Coração das provas de rua, Copacabana está no clima dos Jogos

Ainda estamos no inverno, mas, em Copacabana, parece que o verão chegou. Estrangeiros com roupas de banho circulam de um lado para o outro, e, nos quiosques, a disputa é grande por uma mesa. Quem quer fazer uma selfie diante dos anéis olímpicos precisa entrar numa fila. Enquanto isso, nas escolinhas de esportes na areia e no mar, o número de novos alunos — incluindo de outros países — só cresce. A oito dias da cerimônia de abertura do maior evento, o bairro não somente se prepara para ser o coração das competições de rua como já é o endereço mais quente dos Jogos. Além disso, o lugar começa a despontar como um dos favoritos na disputa por uma medalha na modalidade “segurança”: moradores dizem que há tempos não sentiam tamanho clima de tranquilidade, fruto da presença ostensiva de militares.

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— Aqui é a festa — afirmava na quarta-feira o fotógrafo peruano Silver Chavez Lopes, de 38 anos.

Embora a maior parte das competições olímpicas tenha outros palcos, o endereço que Silver escolheu para se hospedar e trabalhar na cidade foi Copacabana. Ele chegou há 30 dias ao bairro, onde alugou um apartamento com o irmão e um amigo uruguaio.

— Só vou fotografar em Copacabana, que atrairá um grande público das competições e, certamente, também atletas a passeio — disse o peruano.

Na tarde de ontem, banhistas de todo o planeta lotavam as areias do Posto 5, que será cenário das provas de maratona aquática, triatlo e ciclismo de estrada. Uma arquibancada já foi montada no canteiro central — bloqueado neste trecho aos pedestres — para o público que vai assistir às competições. Agentes da Força Nacional vigiam a instalação. Instrutor de stand up paddle naquele trecho da orla, Gabriel Melo, de 22 anos, resumiu bem o espírito que tomou conta de Copacabana.

— Turistas de outros países e brasileiros circulam pelo bairro em número proporcional. No verão de verdade, por causa do calor, as pessoas procuram mais o mar. Nesta Olimpíada, temos o clima nos ajudando — destacou Gabriel, que, esta semana, ensinou um grupo de estrangeiros que participa da organização da cerimônia de abertura a remar sobre pranchas.

BAIRRO QUE RESPIRA ESPORTE

Cariocas e turistas fazem fila para tirar fotos na estrutura dos anéis olímpicos, um hit nas redes sociais – Gabriel de Paiva / Agência O Globo
O vôlei de praia também será disputado em Copacabana, na altura da Avenida Princesa Isabel, onde operários e funcionários de empresas envolvidas nos Jogos seguem num frenético vaivém para deixar tudo pronto até a próxima semana. Bem pertinho da arena montada, uma escolinha ganhou diferentes sotaques. O projeto Geração Craque Só na Bola, do governo estadual, hoje tem 18 crianças e adolescentes de outros países entre seus alunos. Todos de famílias que estão no Rio por causa da Olimpíada e que aproveitam para praticar futebol de areia, vôlei e handbeach (o handebol de praia).

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— A maioria são chilenos. mas temos portugueses, argentinos… De manhã, eles passeiam. No final do dia, fazem atividades com a gente — conta Almir Fernandes, coordenador geral do projeto, acrescentando que Copacabana é uma referência na prática de esportes e, por isso, virou o coração da Olimpíada. — Não podemos esquecer que estamos no berço do futebol de praia. Copacabana é reconhecida mundialmente por isso.

A escolinha comandada por Almir é vizinha à estrutura de anéis olímpicos que bomba nas redes sociais. Ontem, era preciso um pouco de paciência para tirar uma foto com o símbolo dos Jogos. Ao redor, ambulantes vendiam toda sorte de bugigangas referentes à Olimpíada, tentando ganhar dinheiro de turistas e cariocas. Havia de camiseta com os aros estampados, vendida a R$ 25, a arcos de cabelo em forma de flores, a R$ 10. Camelô em Madureira, Everton Mendes, de 25 anos, mudou seu “escritório” para a Praia de Copacabana, onde agora vende bandeiras de 25 países que ele próprio produz. Cada uma custa R$ 50.

— Têm saído mais as do Brasil, da Colômbia, do México, dos Estados Unidos e da Rússia. Na Copa do Mundo, vendi muitas. Na Olimpíada, espero faturar ainda mais — disse Everton.

Quem também espera lucrar alto são os quiosqueiros da orla.

— O pessoal prevê um réveillon por dia. Tem uma semana e meia que estamos assim, ó — festejou Alex Vieira, gerente do quiosque Cabana, mostrando várias mesas ocupadas, principalmente por turistas estrangeiros. — Estávamos quase no vermelho. Esta semana, o movimento aumentou quase 60%. Torço para que seja como na Copa, quando o número de clientes dobrou.

O clima olímpico contagiou a população do bairro. Na festeira Rua Almirante Gonçalves, moradores se juntaram para pendurar, numa corda esticada entre dois prédios, um bandeirão verde e amarelo — o mesmo usado na Copa, mas acrescido dos aros olímpicos, feitos com bambolês. No próximo dia 13, a partir das 17h, eles promoverão uma roda de samba no asfalto.

INTERDIÇÕES VÃO MUDAR ROTINA

Uma equipe de militares faz patrulhamento na Rua Barata Ribeiro: moradores satisfeitos – Márcia Foletto / Agência O Globo
O fato é que Copacabana será o bairro que mais terá sua rotina alterada pelos Jogos: para se ter uma ideia, no dia 18 de agosto, data da prova de triatlo masculino, será feriado na cidade. No mesmo dia, 42 linhas de ônibus que passam pela região terão seus itinerários modificados. A a Avenida Atlântica ficará interditada nas proximidades do Forte de Copacabana por quase todo o período dos Jogos, começando pelo dia 4, quando serão montadas as instalações da prova de ciclismo de estrada. Ruas transversais também sofrerão bloqueios por causa do ciclismo de estrada, da maratona aquática e do triatlo. Para os jogos de vôlei de praia, as interdições vão de 6 a 18 de agosto, no trecho entre a Princesa Isabel e a Praça Almirante Júlio de Noronha. Os horários irão variar de acordo com o dia.

Mas, como as competições ainda não começaram, o maior impacto sentido até agora pelos moradores é no campo da segurança.

— Tem tanto policiamento que eu poderia ter vindo andar na praia com meu colarzinho de ouro… Há muito tempo deixei de usá-lo por medo — dizia Maria José, de 70 anos, moradora do bairro que caminhava com a família pela praia. — Meus netos estão amando essa festa toda.

Fonte: O Globo
Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo
Postado por: Raul Motta Junior