Os altos e baixos do carnaval de rua do Rio de 2019

O Rio ainda tem mais um final de semana com 39 blocos, mas já é possível fazer um balanço do que deu certo e o que deu errado nesse carnaval. Segundo a Riotur, a cidade já foi palco de 412 desfiles que reuniram 4.506.310 pessoas. A expectativa da prefeitura é bater o número do ano passado de 7 milhões. Este ano, os foliões deram mais uma vez um show de criatividade nas fantasias e mostrou sua preocupação com as causas femininas e das minorias.

O Boi Tolo, um bloco não oficial, mostrou que carnaval rima com cuidado e respeito ao próximo, quando para achar a mãe de uma criança perdida, o bloco parou e todos se abaixaram. A descoberta de novos espaços na Zona Norte para pular carnaval também foi um ponto alto.

Lamentável foi ver as imagens de confusão e violência no Fervo da Lud. Pela primeira vez após a retomada do carnaval de rua, um bloco interrompe o desfile por causa de tumulto. A burocracia e a grande quantidade de exigências dos órgãos públicos também dificultaram a vida dos organizadores. Blocos grandes e queridos do público, como o Chora Me Liga e o Bloco da Favorita, deixaram de festejar por falta de acordo com o poder público. E com tanto bloco não oficial na cidade, a Polícia Militar suspendeu somente o colorido e alegre desfile dos Bunytos de Corpo, que há nove anos reúne foliões LGBTQI+.

Pontos altos
Solidariedade no Boi Tolo
Conhecido por desfiles de mais de dez horas, o bloco Boi Tolo parou a festa para encontrar a mãe de uma criança perdida no centro da cidade. Durante 20 minutos, os músicos ficaram sentados no chão para encontrar a vendedora ambulante Ágata Januário, mãe de Rafael. O exemplo foi seguido pelos foliões que também se abaixaram em silêncio e depois começaram a gritar o nome de Ágata até que ela ouvisse o chamado. Quando ela enfim chegou com o marido e encontrou o filho, todos se encheram de alegria. O momento, provavelmente, foi mais um daqueles que entram para história do carnaval de rua do Rio.

Campanha contra o assédio
Antes restrito aos blocos alternativos ou de causas feministas, a campanha não é não se espalhou pela cidade. Anônimos e famosos, como Paolla Oliveira, rainha do Cordão da Bola Preta, exibiam a tatuagem com a frase estampada no corpo.

Criatividade na fantasias
Os foliões se mostraram bastante engajados neste carnaval. Não faltaram as tradicionais críticas aos escândalos da política brasileira, mas o carnaval de rua também trouxe outras “pautas” no meio da multidão, como o repúdio à violência contra o público LGBTQI+, a valorização dos negros e o empoderamento feminino.

Novos lugares para brincar
O bloco Charanga Talismã levou muita gente da Zona Sul para Vila Kosmos e Vila da Penha pelo segundo ano consecutivo. Muita gente levantou antes das 6h para se fantasiar e pegar metrô e Uber até a Praça 2, uma pacata praça da Zona Norte da cidade, onde o bloco se concentrou. A Praça Agripino Grieco, no Méier, que também já se transformou em ponto de apresentação de blocos durante o ano todo, foi palco neste carnaval do bloco Caramuela, que também fez os foliões atravessarem a cidade em busca de boa diversão. ( Leia mais )

Pontos baixos
Confusão e violência no Fervo da Lud
A ação da Polícia Militar com bombas de efeito moral para conter uma briga entre foliões no bloco da cantora Ludmilla gerou mais tumulto e provocou o encerramento do desfile mais cedo. Mais de duzentas pessoas foram atendidas no posto médico próximo, a maioria com cortes e intoxicação por gás lacrimogêneo. ( Leia mais )

Polícia proíbe bloco
Após saírem da Praça Afonso Peaa, na Tijuca, o bloco Bunytos de Corpo foi proibido de seguir com o seu 9º desfile por ordem de policiais militares do 6° Batalhão da Polícia Militar. Os policiais alegaram que o grupo não tinha permissão para desfilar e que o cortejo não poderia prejudicar o trânsito. O problema é que o bloco, que reuniu cerca de mil pessoas, já estava no Maracanã, onde terminaria o desfile e havioa espaço para todos brincarem. Com tanto bloco não oficial, a Polícia só proibiu o divertido e já tradicional Bunytos de Corpo, que reúne o público LGBTQI+. ( Leia mais )

Nó no trânsito perto da Rodoviária
O trânsito na região da rodoviária mais um carnaval deu um nó e causou transtornos aos motoristas, por causa da locomoção dos carros alegóricos da Cidade do Samba para o Sambódromo e vice-versa. No sábado, foram registrados 70 quilômetros de engarrafamento. Já no domingo, o trânsito na região causou impacto na Avenida Brasil.

Banheiros químicos
Apesar do aumento do número de pontos de banheiros químicos na cidade, que passou de 30 mil para 32.500, ainda não é suficiente. No bloco Toco-Xona, por exemplo, os foiões chegaram a esperar 20 minutos na fila. Nos desfiles dos grandes blocos no Aterro do Flamengo, a quantidade atendeu bem ao público. No entanto, o centro da cidade precisa de mais unidades devido à quantidade de pessoas que circulam pelo local. O ideal seria colocar e manter banheiros químicos em pontos de concentração de pessoas, como a Rua do Mercado e a Praça Marechal Âncora, mesmo que não façam parte do roteiro oficial dos blocos.

Desfiles cancelados
Os blocos Chora Me Liga e Bloco da Favorita não desfilaram este ano no Rio. O primeiro, voltado para o público de música sertaneja e reuniu ano passado 800 mil pessoas, foi cancelado um dia antes da data marcada para o desfile. A Polícia Militar não deu autorização para o desfile porque, segundo a corporação, recebeu o pedido do bloco penas dois dias antes da festa, e não tinha como planejar o efetivo para o desfile em tão pouco tempo. Já o bloco da Favorita não foi para a rua porque, de acordo com a Riotur, os organizadores do bloco não aceitaram a mudança do local da apresentação para o centro da cidade.

Burocracia e excesso de exigências
Blocos, como Simpatia é Quase Amor e Orquestra Voadora, só obtiveram autorização para desfilar na véspera do desfile. A burocracia e o escesso de exigências levaram a Sebastiana e a Liga do Zé Pereira, que reúnem 19 blocos que desfilam na Zona Sul e no Centro, a divulgar uma nota de apelo ao poder público para viabilizar os desfiles: “Chegamos ao esgotamento de todas as possibilidades razoáveis para cumprir o que se tornou uma ‘gincana do impossível’.

Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior