“Alvorada lá no morro, que beleza / Ninguém chora, não há tristeza / Ninguém sente dissabor”. Os versos foram compostos em 1968 por Cartola, mas a canção, que se tornou um clássico da música popular, resume bem o amanhecer no Morro da Mangueira nesta quinta-feira, um dia após a conquista do 20° título da verde e rosa. Mais uma estrela no pavilhão que carrega nomes como Nelson Cavaquinho, Carlos Cachaça, Delegado, Jamelão, Dona Zica e Dona Neuma, além de marcas incontestáveis na história do carnaval carioca, como o primeiro campeonato reconhecido pela Liesa, em 1932, e o Supercampeonato no ano de inauguração da Passarela do Samba, em 1984.
No carnaval do Rio, triunfaram o samba, o discurso e a emoção da Estação Primeira de Mangueira, num desfile sobre os heróis esquecidos da História do Brasil. A apresentação foi marcada ainda por uma homenagem à vereadora Marielle Franco, assassinada em 14 de março do ano passado.
Entre os heróis mangueirenses anônimos, está Luiz Fernando Coelho, de 53 anos. Ele, que nasceu e ainda mora no morro, se sentiu agradecido pelo fato de a voz da comunidade ter ecoado no desfile.
— É gratificante perceber que a voz da comunidade, pelo menos no carnaval, foi ouvida. Isso deveria acontecer em outros momentos, não só no carnaval. Mas como se deu nessa época, a comunidade fica satisfeita — festeja o morador, que ainda destacou o esforço das pessoas que cruzam a Sapucaí em defesa do pavilhão:
— Para as pessoas que desfilam é muito importante! Muita gente ensaiou, desfilou no ensaio técnico embaixo da chuva. Acho que não tem nada melhor.
Nesta quarta-feira, durante a celebração no Palácio do Samba (nome da quadra da Mangueira), o carnavalesco Leandro Vieira, que conquistou seu segundo título no Grupo Especial, defendeu que o ingrediente mais importante para o sucesso da receita carnavalesca da Estação Primeira estava na representatividade do enredo defendido pela agremiação:
— A Mangueira merece essa festa. Faz carnaval, representa uma comunidade importante. Um carnaval de representatividade. Esses homens e essas mulheres aqui são os heróis do meu enredo que merecem sempre ser exaltados.
Após soltar o grito de campeão, Rosival Souza, nascido no Morro, só conseguia resumir em uma palavra o novo caneco: Alegria.
— É muita emoção. Um felicidade que os moradores da comunidade não aguentam. Ver como o enredo falou do povo, é só alegria — emociona-se o morador da Mangueira, de 53 anos.
‘Vitória do país inteiro’, diz rainha cria do morro
Evelyn Bastos, rainha de bateria da Mangueira desde 2014, se consagrou como mais um símbolo da comunidade. Além de mulher e negra, Evelyn é cria do morro e, antes de brilhar na Passarela do Samba pela Mangueira, participou da Mangueira do Amanhã, a escola mirim da Estação Primeira. Ontem, logo após o título, a “monarca” mangueirense afirmou que a vitória com críticas políticas tão contundentes iria incomodar muitos “preconceituosos”. Para ela, o título teve um sabor ainda mais especial por exaltar os verdadeiros heróis do povo, mas renegados pela História:
— A gente sabe que essa vitória vai incomodar muita gente. E não por causa da verde e rosa. Mas incomoda aos preconceituosos, racistas. Exaltamos os verdadeiros desbravadores do país, a verdadeira história foi contada. Os reis e rainhas exaltados trouxeram essa vitória.
Ela se disse realizada em poder fazer, na Avenida, uma “crítica social tão importante”. No fim, ela afirmou que a vitória é de todo o país:
— A gente desceu da favela. A maior festa desse mundo é do preto, pobre, suburbano e favelado. Ninguém consegue fazer carnaval se não tiver esse poder correndo na veia. Essa vitória não é só nossa. É de você mulato, mestiço, negro. Essa vitória é nossa. Essa vitória é do país inteiro.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo