Alessandro Teodoro já se preparava para dormir na marquise do prédio da sede da Defensoria Pública, no Centro do Rio, quando ouviu o motor de um ônibus que parou a poucos metros. Levantou, assustado. Em poucos minutos, jovens que saíam do veículo se espalhavam pela calçada distribuindo hambúrgueres em sacos de papel, sentando no chão e conversando com os cerca de 200 moradores de rua que dormem no local. Teodoro resolveu se aproximar e, quando viu um banquinho de plástico vago à espera de um postulante a um corte de cabelo, logo se sentou.
— Às vezes é bom dar um trato na aparência. Geralmente, as pessoas veem a gente de forma muito negativa. Quando chego perto, já acham que quero assaltar — disse o homem de 32 anos, que vive na rua vendendo balas em sinais de trânsito do Centro há mais de dez, quando a mãe morreu, e ele decidiu sair de casa.
O grupo de cerca de 100 voluntários saiu pontualmente à 1h desta terça-feira, em dois ônibus, do T.T. Burger, hamburgueria do chef Thomas Troisgros para passar a madrugada distribuindo hambúrgueres, roupas e itens de higiene para moradores de rua do Centro da cidade.
Além de hambúrgueres, também foram distribuídos roupas e sapatos – Pedro Teixeira / Agência O Globo
A iniciativa — batizada de MuTTirão — começou em 2014, só com o chef e mais dois amigos. Agora, ela acontece a cada três meses, com a participação de vários colaboradores.
Nesta madrugada, além de profissionais da Barbearia do Zé, o evento também teve voluntários para cadastrar e direcionar os moradores de rua para vagas de emprego.
— Já criamos vínculo com várias pessoas. Muitos já me reconhecem, vêm falar comigo. Já é a oitava vez que fazemos o mutirão. E isso é o mais importante, o contato com essas pessoas, que são invisíveis no dia a dia da cidade — conta André Meisler, um dos sócios do T.T. Burguer.
Marcelo Ronaldo, de 38 anos, mora na rua há seis meses, por conta de “problemas familiares”. Ele é um dos poucos ali que têm um emprego com carteira assinada: todos os dias sai do Centro, onde dorme, para trabalhar num supermercado na Ilha do Governador. Mesmo assim, conta que têm dificuldade de se alimentar.
— Tem dias em que eu não como. A maioria das pessoas aqui depende de projetos de caridade para se alimentar. Ainda bem que quase todo dia passa alguém distribuindo comida — afirmou.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Pedro Teixeira / Agência O Globo