‘Coliving’, a nova versão do hippie no campo

Histórias de pessoas que trocaram o interior pelos grandes centros, em busca de sonhos e uma vida melhor, são bem comuns. No entanto, cansadas do caos urbano, muitas famílias trilham hoje o caminho inverso, deixando as metrópoles para adotar um estilo de vida mais simples e sustentável. Esse modo de vida ganha força, aliado ao que hoje é chamado de coliving — compartilhamento de moradias e ideias —, que teve seu auge com o movimento hippie nas décadas de 1960 e 1970, mas se enfraqueceu ao longo dos anos, e agora volta a atrair pessoas que anseiam pelo bem comum.

Roberta Vasconcellos e sua família são exemplo. Eles deixaram Belo Horizonte há cerca de dez anos desejando uma vida num lugar onde todos seguissem os mesmos princípios, e encontraram a comunidade Monte Sião, em Várzea das Moças:

— A vida aqui é maravilhosa, e é esse o local que escolhi para criar meus filhos.

Embora a filosofia de vida esteja chamando mais a atenção de certas famílias, a comunidade Monte Sião foi criada em 1995 por 30 amigos. Eles se conheceram na igreja A Palavra Viva e, por se darem bem e buscarem objetivos parecidos — entre eles uma vida com menos custos e impactos no meio ambiente —, resolveram apostar na ideia de uma comunidade sustentável. Hoje, a Monte Sião é o lar de cerca de 50 famílias que estão distribuídas em 45 casas. No terreno foi construída a nova sede da igreja, uma escola bilíngue, que atende do maternal ao ensino médio, um restaurante, um salão de beleza e um brechó. Há ainda uma loja de alimentos, uma horta e uma fazendinha onde são criados animais, como galinhas, que fornecem alimentos para os moradores. A comunidade conta ainda com um biodigestor, que usa o esterco das vacas para gerar gás natural para fogões e lampiões, e um catavento que ajuda no abastecimento de água.

Moradores buscam viver de forma sustentável com menos custos e menos impacto no meio ambiente – Ana Branco
— Hoje, temos um problema que é bom. Os filhos cresceram, se casaram, mas não quiseram sair daqui. Os lotes acabaram, e já não temos mais como receber ninguém. Tem gente que se mudou da Suíça e dos Estados Unidos e veio para a nossa comunidade — orgulha-se Selma Esteves, uma das pioneiras junto com o marido, Silas Esteves.

A terapeuta Karine Ferreira ainda não conseguiu se desvincular dos grandes centros, mas já introduziu na sua rotina um pouco da vida mais sustentável que conheceu no projeto Muriqui-Assu, fundado em 2014, em Muriqui, na região de Pendotiba. Karine é aluna do curso de Permacultura e Bioconstruçãodo, oferecido pelo projeto:

— Muito mais importante do que aprender a construir uma casa sustentável é saber que é possível viver de uma maneira tão simples. Vir para cá é uma terapia. Eu buscava uma vida mais calma levando em conta a natureza e o outro, e queria passar esses valores para o meu filho de 7 anos.

Wilson Dias no interior da sede sustentável do Muriqui-Assu, que está sendo construída pelos alunos do projeto – Luiz Ackermann
O professor e idealizador do projeto, Wilson Dias, já foi missionário religioso em vários países, mas, atualmente, vive em Muriqui ao lado da mulher, Eloina Tereza Pimentel, e do filho Nicolas de Lucas, que também são instrutores em oficinas. A casa da família é simples, mas tem estrutura para receber até 16 alunos e camping que comporta mais dez barracas. O objetivo é transformar o local numa ecovila com capacidade para 36 pessoas.

Além do curso Permacultura e Bioconstrução — no qual os alunos estão construindo a sede da ecovila —, há oficinas de agrofloresta, plantação orgânica, alimentação crua, sabão e tintas naturais. Os preços variam de R$ 270 a R$ 320 e incluem dormitório e alimentação.

— Aqui nós aprendemos que quando trabalhamos juntos e em prol de todos somos muito mais fortes — resume Dias.

Fonte: O Globo
Foto: Ana Branco / Ana Branco
Postado por: Raul Motta Junior