forma a ser um lazer, sem muita exigência dos participantes. É um grupo de aposentados que não são profissionais, mas que gostam de cantar; digo que sou uma regente autodidata — diz a organizadora, formada em Enfermagem e Direito, que já teve experiência em coral de ópera.

Roda de Chorinho, realizada sempre no primeiro e segundo domingo de cada mês – Divulgação
É com uma proposta amiga de espantar a solidão, causa frequente de depressão em idosos, que Cleia arrasta 20 amadores numa agenda que já alcançou mais de 250 apresentações no Forte e pela cidade e garante — Nós temos um público cativo; onde convida, nós vamos —. Não há monotonia para os espectadores, frisa, já que o grupo leva sempre um repertório variado, coreografias (até de dança cigana) e trajes à caráter quando há tema ou data comemorativa envolvida no encontro. No dia 28 de agosto, às 11h30, eles estarão no Museu de Arte Moderna (MAM).

— Temos o direito de pôr uma (fantasia) caipira, uma baiana bonita e nos divertir, mesmo sem mostrar as pernas. Queremos resgatar a vida e a juventude que ainda temos. E ninguém canta lendo; peço para decorarem — declara Cleia, que tem, entre as alunas, uma senhora com Alzheimer. — Se for o problema, sugiro colocarem Corega para fixar a dentadura. Tenho muito orgulho deste projeto que comecei depois dos meus 60 anos.

Quando as apresentações são marcadas para o Auditório (e não na Alameda), no alto do Forte, a instituição disponibiliza uma van para que subam confortavelmente, frisa o Coronel Júlio Teodorico Nascimento Netto, responsável pelo MHEx/FC. Um novo projeto, segundo ele, está em andamento, para beneficiar também outros grupos que requerem atenção especial:

— Nosso sonho agora é adaptar a nossa estrutura para visitação de pessoas com dificuldade visual e vamos fazer uma adaptação tanto no acesso quanto nas vitrines para interações tecnológicas. Hoje já temos um audioguia que as pessoas podem pegar o aparelho e escutar, mas, por QR Code, eles irão ouvir todas as informações históricas sem necessidade de um guia. Estamos em parceria com o Instituto Benjamim Constant para viabilizá-lo

Fonte: O Globo
Foto: Bárbara Lopes / Agência O Globo
Postado por: Raul Motta Junior