Insatisfeitos com o cenário brasileiro, em 2018 sete moradores da região da Barra e arredores entraram na corrida eleitoral dispostos a conquistar uma vaga de deputado estadual ou federal pela primeira vez, mas não foram bem-sucedidos. A maioria pisava em terreno desconhecido e não esconde sua decepção com o jogo político . Mas, como apurou a equipe do GLOBO-Barra, seis meses após o início daquele que teria sido seu primeiro mandato, quase todos garantem estar dispostos a concorrer novamente.
Tainá de Paula Kapaz, arquiteta e urbanista da Praça Seca, diz que resolveu se candidatar a deputada estadual pelo PCdoB no ano passado por não se reconhecer nos políticos. De acordo com ela, faltam parlamentares com perfil técnico e que discutam a cidade pensando também em representatividade da população . Outro fator que a motivou, conta, foi o baixo número de mulheres na função. E ela não desistiu:
— Tenho vontade de ter uma cadeira na casa legislativa municipal. É importante que exista uma rede de renovação pulsante para trazer a política para o cotidiano das pessoas. Os eleitores só se mobilizam nas eleições.
Tainá recebeu 8.653 votos. Durante a campanha, diz, o que mais a decepcionou foi a pouca influência das mulheres nas decisões partidárias. Outra frustração veio do tom do debate:
— Muitos políticos e eleitores se pautaram pelo discurso de polarização, e só pudemos ver expressões de ódio, que não tinham conteúdo político. Foi muito difícil o diálogo na campanha de 2018 e na sociedade. E precisamos de diálogo para que a democracia aconteça.
Graças à visibilidade conquistada na campanha, Tainá foi convidada para o Fórum de Equidade de Gênero da ONU , na Tunísia, onde falou sobre os desafios das mulheres na política . Ela também continua coordenando a rede BR Cidades, em que arquitetos e pensadores discutem um novo projeto de cidade, e criou outra rede, a Bairro a Bairro, pela qual promove encontros mensais nas periferias.
PUBLICIDADE
— A campanha me trouxe muita visibilidade, mas dívidas também. Estou até hoje pagando com os meus recursos algumas despesas. Ouvi muitas promessas de investimentos, mas hoje sei que ter acreditado foi um erro. A velha política é pautada pela mentira — sentencia.
Rossana Rebecchi. Candidata
a deputada estadual
pelo PSDB,
a advogada
não pensa em concorrer novamente, mas diz que continuará dedicada
à causa ambiental Foto: Gabriela Fittipaldi / Agência O GloboRossana Rebecchi. Candidata a deputada estadual pelo PSDB, a advogada não pensa em concorrer novamente, mas diz que continuará dedicada à causa ambiental Foto: Gabriela Fittipaldi / Agência O Globo
Candidata a deputada estadual pelo PSDB, a advogada Rossana Rebecchi, membro da Comissão de Direito Ambiental da OAB/Barra, também se decepcionou com apoios prometidos e não concretizados. Ela conta que seu envolvimento com o meio ambiente fez com que recebesse o convite para disputar a eleição. Além da educação ambiental, abordava na campanha ocupações irregulares, saneamento básico e coleta seletiva do lixo. Conquistou 267 votos e afirma que dificilmente se candidatará novamente:
— Já faço alguns trabalhos em projetos públicos e privados e ainda tenho muitas ideias, principalmente de projetos sociais . Eu me decepcionei muito com a política e acho que não vou concorrer novamente. Mas a candidatura serviu para eu continuar a plantar as sementes de um mundo melhor.
Ela lamenta as dificuldades que um novato tem para ganhar espaço e defende uma revisão da legislação.
— As pessoas são muito receptivas, dizem que vão votar em você e, no fim, poucas cumprem a palavra. O brasileiro ainda não aprendeu a votar. Já existem as cartas marcadas; quem é novo tem pouca verba e pouco auxílio, fica no meio de uma briga de foice. E, infelizmente, ainda há compra de voto — desabafa.
Já o escritor e diretor artístico Anderson Quack, da Cidade de Deus , se candidatou a deputado federal pelo PSOL e conquistou 2.548 votos. Queria representar os negros e os moradores de favelas e ainda quer: já pensa em sua candidatura a vereador no ano que vem.
— As pautas que eu defendo e os grupos que quero representar têm uma demanda ainda maior dentro dessa onda ultraconservadora que vivemos. Precisamos de uma mudança, quebrar esse paradigma da sociedade. Temos um presidente que proferiu palavras de cunho racista . O governador diz que tem que jogar míssil na favela. O prefeito nunca entregou a chave do carnaval, que é ligado à economia criativa das comunidades — diz.
Nas próximas eleições, Quack vai concorrer pelo PSB. Ele vê com orgulho a sua jornada no ano passado.
— Tive votos do estado inteiro, apesar de ter pouca infraestrutura para fazer a campanha, com cerca de R$ 50 mil. Fui praticamente o meu coordenador de campanha, e essa é uma das coisas que vou reparar para ser um candidato mais competitivo. Outra coisa que aprendi é que não preciso estar em todos os locais, mas a minha mensagem precisa alcançar todos.
Como Tainá e Rossana, ele concluiu que dinheiro é fundamental na campanha.
— Infelizmente, na política ainda é preciso gastar muito dinheiro para se ganhar uma luta — diz o escritor, que continua trabalhando em projetos sociais, um deles com foco na reafricanização do samba. Candidatos investiram seu próprio dinheiro em campanhas Carlos Alberto Costa, o Bezerra, deixou a presidência da associação de moradores da comunidade Asa Branca, posto que ocupou por 21 anos, para disputar pela primeira vez uma vaga de deputado federal no ano passado, pelo PHS. Teve 1.193 votos, mas não desanimou: já se prepara para concorrer ao mesmo cargo nas eleições de 2022.
— Não vou tentar como vereador porque é uma disputa muito desigual, você tem que contar com o apoio de um candidato a prefeito para ter chance. A possibilidade de conseguir entrar é muito remota — acredita.
Bezerra diz que a campanha eleitoral de 2018 lhe trouxe muito aprendizado e que vai continuar tendo a educação como plataforma.
— É preciso investir na educação para diminuir a violência e dar força a pequenos projetos que podem ajudar a juventude a não ser presa fácil do crime organizado. Hoje, sei onde errei. Não estava preparado. Fiz uma campanha com mil reais que tirei do meu bolso. O partido me deu o material, mas os panfletos não andam sozinhos e eu não tinha como pagar pessoas para distribuí-los. Agora sei da necessidade de fazer campanha pela internet — diz.
Apesar da pouca verba, Bezerra conta que foi uma escolha não pedir doações.
— Não quis me envolver com muitas pessoas para não ficar preso a ninguém. Fiquei empolgado; em um momento achei que podia vencer, porque acreditei em muitas pessoas que disseram que iam votar em mim — explica.
Embora não esteja mais na presidência da associação de moradores, Bezerra garante que continuará ajudando sua comunidade:
—Faço trabalhos para os moradores daqui da Asa Branca como se eu ainda fosse o presidente. Tenho ido mais a Curicica e ao Camorim também.
O empresário Marco Antônio Totó, dono do Park Clube do Totó, no Recreio, foi candidato a deputado federal pelo PSD e obteve 388 votos no ano passado. Antes já havia tentado se eleger vereador. Apesar de considerar conturbado o cenário político atual, é outro que pensa em concorrer mais uma vez.
— O país está tentando caminhar, mas tem uma maré que vai contra e tenta tirar vantagem de tudo. Já comecei a conquistar meus eleitores. O mercado de animais movimenta bilhões por ano e tem um público bom. Hoje, não existe uma política de castração, de vacinação. Quando isso for feito, os abrigos vão ficar vazios e vai existir controle populacional. Tenho esperança de mudar as coisas e ajudar os animais. Seria interessante ver um vereador trabalhando essa questão — destaca.
Totó diz que gostaria de ver os políticos mais nas ruas e menos nos gabinetes:
— O político deveria ser funcionário do povo. Se eu for eleito vereador, quero que vejam o meu trabalho. Vou fazer parcerias público-privadas, porque o estado está falido.
Ele é otimista quanto ao futuro:
— Quem teve dinheiro se elegeu. Pelo menos, o povo não votou em quem tinha ficha suja . Por isso, acredito na mudança. Vai chegar um dia em que um candidato não vai precisar gastar milhões para se eleger.
Rommel Cardozo, proprietário do Bar do Oswaldo, por sua vez, acredita que é possível se eleger sem dinheiro. Ele se candidatou pela quarta vez no ano passado, dessa vez a deputado federal, pelo PSL. Teve 8.899 votos, não entrou, mas está mais animado do que nunca.
— Fiz uma campanha baseada na conversa com as pessoas, sem dinheiro, e tive muitos votos. Os mais próximos vêm ajudar, e todos se envolvem. Antigamente, era preciso ser apadrinhado por alguém.
Cardozo pretende se apresentar como vereador nas próximas eleições:
— Sete mil votos foram só do Rio! Minha campanha foi toda aqui, não saí do município. A Barra precisa de um candidato, e sou nascido e criado no bairro. Tem muita gente que vai a outros municípios buscar votos. E gente da Baixada que vai atrás dos eleitores da Rocinha. Esses caras não vão dar o suporte de que as regiões precisam.
Ele ressalta a importância na campanha. E, como Bezerra, garante que a educação é sua bandeira.
—A educação está falida, e temos uma brecha de uns 20 anos de juventude perdida para o tráfico. Para resgatar essa galera, não adianta dizer que as escolas estão com as portas abertas. Muitos, com 16 anos, já estão no crime. Vejo como solução colocá-los em um projeto esportivo sério. Proponho um choque de ordem na educação por meio do esporte. Fui administrador regional da Rocinha e trabalhei, por um ano e meio, o esporte como ferramenta de inclusão social — lembra.
O cirurgião vascular Zaluar Delboni, candidato a deputado federal em 2018, pelo PTB, também pensa agora na vereança. Apesar de novato na política, ele cresceu no meio, e seu pai chegou a ser secretário de Saúde. Durante 15 anos, Delboni trabalhou na saúde pública , sendo seis no Hospital Municipal Lourenço Jorge , na Barra:
—Amo medicina e me dedico ao serviço público porque acredito que tenho que ser útil. Pelo mesmo motivo quero entrar para a política. Minha bandeira está ligada à saúde, que é onde ocorre o maior desvio de dinheiro público. Tem que existir uma diminuição dos gastos públicos ou uma gestão adequada. E não pode ter deputado ganhando R$ 150 mil.
Delboni revela uma certa decepção com os eleitores, que, segundo ele, querem mudanças, mas não mostram esse desejo na hora de votar.
— A última campanha foi polarizada, mas democracia é ter opinião. A gente muda por meio de atitudes, e o povo não faz isso. Vem o carnaval e todo mundo esquece o que está acontecendo — lamenta.
A campanha do médico recebeu R$ 70 mil do fundo partidário, e ele ficou satisfeito com os 2.212 votos que recebeu (“para quem não teve espaço na televisão, acho que foi muito bom”, afirma). No entanto, conta, terminou a campanha endividado.
— Foi um erro ter parado de trabalhar para me dedicar à campanha. Estava iludido, quem ia apostar em quem acabou de entrar? Mas acreditei. Muita gente apertava a minha mão, fazia promessas, e nunca vi um centavo. Hoje, sei que vou continuar trabalhando caso me candidate outra vez. Muita gente me aconselha a não vincular minha imagem à política, mas quero vir vereador, com um trabalho de base, de apoio, bem organizado e com alicerce — diz.
Assim como outros candidatos da região, Delboni critica o modelo político atual e duvida das próprias chances de se eleger:
— Os votos ainda são comprados. Eu me recusei a fazer isso. No interior, é só voto de cabresto. Muita gente já entra vendido. Enquanto existirem campanhas milionárias, pessoas normais não vão ser eleitas.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior