O Maracanã também é nosso

Em sua edição de 27 de outubro de 1943, o GLOBO informava que o presidente Getúlio Vargas – reunido com os clubes do Rio no Salão Amarelo do Catete – garantiu a eles total apoio à construção de um grande estádio, provavelmente no campo de São Cristóvão. Na verdade, não era um grande estádio, mas dois: o Municipal e o Nacional. Com isso, começava a se realizar o sonho que os clubes cariocas alimentavam desde o ano anterior, quando o Pacaembu foi inaugurado em São Paulo. “Se os paulistas têm um grande estádio, por que não nós?”, argumentavam os presidentes de todos os clubes da cidade, grandes e pequenos, cuja federação era presidida por ninguém menos que Vargas Neto, sobrinho de Getúlio. Um ano depois, outra notícia importante: já se tendo desistido do Nacional, o que se construiria era o Municipal. E o local passava a ser o terreno do velho Derby Club.

O GLOBO detalhou todo o processo que acabou resultando no que seria o Maracanã. Registrou a ciumeira em relação ao Pacaembu, a busca de patrocínio oficial, a mudança de local, os debates que dividiam os políticos, uns querendo que o estádio fosse construído mais longe (Jacarepaguá, por exemplo), outros preferindo escolas e hospitais a uma praça de esportes com jeito de elefante branco.

Em 1943, o mundo em guerra, ainda não se falava em Copa do Mundo. E a candidatura brasileira à país-sede, lançada em 1938, só seria aprovada pela Fifa em 1946.

Embora o papel mais importante representado pela imprensa na história do Maracanã seja atribuído, com justiça, ao “Jornal dos Sports”, a contribuição dada pelo GLOBO foi fundamental. Mais do que detalhar cada episódio da longa caminhada, o jornal fez de suas páginas uma tribuna pela sua construção. Desde que o estádio começou a ser discutido, Mário Filho (ex-chefe da equipe de esportes do jornal, no qual continuaria assinando, até 1947, a coluna “Primeira fila”) foi um determinado batalhador pela realização do que seria o Maracanã. E fez isso em duas frentes.

Foi com a ajuda financeira de Roberto Marinho, Arnaldo Guinle e José Bastos Padilha que Mário filho conseguiu comprar, de Argemiro Bucão, em 1936, as ações que o tornariam dono do “Jornal dos Sports”. Quando ainda havia opositores à ideia do Maracanã, ele tomou para si o papel de mais ferrenho defensor do estádio. Escreveu nas páginas dos dois jornais artigos nesse sentido.

No GLOBO, pautou o repórter Geraldo Romualdo da Silva para uma série de reportagens ouvindo gente do esporte, da política e da vida pública brasileira sobre “O estádio para a Copa do Mundo”. Essas reportagens, publicadas de maio a setembro de 1947 nas páginas de esporte, refletem exatamente o que aconteceu naquele ano em que nada saía do papel – e o número de opositores crescia.

Ênfase na necessidade de uma estádio à altura de uma competição mundial, críticas aos governantes pela lentidão (Eurico Gaspar Dutra era o presidente e o general Ângelo Mendes de Moraes, o prefeito), dúvidas de alguns céticos (Ary Barroso, de partido da oposição, temendo que as arquibancadas desmoronassem se levantadas pelo governo), numa longa série cujo conteúdo só perderia a razão de ser quando, em 20 de janeiro daquele ano, dia do padroeiro da cidade, finalmente foi lançada a pedra fundamental, semente do que seria o maior estádio do mundo.

Inaugurado no dia 16 de junho de 1950, o Maracanã recebeu esse nome em referência aos Maracanã-guaçu – um tipo de ave originária do norte do país que vivia no local antes de o estádio ser construído -, que emitiam sons parecidos aos de um chocalho. Em tupi-guarani, Maracanã significa “semelhante a um chocalho”. Embora seja assim reconhecido no mundo todo, seu nome oficial é Estádio Jornalista Mário Filho, em homenagem àquele que tanto lutou por sua construção.

Fonte: O GLobo
Foto: Reprodução
Postado por: Raul Motta Junior