Mais de 75% dos moradores de favelas com UPPs querem que o projeto continue

Mesmo enfrentando problemas que vão da escassez de recursos à falta de ações sociais, as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) contam com a aprovação da maioria dos moradores das comunidades onde foram instaladas. Uma pesquisa feita pela Fundação Getulio Vargas (FGV) em 20 favelas mostra que 75,8% dos dois mil entrevistados querem a manutenção do projeto. Ao mesmo tempo, o estudo aponta uma preocupação: 43,4% temem o fim do programa, lançado em 2008, após a Olimpíada.

Segundo o cientista social e doutor em ciência política Márcio Grijó, coordenador da pesquisa “Dimensionamento dos impactos sociais das UPPs em favelas cariocas”, o estudo comprova que, apesar de citarem problemas, moradores avaliam de forma positiva a permanência de policiais dentro de suas comunidades.

— Embora façam uma série de críticas à atuação dos agentes de segurança e aos serviços oferecidos pelo poder público, a maioria dos moradores quer que as UPPs continuem. Quando defendem a necessidade de o programa ser mantido, deixam claro que não querem ver bandidos armados nem venda e consumo de drogas. É um mito acreditar que moradores de comunidades apoiam o tráfico. Pelo contrário, muitos temem que as UPPs encerrem as atividades após a Olimpíada — afirma Grijó.

O estudo foi realizado em duas etapas. Na primeira, pesquisadores ouviram, entre 2 de abril e 1º de junho de 2014, moradores de comunidades com as UPPs mais antigas: Santa Marta, Cidade de Deus, Jardim Batam, Babilônia, Tabajaras, Providência, Borel, Formiga, Andaraí e Vidigal. Na segunda, equipes da FGV estiveram, entre 6 de novembro de 2015 e 8 de janeiro deste ano, em outras dez regiões: Pavão-Pavãozinho/Cantagalo, Alemão, Vila Cruzeiro, Rocinha, Manguinhos, Jacarezinho, Barreira do Vasco-Tuiuti, Cerro-Corá, Lins e Vila Kennedy.

Nas comunidades visitadas durante a primeira etapa, 62,8% dos entrevistados disseram que, com a chegada das UPPs, diminuiu o número de armas em poder de bandidos. Além disso, para 58,4%, traficantes deixaram de ser uma ameaça, e, na opinião de 64,2%, houve redução no tráfico de drogas. Na segunda fase, focada em favelas com UPPs mais recentes, 46,7% das pessoas ouvidas acham que quadrilhas perderam armamentos; 31,7% acreditam que elas não representam mais um perigo e 38,4% afirmam que a venda de entorpecentes caiu.

Entre os moradores das 20 comunidades pesquisadas, 17,2% contaram que já foram revistados por policiais e 9,8% relataram abusos de autoridade. Mesmo assim, 55,5% acham a revista importante, contra 34,75% que a condenam. A média das notas dadas para o desempenho das UPPs foi baixa: 5,3%. Mas, segundo Márcio Grijó, ela é impactada pela falta de serviços que deveriam fazer parte do projeto.

O secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, gostou do resultado:

— A pesquisa confirma aquilo que sempre percebi, pois vou às comunidades e converso com todos. Ninguém melhor que o morador para avaliar a UPP. Acredito que estamos no caminho certo, a maioria deseja que o programa continue. É claro que uma iniciativa dessa dimensão sempre precisa de ajustes. Vamos fazê-los e seguir em frente.

Fonte: O Globo
Foto: Roberto Moreyra / Agência O Globo
Postado por: Raul Motta Junior