Análise: Irã joga nas regras de Trump para aprofundar seu dilema de guerra

“RAUL BARROZO DA MOTTA JUNIOR”

O Irã parece estar enfrentando Donald Trump em seu próprio jogo.

Na segunda-feira (13), o presidente dos EUA reclamou que não se pode confiar na República Islâmica para cumprir um acordo, criticando seus governantes por uma atitude que é uma de suas próprias marcas registradas.

“Era um acordo fechado, e então eles o romperam. Eles sempre o rompem”, disse ele em entrevista à Fox News sobre o memorando de entendimento que suspendeu brevemente a guerra.

Trump não pareceu perceber a ironia de sua crítica, dado o seu hábito de abandonar diversos acordos internacionais, incluindo o Acordo Climático de Paris (duas vezes). Alguns críticos atribuem a atual situação difícil dos EUA à decisão de Trump, em seu primeiro mandato, de descartar o acordo da era Obama que limitava o programa nuclear do Irã.

Mais tarde naquele dia Trump, frustrado, prometeu impor seu próprio pedágio aos navios que transitam pelo Estreito de Ormuz. O Irã, em uma oferta carregada de sarcasmo, apresentou um preço melhor do que o do presidente americano, autor de “A Arte da Negociação”.

“O presidente está absolutamente certo”, escreveu o ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, em publicação na rede social X, argumentando que Trump havia legitimado a posição de Teerã sobre a cobrança pela passagem na via navegável vital. Araghchi acrescentou com ironia: “20% é, claro, demais. Seremos justos”.

Trump está descobrindo que o Irã é um negociador duro e tem sua própria interpretação do que constava no memorando. E ele ainda não explicou claramente aos americanos por que reacendeu uma guerra que, repetidamente, afirmou já ter vencido.

Semanas depois de declarar que um memorando de entendimento significava que ele havia encerrado para sempre o programa nuclear do Irã e trazido paz ao Oriente Médio pela primeira vez em 3 mil anos, ele mudou o discurso.

Na segunda-feira, Trump disse no programa de rádio de Hugh Hewitt que o acordo era um “teste” no qual o Irã falhou e que “não significava muita coisa”.

Outrora, admiradores poderiam ter argumentado que as contradições acentuadas de Trump eram prova de que ele estava jogando um xadrez diplomático quadridimensional. Agora, na melhor das hipóteses, ele está preso em um impasse.

Trump não consegue mudar a realidade da guerra

O memorando de entendimento ruiu porque o Irã agiu para defender sua maior vitória na guerra: o controle efetivo sobre o estreito. Isso reforçou uma dura realidade para os EUA: apesar de todas as ameaças de Trump e do poderio militar americano, Teerã continua ditando a dinâmica do confronto.

E a equação que definiu a guerra permanece inalterada: a República Islâmica utiliza a geografia e uma compreensão astuta de seu próprio poder limitado para superar, em manobras estratégicas, uma superpotência adversária.

A nova disputa de vontades surgiu, em parte, da pressa do governo em negociar um memorando de entendimento que continha termos imprecisos.

A equipe de negociadores de Trump, sob a liderança do vice-presidente americano, JD Vance, parece não ter percebido o que críticos mais versados ​​em história e diplomacia compreenderam imediatamente: que o Irã usaria o acordo para obter nova vantagem estratégica.

Por exemplo, o acordo exigia que Teerã “fizesse os preparativos” para a passagem livre e segura de navios comerciais pelo estreito durante 60 dias e que colaborasse com Omã para “definir a futura administração e os serviços marítimos” na região.

Superficialmente, isso concede aos EUA o que eles desejam — a operação normal do estreito. No entanto, o Irã parece encarar isso como uma confirmação de que controlará a via navegável após a assinatura de um acordo definitivo. Não surpreende, portanto, que o país lute para moldar o novo status quo.

Essa falha agravou um erro anterior: a incapacidade de compreender que o Irã fecharia o estreito logo de início. O fato de essa questão persistir um mês após a celebração do memorando de entendimentos sugere que o prazo de 60 dias estipulado para um acordo abrangente — incluindo questões sobre o programa nuclear iraniano — era absurdamente irrealista.

As dificuldades do governo em influenciar o comportamento iraniano elevam o nível das indagações sobre o retorno de Trump à guerra.

Há, por exemplo, motivos para acreditar que ataques a alvos iranianos e a reimposição, por parte de Trump, de um bloqueio naval seriam mais eficazes em alterar os cálculos dos novos líderes iranianos do que foram no passado? Afinal, bastaram alguns mísseis e drones para que o Irã fechasse o estreito novamente.

E será que os custos econômicos em rápida ascensão — os contratos futuros de petróleo e diesel dispararam na segunda-feira — convencerão novamente o presidente a recuar, evitando assim o preço político e econômico que ele declarou abertamente, no mês passado, não estar disposto a pagar?

Por que uma guerra total ainda pode ser evitada

Um motivo de esperança é que os confrontos renovados podem indicar que os EUA e o Irã buscam consolidar suas próprias interpretações do memorando de entendimentos, preparando o terreno para uma futura diplomacia.

Trump, por exemplo, não deu sinais de estar disposto a pagar o preço potencialmente alto — em baixas de tropas americanas — de uma invasão ao polo de produção de petróleo iraniano na Ilha de Kharg, uma das formas possíveis de impor a superioridade americana. Em contrapartida, outros presidentes modernos, como Lyndon Johnson e George W. Bush, intensificaram guerras que já pareciam inconclusivas.

E, ao contrário de seu amigo, o presidente russo Vladimir Putin, o presidente dos EUA não reagiu à humilhação estratégica sofrida em uma guerra na qual subestimou o adversário lançando um ataque total contra civis.

Uma tragédia ocorreu logo no início do conflito, quando um ataque americano equivocado atingiu uma escola iraniana, matando 168 crianças e 14 professores, segundo autoridades iranianas. Além disso, desconhece-se o número total de vítimas civis decorrentes dos ataques.

No entanto, Trump não concretizou ameaças anteriores de atacar infraestruturas como pontes e usinas de energia, o que afetaria gravemente a vida dos civis. O Irã também manteve limites para a escalada do conflito em suas represálias contra bases americanas na região ou contra seus vizinhos do Golfo.

Enquanto isso, a dinâmica do campo de batalha reflete um conflito que se mantém em um nível contido, em vez de sair totalmente de controle.

“Acredito que há espaço para a diplomacia, apesar da intensificação dos ataques dos EUA contra o Irã e das retaliações iranianas”, disse Danny Citrinowicz, pesquisador sênior do Programa sobre Irã e o Eixo Xiita do Instituto de Estudos de Segurança Nacional de Israel, à jornalista Becky Anderson, da CNN.

Ele acrescentou, porém: “A situação pode sair do controle e escalar, pois, quando ocorrem ataques mútuos dia e noite, torna-se certamente difícil manter as regras do jogo”.

E, mesmo que essa nova conflagração não chegue ao ponto de ebulição, Trump ainda precisa responder a uma pergunta com a qual vem lidando, sem sucesso, há quase cinco meses.

Como ele sai da guerra?

Fonte CNN BRASIL