Cão treinado da Guarda Municipal ganha a aposentadoria e volta para antigos donos

O pastor alemão Jack teve nesta quarta-feira seu último dia de trabalho no canil da GCG (Grupamento de Cães de Guarda), na Mangueira. O cão adestrado, perito em ações de patrulhamento, monitoramento e prevenção em áreas públicas fez parte dessa divisão especial da Guarda Municipal durante cinco anos, junto com outros 43 cachorros. Em serviço, cobriu eventos importantes da cidade, como a Jornada Mundial da Juventude, a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Como completou sete anos de idade, chegou o momento de ele se aposentar e, assim, voltar para seus antigos donos, a jornalista Soraya Mussi e o físico Carlos Henrique Simões:

– Não consegui trabalhar nos últimos dois dias – conta o Carlos Henrique.

O cão chegou à vida do casal em uma data de celebração. Quando fizeram 25 anos de casados, Soraya pediu de presente um pastor alemão ao marido, que já se mostrava aberto à ideia de ter um cachorro, além de ser fã da raça. No apartamento em Copacabana, Jack era dócil com os donos, mas costumva ficar agitado na presença de estranhos.

Como a raça costuma ser treinada para abordagens policiais e o animal pode ser feroz quando fica irritado, os donos consideravam a situação perigosa. O conselho de doá-lo ao GCG veio do próprio instrutor particular do cão na época, um dos integrantes da divisão, que considerava Jack ideal para o dia a dia da equipe justamente por conta de sua força. Lá ele seria treinado com outros cães, e com infraestrutura adequada.

– Foi uma dor imensa doá-lo, os primeiros dias foram muito tristes, mas desde sempre decidimos que iríamos visitá-lo no mínimo uma vez por mês – diz Soraya

Jack chegou ao canil com um ano e oito meses. Na divisão, todos os oficiais são responsáveis por um único animal, que o acompanhará durante todo o treinamento e futuras operações. A exclusividade é para estreitar relações entre cão e homem e facilitar o adestramento.

Assim começou a parceria com o guarda Flávio Lopes, que duraria cinco anos. Segundo o agente, a relação começa muito antes dos treinos, quando o animal ainda não está familiarizado com o novo ambiente. Com a mesma pessoa levando o animal para passear nos primeiros dias, é criado um laço essencial para o desenvolvimento da confiança. A partir disso, conta Flávio, fica fácil começar os exercícios e tornar o cachorro um grande aliado na proteção da cidade.

No adestramento, Jack aprendeu desde comandos simples, como sentar e deitar, até outros mais agressivos, como a perseguição e a investida contra criminosos. É capaz, com um simples comando de voz, de atacar a mão de uma pessoa armada. Também pode perceber a aproximação suspeita de pessoas. A intenção, no entanto, não é que morda ou invista contra as pessoas, como afirma Flávio. O objetivo mais comum é intimidar, facilitando o patrulhamento.

Jack costumava percorrer diferentes pontos do Rio, como o Campo de Santana, o estádio do Maracanã, a Quinta da Boa Vista e, mais recentemente, as estações de metrô da Zona Sul, dentro da Operação Verão.

Durante todo esse tempo, Soraya e Carlos Henrique nunca deixaram de visitar Jack. A medida em que o viam crescer, tornar-se mais obediente e querido pelos funcionários da GCG, a saudade aumentava. Não raramente, a jornalista ia ver Jack em ação. Para marcar seu amor pelo animal, tatuou um símbolo do infinito no pulso.

No canil, os funcionários já sabiam que o casal podia estar chegando pelo comportamento de Jack.

– Quando doamos o Jack, deixaram claro que estávamos dando nosso cachorro para a Guarda Municipal e por isso não tínhamos a ideia de pegá-lo de volta. Como o tempo foi passando, a equipe do canil foi percebendo que éramos assíduos e carinhosos com ele. Foi então que nos disseram sobre a possibilidade de levá-lo de volta, depois que se aposentasse. Desde então nós contávamos os dias para que esse momento chegasse – disse Carlos Henrique.

Quem ficou triste, mas resignado com a situação, foi o guarda Flávio Lopes. Em seus últimos dias com Jack, esteve ao seu lado todo o tempo que pode, sabendo que o cão teria um destino apropriado. Depois de tantas visitas, o oficial tornou-se amigo da família, o que promete novos encontros com o parceiro no futuro.

Mas o casal não quer cortar suas relações com a equipe e os cães do GCG. Os dois, que pretendem se mudar para uma casa em Paraíba do Sul, querem aumentar a família arranjando uma companheira para Jack. E os filhotes já têm destino certo.

– Queremos abastecer o canil com todos os pastores alemães que pudermos – completa Carlos Henrique.

Fonte: O GLobo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: ANTONIO SCORZA / Agência O Globo