Quando foi contratado para fazer o trabalho de restauração de paredes, teto e vitrais da sacristia da Igreja da Candelária, no Centro, George Sliachticas, de 70 anos, ficou imaginando o que encontraria por baixo das muitas camadas de tinta que recobrem a parede da sala. Ele já havia participado da última grande obra de recuperação do templo, na década de 1980, e ainda guardava na memória a emoção da experiência. Na última quarta-feira, o artista iniciou a prospecção num pequeno trecho e, inicialmente, não achou qualquer resquício do passado. Mas, ao remover parte de um barrado de jacarandá que ornamenta o ambiente, George viu embaixo da moldura o resto de uma pintura ocre com desenhos florais, original da época da construção da igreja, inaugurada parcialmente em 1811 e aberta totalmente ao público em 1898.
— Vim aqui (na quarta-feira) para começar a preparar a sala e forrar as peças de jacarandá. Havia uma parte do barrado solta. Acabei de tirá-lo e achei a pintura embaixo. Uma pintura original. Esse barrado de madeira foi colocado em 1927. Eu já informei ao Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), para que seja decidido o que fazer. Ou seja, se vamos restaurar só esse trecho e deixá-lo à mostra, como uma janela, ou se faremos toda a parede — explicou George, que aprendeu a arte da restauração aos 15 anos, com o pai.
O procedimento padrão, nesses casos em que são descobertas pinturas em prédios históricos, é abrir janelas, para deixar exposto ao público um pedaço do passado. Em seguida, o restante da parede é recoberto com tinta. Mas tudo vai depender da avaliação do Iphan.
George conta que não ficou surpreso com a descoberta. Depois de mais de 50 anos restaurando igrejas e museus antigos em todo o país — a recuperação dos vitrais e portas do Centro Cultural da Justiça Federal, na Avenida Rio Branco, por exemplo, foi feita pelo especialista —, ele afirma que já entra num prédio antigo à espera de alguma preciosidade.
— A gente sempre sabe que tem alguma coisa para encontrar, ainda mais numa igreja imponente como a Candelária. A princípio, pensei que só acharia uma parede com escaiola (uma técnica que imita mármore), como realmente achamos. Mas tinha também esse estêncil, que combina com o desenho das cortinas da igreja, mostrando uma flor-de-lis — contou.
Inicialmente, a restauração de toda a sacristia estava prevista para durar 40 dias. Com a descoberta, a tinta do desenho original, explicou o especialista, terá de ser refeita manualmente. Só para preparar a tonalidade, ele estima um prazo entre uma semana e dez dias. E a restauração do trecho levará em torno de dois meses.
— Sai muito caro restaurar a pintura da parede toda, uns R$ 400 mil. Estamos vendo junto com o Iphan se faremos só um canto da parede — informou George.
Detalhe de pintura com desenhos florais, original da época da construção da igreja – Márcia Foletto / Agência O Globo
Segundo o vice-provedor da Irmandade do Santíssimo Sacramento da Candelária, Rodrigo Moreira, a obra na sacristia é a primeira fase de um trabalho de restauração que tem o objetivo de preparar a igreja para o próximo Natal.
— A irmandade realiza um trabalho de manutenção permanente na igreja. Também vai ser feita a restauração das fachadas e dos vitrais alemães do templo, além dos sinos. Tudo sob a supervisão do Iphan. Mas gostaríamos ainda de recuperar o restante da igreja. Só que teremos que conseguir os recursos, cerca de R$ 20 milhões — disse Rodrigo Moreira, que não revelou, no entanto, quanto será gasto com a atual restauração.
IPHAN VAI ANALISAR PINTURA
Na sacristia, além de recuperar a parede e o ornamento de madeira, George fará a restauração dos vitrais alemães de três janelas e de um painel fixado na porta traseira.
— Esses vitrais são importados, mas temos o vidro aqui, no Brasil. Então, será possível refazê-los com minha própria equipe. Vamos restaurar os vitrais do restante da igreja em conjunto com a equipe da fábrica alemã, que mandará fazer as peças no exterior — contou ele, que, em 1986, foi responsável pela recuperação da sala do consistório, do museu, da torre e do telhado da Candelária.
De acordo com a assessoria de imprensa do Iphan, na próxima semana, uma restauradora do órgão irá à Candelária para conferir a pintura.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Márcia Foletto