Em ruas onde Madame Satã virou mito, a malandragem bateu ponto e a boemia firmou raiz, quem anda com fé também tem abrigo. Na Lapa de tantos pecados e na vizinha Santa Teresa, a diversidade religiosa torna os dois bairros, no mínimo, ecumênicos. E, em meio às tribos que frequentam a região, o Convento de Santa Teresa, onde 15 freiras carmelitas vivem no claustro, fica a poucos passos de um centro de umbanda em que ecoam cantigas e atabaques.
Não muito longe, ortodoxos russos e sírio-libaneses proclamam suas crenças. Há templos budista, anglicano e israelita. Entre tantos cultos evangélicos, um é celebrado, sem preconceitos, por homossexuais. Sobra espaço ainda para quem se fia na ayahuasca ou em esoterismos, como o baralho cigano e a cristalterapia.
No caso da Lapa, pode até soar paradoxal, mas o bairro é religioso desde a origem. Ganhou esse nome no século XVIII, por causa da antiga Capela de Nossa Senhora da Lapa, atualmente Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Lapa do Desterro, onde, diz-se, Madame Satã costumava rezar. Subindo a ladeira, Santa Teresa cresceu, também no século XVIII, em volta do velho convento. A construção segue lá, imponente, de frente para os Arcos da Lapa e para a Catedral Metropolitana, com suas freiras homenageadas pelo famoso bloco de carnaval do bairro, o Carmelitas.
Foi a madre Jacinta de São José que idealizou o convento. E foi ela também a principal responsável pela construção da Capela do Menino Deus, na Rua Riachuelo. A igrejinha bege é vizinha de conhecidos bares e casas noturnas, como o Clube dos Democráticos. Assim como num raio de menos de 500 metros está uma Assembleia de Deus, uma Universal e os centros kardecistas Conselho Espírita do Rio e Tenda Espírita Caridade.
– Santa Teresa é mística. É um bairro de cultura eclética. Nossa localização é privilegiada – afirma José Arlindo, que desde o começo dos anos 1990 frequenta o templo.
Em bairros abertos a tanta diversidade, a tolerância religiosa abraça todos. Foi na Lapa que, há nove anos, surgiu a Igreja Cristã Contemporânea, na Avenida Mem de Sá. Como em outras denominações evangélicas pentecostais, as músicas e pregações do evangelho se sucedem na hora da celebração. A diferença está no público, a grande maioria LGBT. A ideia, conta o pastor Marcos Gladstone, um dos fundadores da igreja, era acolher a população homossexual, muitas vezes rejeitada em outros cultos. E a escolha do lugar foi estratégica.
Igreja cristã conteporânea, na Lapa, liderada pelo pastor Marcos Gladstone – Pedro Kirilos / Agência O Globo
– Na Lapa, as diferenças são aceitas, de noite e de dia. A partir daqui, abrimos mais cinco igrejas no Rio, uma em Minas e duas em São Paulo. Em uma delas, até bomba já jogaram. Mas na Lapa nunca tivemos problemas com a vizinhança. Recebemos até pessoas que não são homossexuais, nem parentes de um, acredito que por estarem cansadas do discurso do ódio – diz Marcos, que conheceu a chamada “teologia inclusiva” numa viagem aos Estados Unidos.
Os exemplos de tolerância religiosa na Lapa, no entanto, já vêm de muito antes. Construída em 1918 na Rua Gomes Freire, a Igreja Ortodoxa de São Nicolau foi erguida por cristãos sírio-libaneses, muitos deles fugidos de massacres da segunda metade do século XIX em sua terra natal. Com a desativação de uma capela ortodoxa russa que existia junto à embaixada da Rússia no Rio, após a revolução comunista de 1917, muitos objetos de lá foram doados para o templo em homenagem a São Nicolau.
– Por isso, dentro da igreja há muitos objetos e pinturas russas. Na época, os russos passaram a frequentar aqui, assim como vinham armênios, búlgaros e até muçulmanos em dias de festa – conta o padre Marcelo Torres, brasileiro, sem ascendência sírio-libanesa, mas que se converteu à ortodoxia.
Ali, as missas misturam cânticos em grego e árabe, enquanto o russo é a língua em outra igreja ortodoxa da região: a Paróquia Santa Zenaide, construída em 1935, na Rua Monte Alegre, em Santa Teresa. Lá, o padre atual, Sergei, ou Sérgio, como gosta de ser chamado, nem fala português direito. Mas se esforça para receber todos que chegam.
– As boas-vindas são para todos que quiserem nos conhecer – afirma ele.
Fonte: O GLobo
Foto: Pedro Kirilos / Agência O Globo
Postado por: Raul Motta Junior