A música e o balé clássico entraram na vida de um grupo de dez moradoras do Morro da Providência na noite do último sábado. Selecionadas para assistir de camarote à Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal, elas se emocionaram com a realização de um sonho: desfrutar de um espetáculo na casa centenária pela primeira vez.
– Quando a orquestra começou, meu coração disparou. Acharam que eu estava passando mal – disse a nordestina Adelina Monteiro, uma das mais animadas.
Aos 75 anos, ela criou oito filhos no Morro da Providência, onde vivem seus 27 netos e 12 bisnetos. Apesar de morar perto do teatro há mais de cinco décadas, nunca tinha visto um espetáculo.
– Estava sempre ocupada cuidando dos meus filhos e netos. Também faltava dinheiro. O máximo que consegui foi participar de uma visita guiada, há um ano, com o grupo de teatro da comunidade, do qual faço parte – contou ela.
Adelina vive de uma aposentadoria de R$ 788 e já encenou duas peças com o Grupo de Convivência e do Teatro da 3ª Idade: “Providência já”, sobre a história do morro, e “Ópera do malandro”, de Chico Buarque. O passeio foi iniciativa dessa trupe, que teve apoio da UPP local – as mulheres passaram o dia recebendo tratamento especial, com maquiagem e cabelos feitos em um hotel no Centro, além das roupas de gala.
No corpo, Adelina traz a marca da violência na primeira favela do Brasil: uma cicatriz de bala perdida que atingiu sua cabeça, em 2009.
Amante de música clássica, a pernambucana Célia Macedo, de 56 anos, contou que a falta de recursos a impedia de conhecer o Municipal:
– Aproveito shows de música clássica sempre que posso. Já estive no Projeto Aquarius, do GLOBO, várias vezes. O Municipal, para mim, é uma novidade. Tudo é muito suntuoso. Estou emocionada.
Depois de sua primeira experiência com a música clássica, a arrumadeira aposentada Antônia Ferreira, de 65 anos, pretende voltar o quanto antes – e levar toda a família.
– Sempre passava na porta do teatro, mas nunca tinha entrado. Na próxima vez, a família vem junto – afirmou Antônia.
O programa da noite teve um panorama do balé russos dos séculos XIX e XX.
Fonte: O GLobo
Foto: Gustavo Stephan
Postado por: Raul Motta Junior