Mestre de ioga mais respeitado do país ganha biografia e critica a ‘egoesclerose’ Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/rio/mestre-de-ioga-mais-respeitado-do-pais-ganha-biografia-critica-egoesclerose-5473873#ixzz4OHsH9CFX © 1996 – 2016. Todos direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização.

Em abril, a coluna “Há 50 anos”, que destaca textos escritos há meio século no GLOBO, publicou: “A grande procura de convites para a conferência e demonstrações de hatha yoga que haverá na próxima segunda-feira, no auditório do GLOBO, mostra o interesse que o assunto desperta no mundo moderno e a autoridade do conferencista, o professor Hermógenes de Andrade.”

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Isso mesmo. Em 1962, o professor Hermógenes, hoje com 91 anos, já era “autoridade” e um dos pioneiros na divulgação, no ensino e na prática da ioga no Brasil. Este foi o ano da inauguração da Academia Hermógenes, que funcionou até janeiro deste ano na Rua Uruguaiana, Centro do Rio. Por conta da venda do prédio, os professores treinados pelo mestre mudaram-se de mala, cuia e mantras para a Avenida Primeiro de Março. É lá que dão prosseguimento ao trabalho iniciado no finzinho da década de 50, com a publicação de um dos primeiros livros em português sobre o assunto: “Autoperfeição com hatha yoga”. Lançado pela livraria Freitas Bastos e depois reeditado mais de 50 vezes pela editora Record, foi o primeiro dos mais de 30 títulos assinados por Hermógenes ao longo de cinco décadas.

A notícia relembrada pela coluna dava a pista de como os anos 50/60 foram movimentados para o ex-militar. Em 1956, aos 35 anos, Hermógenes foi diagnosticado com tuberculose e desenganado por médicos, que apostavam na sua morte iminente. Deprimido, o então tenente do Exército encontrou numa livraria, por acaso, dois livros sobre ioga. Um deles, em francês, trazia imagens com ásanas (posturas). O outro, em inglês, falava dos benefícios da prática. Curioso, o jovem começou a praticar escondido aquelas poses estranhas, no banheiro de sua casa.

Por conta do tratamento médico que exigia uma superalimentação, Hermógenes estava acima do peso, mas não ficou intimidado diante do desafio.

Depois de alguns meses, ele começou a sentir o resultado dos exercícios, das técnicas de respiração, da meditação e da alimentação vegetariana, tudo adicionado ao abandono dos hábitos de beber e fumar. Ao contrário de todos os prognósticos, sua saúde estava recuperada. Desde então, a vida do professor de ioga tem sido dedicada ao ensino da prática, não apenas na sua academia, mas em esquema gratuito em presídios e instituições públicas.

— A melhora dele foi tanta que ele mergulhou em livros como o “Bhagavad Gita” (a bíblia hindu), até escrever “Autoperfeição”, um sucesso estrondoso na época — conta Thiago Leão, neto de Hermógenes, instrutor de ioga e atual diretor da academia.

Hermógenes é o nome mais proeminente na primeira geração de iogues brasileiros, da qual também fazem parte o general Caio Miranda (autor de “A libertação pela hatha yoga”, de 1960), o professor paulistano Shotaro Shimada (fundador do Instituto de Cultura Yoga Shimada, em 1958, em São Paulo) e o carioca DeRose, fundador do Instituto Brasileiro de Yôga, também em São Paulo, em 1964.

— A forma que Hermógenes tem para transmitir o conhecimento é única: transforma o difícil em fácil, o árido em agradável, o sério em engraçado — conta o professor André De Rose, diretor do Espaço Mahal, em São Paulo, filho de Luiz Sérgio (com quem é rompido profissionalmente) e admirador de Hermógenes. — Ele é a representação máxima do padrinho, ao qual muitos procuram para pedir bênção — completa ele, que teve seu “Livro de ouro do yoga” prefaciado pelo mestre.

Em janeiro, Hermógenes passou por uma delicada cirurgia na vesícula e também teve que lidar com outros contratempos, como a notícia de que o prédio em que funcionava sua academia seria vendido.

— Quando ele soube do problema, nem titubeou. Disse: “Tudo bem, tudo passa. Encontraremos um novo lugar.” — relata o neto Thiago.

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O mestre confirma. Cercado por centenas de livros e imagens de Jesus Cristo e de deuses hindus por toda casa, no Flamengo, Hermógenes é uma imagem de paz. Seu lugar preferido é ao lado da janela, na sala principal do apartamento, onde passa boas horas meditando, na cadeira branca, diante da paisagem privilegiada que inclui o Morro da Urca e o Pão de Açúcar. Fala com dificuldade, mas gosta de contar histórias engraçadas, como a do encontro com o líder espírita Chico Xavier, nos anos 80.

— Professor Hermógenes, li seus livros — diz o próprio, imitando a voz peculiar de Xavier, em tom de galhofa, lembrando que o médium chegou até a aprender algumas ásanas e “tinha uma flexibilidade natural”. — Imagine aquele homem iluminado me dizendo que conhecia meu trabalho. Fiquei emocionado.

No documentário “Deus me livre de ser normal”, realizado por Marcelo Buainai, em 2007, Chico Xavier — em cenas de arquivo gravadas antes de sua morte, em 2002 — fala sobre Hermógenes e declara que “a ioga é uma bênção de Deus”. O título do filme é uma referência à doença que mais apavora o mestre: a “normose”.

— É a doença de ser normal. As pessoas querem se encaixar num padrão — afirma o professor, criticando a correria do mundo moderno pelos padrões de comportamento socialmente aceitos. — A egoesclerose também é uma das doenças mais comuns; é a supervalorização do “eu”.

Além de Chico Xavier, o professor também guarda na memória outros encontros memoráveis com líderes espirituais, como Madre Teresa de Calcutá, Dalai Lama e os filósofos indianos Krishnamurti e Sai Baba. Essas histórias serão contadas na biografia “Hermógenes”, prevista para ser lançada ainda este ano, mas ainda sem data, pela editora Bodigaya. O autor é o professor e terapeuta curitibano Vítor Caruso, que levou cinco anos levantando dados sobre a vida do professor.

— Achei que conseguiria escrever esse livro num ano, mas a vida do Hermógenes é tão rica, são tantas histórias, vitórias, experiências, que acabei levando muito mais tempo do que o previsto para organizar tudo — conta Caruso.

São justamente os encontros com os personagens como Madre Teresa que mais encantaram o biógrafo.

— A questão é que tudo em torno do Hermógenes parece de acordo com o que ele ensina. Ele é uma das pessoas mais coerentes que eu já conheci — acrescenta.

No final dos anos 50, quando Hermógenes começou a dar aulas de ioga na garagem de sua casa, na Tijuca, ele não queria ser pago pelo que ensinava. Não queria ser chamado de mestre. Não queria seguidores. Mas a quantidade de pessoas que o procurava tornou cada vez mais urgente encontrar um espaço que as abrigasse. Depois de muita insistência, uma amiga o convenceu a se organizar melhor e a cobrar uma pequena mensalidade para bancar os custos do aluguel do que viria a ser sua academia, no Centro.

— Ela me convenceu de que eu não estava numa montanha no Himalaia — diverte-se.

Agora, Hermógenes abençoa os planos do neto Thiago para dar mais um passo a frente, rumo à criação do Instituto Hermógenes, que formará novos instrutores. (O projeto, embrionário, ainda não tem data específica de implementação).

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— Já temos alguns instrutores autorizados a usar o nome Hermógenes em outras academias, mas não são muitos e, talvez, nunca sejam mesmo. Isso requer cuidado, para não vulgarizar o que ele levou tanto tempo para construir — diz Thiago.

André De Rose é um dos incentivadores da empreitada.

— Cada vida tem um propósito; a do Hermógenes é ajudar as pessoas. Cabe aos que ficam perpetuar algo que certamente é uma boa ideia — acredita.

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Fonte: O Globo
Foto: Daniela Dacorso
Postado por: Raul Motta Junior