Casarões em ruínas na Glória viram atração após reforma de R$ 50 milhões

Conjunto de dez casas abandonadas na Glória, bairro que no passado foi o centro da aristocracia do Rio, a Villa Aymoré passou por uma meticulosa reforma, que exigiu a reconstituição de peças como azulejos hidráulicos e a construção de uma escadaria com reaproveitamento de pinho-de-riga. Construídos entre 1908 e 1910, os casarões estavam em péssimas condições. Agora, as unidades, que têm entre 230 a 700 metros quadrados, serão alugadas para escritórios. A Villa Aymoré – comprada da família Seabra pela Landmark Properties em 2010 – voltou aos áureos tempos depois de um investimento de R$ 50 milhões. O complexo, antes de ser negociado, vai poder ser apreciado em setembro durante a edição do Casa Cor.

Tombada pelo município e incluída na Área de Proteção do Ambiente Cultural (Apac) da Glória e do Catete desde 2005, a Villa foi recuperada com o compromisso de que tudo ficaria como na época de sua construção. Fotografias antigas ajudaram na reconstituição do que foi o prédio original. O trabalho de reforma demandou um esforço de engenharia e arquitetura para, por exemplo, reerguer um casarão inteiro que havia desmoronado. Dentro, tudo foi aproveitado: pisos, forros, portas, janelas e escadas em madeira maciça estão lá, preservados, convivendo com recursos tecnológicos, incorporados ao retrofit que começou em 2012.

LADRILHEIRO DE SÃO PAULO FOI CONTRATADO

Segundo o empresário Gustavo Felizzola, um dos sócios da Landmark, as fachadas das casas estão intactas e até a cor ocre original foi mantida. Também foi preservado o nome indígena que cada casa recebeu, numa época em que tudo relacionado à cultura dos índios tinha uma aura de glamour. O piso de ladrilho hidráulico é uma réplica do original. Felizzola contratou um ladrilheiro de São Paulo:

– Na restauração, foi encontrado um metro quadrado de ladrilho hidráulico. Se não encontrássemos alguém por aqui, teríamos que buscar um profissional em Portugal.

De acordo com ele, as sancas e as claraboias foram reaproveitadas. Ele lembrou que, durante o trabalho, foram encontrados pedaços de madeira de pinho-de-riga.

– Essa é uma madeira nobre que ia para o lixo. Fizemos um inventário e descobrimos que tínhamos R$ 75 mil do produto, que foi reaproveitado nas casas, inclusive numa das escadarias – contou Felizzola.

O arquiteto Jorge Astorga, que trabalha com restauração há 20 anos, lembrou que pelo menos 15 pessoas participaram do processo.

– Foi realizada uma pesquisa histórica, examinadas fotos antigas e feitos moldes do que estava em pé para reconstruir a casa em ruína. Essa restauração é uma salvaguarda para a próxima geração – comentou Astorga.

O conjunto em estilo eclético – popular na Europa do século XIX – ganhou aparelhos de ar-condicionado, extintores de incêndio e fibra ótica. Para o arquiteto Washington Fajardo, presidente do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH), a Villa Aymoré é um exemplo de que a restauração é um bom negócio:

– Sessenta por cento da construção europeia são reabilitação de imóveis históricos. E o Rio tem uma organização urbana como a de uma cidade europeia. Nós não reciclamos latinhas? Reciclar prédios também é um princípio de sustentabilidade.

Fonte: Valor Econômico
Foto: Pedro Kirilos / Agência O Globo
Postado por: Raul Motta Junior