Na programação do festival Solos em Cena, está incluída a leitura dramatizada “Nelson Rodrigues por ele mesmo”, que será feita, no próximo sábado, por um dos principais nomes da dramaturgia brasileira: Fernanda Montenegro. Em cena, a atriz lê e conversa com a plateia sobre seus sete anos de convívio com o autor.
— Esse trabalho é baseado em livro homônimo de Sônia Rodrigues, filha dele, que reuniu crônicas não publicadas de seu pai. Tive uma ligação de sete anos de trabalho, amizade e admiração pelo Nelson. A recepção do público é extraordinária. Pergunto quem o leu e várias pessoas sempre levantam as mãos — conta Fernanda, que falou com exclusividade ao GLOBO-Niterói.
Nelson Rodrigues escreveu “Beijo no asfalto” (1960) a pedido de Fernanda, que, do autor, também interpretou “A falecida”, no cinema.
— Naquela época, durante anos e anos de golpe militar, o Nelson não era bem visto pela esquerda, mas nós passamos por cima porque ele era maior do que isso — diz a atriz.
Fernanda, viúva do ator Fernando Torres, garante que não se furta a responder todos os tipos de perguntas que vêm do público após a leitura:
— Estou aberta a qualquer coisa, mesmo a perguntas sobre política, existenciais, sobre a minha vida, não tenho censura. Estou lá para atender à plateia. Não sou eu sozinha, estou com Nelson.
A atriz acha curioso que a atual situação política brasileira ainda não tenha sido assunto nas apresentações deste ano:
— Estranhamente, não (perguntaram sobre política). Até fico admirada de isso não acontecer.
Com mais de 60 anos de carreira, Fernanda já se apresentou muito nos palcos de Niterói. Mas a cidade, revela a atriz, tem um lugar especial em suas memórias por outro motivo:
— Tivemos uma casinha bonita, simpática, em Piratininga, da qual nos desfizemos no início dos anos 1980. Compramos logo que nos casamos, em 1953. Era inóspita, tinha uma picada para chegar à praia. Só construímos nos anos 1970, mas ainda havia pouca gente lá. A lagoa era deslumbrante.
A casa foi vendida pela família por conta da rotina atribulada que Fernanda e o marido tinham, devido aos compromissos da profissão:
— Viajávamos muito, não tínhamos tempo, e vendemos para tocar a vida. Entre as lembranças, tenho uma foto tirada pelo Cláudio (Torres), meu filho, que tinha 14 anos, com Fernando pescando ao fundo, em Piratininga. É a foto oficial de quando fiz 50 anos.
Fonte: O Globo
Foto: Divulgação
Postado por: Raul Motta Junior