Colégio de Copacabana abre primeira gibiteca da rede estadual com 15 mil obras

Paredes adesivadas com enormes painéis coloridos, prateleiras cheias de aventuras e estantes que funcionam como um trampolim para quem adora mergulhar em um mundo recheado de diálogos escritos em balões. Tudo isso cabe na gibiteca do Colégio Estadual Infante Dom Henrique, em Copacabana, inaugurada na segunda-feira passada, e que é apontada como a primeira localizada em uma escola pública da rede do estado. O espaço, com pouco mais de 15 metros quadrados, reúne cerca de 15 mil exemplares, que ajudam a contar os últimos 70 anos das histórias em quadrinhos.

ACADEMIA REÚNE IMORTAIS

O material disponível faz parte do acervo de mais de 20 mil peças da Academia Brasileira de História em Quadrinhos (Abrahq). A instituição, que abriga os imortais dos gibis, nos moldes da Academia Brasileira de Letras, foi criada em janeiro de 2015 pela produtora Ágata Desmond, de 76 anos. Ela precisava cumprir uma promessa feita ao amigo e desenhista Edmundo Rodrigues — um dos grandes quadrinistas do país, que dá nome à gibiteca da Infante — antes de ele morrer, em setembro de 2012, aos 77 anos.

— Ele teve um aneurisma e deixou essa missão escrita em uma carta, que só poderia ser aberta por mim, após sua morte. Muitos falaram que era um sonho distante, mas sempre acreditei que daria certo — conta Ágata, presidente da Abrahq.

O acervo tem raridades como exemplares da revista “O Tico-Tico” da década de 1940, de “Irina, a bruxa”, obra clássica do terror em quadrinhos, criada por Edmundo Rodrigues na década de 1960, e de “Jerônimo, o Herói do Sertão”, personagem de novela da Rádio Nacional levado para os quadrinhos por Rodrigues. Tem ainda os primeiros exemplares de “Popeye” a desembarcarem no Brasil, por volta de 1975. Todo o material está disponível para alunos de escolas públicas e pesquisadores.

— A visitação será de segunda a sexta-feira e as escolas da rede pública têm que agendar um horário para levar os alunos — diz o diretor da escola, José Carlos Madureira, de 50 anos.

A agenda de visitação à gibiteca ainda será montada pela academia e pela Secretaria estadual de Educação. Segundo Ágata, fãs de gibis que quiserem colaborar poderão doar exemplares para o acervo:

— A gibiteca surgiu como uma forma de atender os alunos, oferecer obras e dividir essa paixão com outros fãs de quadrinhos.

Até o fim do ano, três vezes por semana, os alunos terão oficinas de roteiro e de desenho e serão responsáveis pela produção de uma revista em quadrinhos, com personagens criados por eles. Além disso, vão aprender a montar roteiros para teatro e rádio. A ideia, segundo Madureira, é manter os alunos no colégio por mais tempo e estimular a criatividade de cada um:

— Nós pensamos nesses encontros como uma nova forma de aprendizado. Vamos utilizar os traços em aulas de Geometria, criar textos coesos e bem escritos, romper com a timidez, sintetizar o raciocínio. Esses ensinamentos ajudam dentro de sala de aula.

PROJETOS LÚDICOS

De acordo com a Secretaria estadual de Educação, a criação de projetos lúdicos ajuda o colégio a se aproximar da realidade dos alunos e a reduzir índices de abandono escolar. No ensino médio, a taxa de evasão na rede foi de 5,1%, no ano passado, contra 8,9%, em 2016. Já no Ensino Fundamental, caiu de 4,3%, em 2016, para 2,6%, em 2017.

— Sempre gostei de quadrinhos, adoro desenhar. Agora tenho me interessado mais pela escola. Com as aulas, espero me aprimorar nas técnicas e no grafismo para melhorar o que gosto de fazer — afirma Luiza Victoria, de 15 anos, do 1º ano do ensino médio da Infante.

Em nota, a secretaria informa que o bom resultado na rede “é fruto de projetos pedagógicos realizados e implantados nas escolas públicas do Rio de Janeiro, que envolvem apoio e reforço em disciplinas, desenvolvimento de ações, experiências e práticas educativas pioneiras em diversas áreas e outras propostas”.

— Projetos pedagógicos que são trabalhados de forma lúdica, como acontece na gibiteca, ajudam a atrair o interesse pela leitura — complementa o secretário estadual de Educação, Wagner Victer.

Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior