Do alto do morro, na Madureira do samba, do jongo e do baile charme, um pianista toca seu destino ao som do jazz. A trajetória de Jonathan Ferr, tal qual o ritmo que ele escolheu, é composta por improvisos. E peculiaridades. Apesar de, aos 30 anos, já ter feito turnê na Europa, lotar shows e estar prestes a lançar seu disco solo, nunca teve o próprio piano.
Nessa história, o primeiro acorde veio quase ao acaso — ou por ação divina, diriam alguns. Foi na saída de um culto, numa igreja evangélica da comunidade da Serrinha. Menino na época, perto dos 8 anos, ele se deparou com uma banca de vinis na rua. O pai, metalúrgico, deixou que ele pegasse o que quisesse. Ferr julgou o álbum pela capa. E levou para casa, no vizinho Morro da Congonha, a que ele achou mais bonita: a do pianista e pastor americano Jimmy Swarggart.
Ouviu o disco tantas vezes que quase o furou, enquanto fingia emitir notas no ar. Até que, em um dia de compras na Casas Bahia, a família resolveu presenteá-lo com um tecladinho, desses de criança, azul. Instrumento que o garoto colocaria numa sacola de mercado e carregaria para aulas numa ONG na favela.
— Cheguei de chinelo de dedo, bermuda e canela ruça. Era o mais novo, e nem o professor botou muita fé em mim — lembra Ferr.
Aprendeu as primeiras cifras e também que, no Brasil, vida de artista costuma ser espinhosa. O curso era barato, e seus pais foram seus mecenas no início. Com cinco filhos para criar, no entanto, a fonte secou. E o aspirante a músico poria em prática uma de suas tantas táticas para continuar.
— Meu irmão, malandramente, usava o dinheiro do dízimo para jogar fliperama. Resolvi segurar essa grana, que nossos pais nos davam, por uns três domingos, comprar garrafas de cloro, diluir em água e vender na favela. Pensei que estava rico. Pagava as aulas e ainda sobrava uma grana — diz o pianista, um dos poucos que concluíram o curso.
Talento descoberto, Ferr realizaria o primeiro sonho: entrar para a banda da igreja. O tecladinho azul ainda resistia como seu único “quinhão”, e ele passou a frequentar a casa de uma senhora viúva, conhecida da família no asfalto, para tocar no piano dela. No morro, o tráfico tentou cooptá-lo. Alguns amigos foram. Ferr, não. Focou numa obstinação: a Escola de Música Villa-Lobos, para a qual conseguiu uma bolsa de estudos aos 14 anos.
Ler e escrever partituras e se sentar diante de um grande piano se tornaram rotinas na vida do garoto de Madureira. Quando uma nota baixa no colégio quase pôs a bolsa a perder, ele bateu na porta do Palácio Guanabara, sede do governo do Rio, para pedir ajuda. E, por incrível que pareça, encontrou, na assistência social do estado, que conseguiu a matrícula de volta. As portas estavam abertas para o jazz aparecer:
— A arte tem esse lugar de mudar a vida das pessoas. E comigo aconteceu isso. Foi na Villa-Lobos que ouvi meu primeiro disco de jazz: “A love supreme”, de John Coltrane. Depois vieram Herbie Hancock, Thelonious Monk, a mistura de funk e soul, o bebop, o ativismo político… Eu estava fascinado.
Outro gênero, em direção completamente diferente, também surgiu para completar a identidade atual de Ferr: o rap, de MV Bill e dos Racionais MC’s, que o conduziu ao reduto do charme de Madureira e forjou sua consciência como homem negro na sociedade. Tudo coincidiu com a carreira que ele construía na noite, as experimentações no teatro, a mudança para Santa Teresa e, depois, para a Lapa, parcerias com músicos como Joel Ferreira e apresentações diante de plateias exigentes, nacionais ou estrangeiras:
— Eu me vi em lugares onde, às vezes, eu era o único negro. Isso é o reflexo de algo que está desequilibrado. No Brasil, o lugar do negro dentro do contexto do piano é muito pequeno — diz Ferr, enumerando artistas de estados como Pernambuco. — Isso é um fator histórico. O piano é um instrumento que custa o valor de um carro, cujo estudo é caro. Eu ainda não tenho o meu. Mas não desisti. Porque o racismo existe, e vence quando ele consegue te parar. A mim, não para.
Seguindo adiante, Ferr sabe que pode inspirar outros jovens. Desenvolve hoje sua linguagem musical particular, que ele chama de Urbanjazz. Volta e meia, chama um rapper para cantar enquanto ele toca ao piano. É curador e criador do evento Jazz Out, todas as quintas-feiras no Hotel Vila Galé, na Lapa. Mas, no próximo dia 9, volta a Madureira, à Void do bairro. Fará seu primeiro show de jazz no lugar que o viu nascer.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Agência O Globo / Domiingos Peixoto