Na última semana, a população do Rio ouviu barulhos de tiros em vários bairros, com destaque para a Rocinha. Além disso, os roubos de rua parecem ter aumentado, ao passo que a capacidade do estado para responder aos problemas tem diminuído assustadoramente. O medo, já presente na vida de todos, pareceu aumentar.
O medo não é simplesmente o resultado da criminalidade ou das imagens e notícias produzidas pela mídia. Ele também diz respeito às ansiedades e às incertezas das sociedades pós-modernas e suas consequências, que podem ser percebidas em diferentes níveis. Ele tem efeitos psicológicos negativos, causando doenças mentais relacionadas a ansiedades, descrenças nos outros e insatisfações com a vida urbana. No plano social, o medo restringe comportamentos, fragiliza laços vicinais e esvazia espaços públicos.
O medo do crime também tem consequências econômicas. Leva ao aumento de gastos com segurança, gera processos de gentrificação e especulação imobiliária, além de afetar os setores de turismo e entretenimento. No plano político, o medo abre espaço para discursos punitivistas, sexistas, racistas e xenófobos. Ele é o principal combustível da “política do ódio”.
Os estudos mostram que o medo do crime não afeta a todos na mesma intensidade. Em geral, mulheres, negros e pobres sofrem muito mais os seus efeitos. Embora seja percebido em todos lugares, o medo está muito mais presente nos bairros de baixa renda.
Alguns fatores contribuem para aumentar o medo: roubos de pedestres, ameaças e agressões. Mas, segundo pesquisas, o barulho de tiros é o evento que causa mais medo na maioria das cidades. Por outro lado, confiar na polícia e ter serviços públicos de qualidade são fatores que podem reduzir a sensação de insegurança.
Por ser tão importante na vida moderna, alguns países passaram a lidar com o medo, tentando transformá-lo em risco. Assim, implantaram políticas destinadas a gerenciar esses riscos. Definitivamente, esse não é o caso do Brasil. Ao contrário, alguns estados têm adotado políticas de confrontos armados que resultam em mais medo. Em outros, os governos optam por não intervir nos conflitos entre criminosos. E, em todos os estados, relegou-se o atendimento de ameaças, agressões e roubos a uma posição secundária nas políticas de segurança. Desse modo, seguimos todos cada vez mais reféns do medo.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior