Santa Marta é ainda mais pop 20 anos após Michael

Não tinha Google Maps na época, mas se você voltar duas décadas no tempo e tirar uma foto aérea no ponto onde está localizada a comunidade do Santa Marta, em Botafogo, vai ver uma linha tracejada quase palpável circundando o morro. Do lado de fora, ninguém levantava ou tentava passar por baixo da fita: era mais fácil apertar o passo e, no máximo, dar umas espiadelas de rabo de olho. O tráfico não deixava que chegassem luz, água, coleta de lixo… Era uma espécie de Cidade Proibida às avessas. Eis que então, no dia 11 de fevereiro de 1996, aparece um gringo franzino para subverter essas regras. Michael Jackson passou seis horas na favela, andou pelas ruelas sem máscara e esbravejou aos quatro ventos que “Eles não ligam para nós” — “Diga-me o que aconteceu com meus direitos/ Eu sou invisível? Por que você me ignora?”, perguntava, sacudindo os braços para cima.

Vinte anos se passaram desde a gravação do videoclipe de “They don’t care about us” e O GLOBO-Zona Sul passou um dia na comunidade para ver o que mudou neste período. Pelas vielas, becos, subidas e descidas do morro estima-se que vivam cerca de quatro mil pessoas. O último censo foi feito pelo IBGE em 2010 e apontava 1.883 homens e 2.030 mulheres, espalhados por 1.177 domicílios — o que dá uma média de 3,32 pessoas por casa.
Isso, é óbvio, sem contar com os visitantes. Eles se espalham aos montes entre cachorros sem rumo, galinhas que ciscam nos quintais e crianças soltando pipa nas lajes — às vezes, em número maior até do que os próprios locais. Calcula-se que cerca de dois mil forasteiros por mês passem algumas horas por lá para conferir o “favela way of life”.
Santa Marta é ainda mais pop 20 anos após Michael

DOIS MIL TURISTAS POR MÊS

Visão do alto do Santa Marta: ponto alto dos passeios turísticos – Guilherme Leporace / Agência O Globo

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E a procura é grande por dois motivos. O primeiro é a própria passagem de Michael Jackson por lá, em 1996. A segunda é que, depois da instalação da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), em 19 de dezembro de 2008, tornou-se seguro passear pelo Santa Marta até para os turistas que aparecem por aquelas bandas sem cicerones.

Thiago Firmino é um exemplo de empreendedor que soube tirar proveito disso. Nascido e criado na favela há 35 anos, ele trabalhou como DJ, dançarino e produtor cultural até o período da ocupação. Vez por outra alguém o procurava para guiar um grupo de estudantes universitários pelas trilhas da região. Em 2009, o bico acabou virando negócio e Thiago viu-se obrigado a dedicar-se inteiramente ao Favela Santa Marta Tour.

— Do nada, dei uma salto. Mas foi difícil. Na cabeça da minha mãe, eu não podia largar um emprego de carteira assinada, que pagava R$ 800, para fazer tour na favela. Ela não entendia aquilo. Meus pais são de uma geração que trabalhou 30 anos num lugar só e estão com problemas de saúde. Hoje, eu sou patrão! — diz ele, rindo e satisfeito.

Thiago Firmino aproveitou a onda de turistas depois da chegada da UPP, abriu uma empresa e emprega três pessoas – Guilherme Leporace / Agência O Globo
Sua empresa de turismo emprega mais três pessoas, que guiam turistas (majoritariamente estrangeiros) duas vezes por dia. O Hotel Copacabana Palace, por exemplo, só envia hóspedes para Firmino. No calor do carnaval, ele chegou a levar 42 pessoas para conhecer sua vizinhança por R$ 90, com direito a caipirinha. No ano passado, o empresário foi ao World Travel Marketing, em São Paulo, e, sem estar na lista de convidados, conseguiu dar palestras e questionar as empresas do setor sobre o porquê da ausência de empreendedores da favela em eventos do gênero.

— Estamos cortando o intermediário que levava o turista para a favela. O visitante pode negociar diretamente comigo agora. Consegui até filipetar no evento. Sou abusado — diverte-se — Assim, já fui até palestrar sobre turismo em favela em Cartagena, na Colômbia — lembra ele, que desempenha, com cada vez menos frequência, o papel de motorista de Uber.

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TURISMO CRIA EMPREENDEDORES

Amanhecer visto do mirante do Santa Marta – Felipe Hanower 22-07-2013 / Agência O Globo

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E não é só Firmino que está aproveitando a bonança do turismo. O marido de sua vizinha Patrícia Quixaba, de 29 anos, também trabalha como guia, desta vez na Favela Top Tour. Eles moram numa casa confortável de três andares, têm televisão compatível com o tamanho do imóvel e planejam expandir os negócios. O casal está terminando um albergue com espaço para 30 pessoas, que terá um restaurante e um bar anexos.

Menino na Laje do Michael Jackson: cenário começou a mudar um ano depois da morte do cantor – Guilherme Leporace / Agência O Globo
— Fiz um curso de gastronomia no Senac e uma amiga arquiteta está desenhando o projeto. Até o mês que vem inauguramos tudo. Vai bombar nas Olimpíadas — comemora ela. — Com o que a gente ganha, dá para investir em outras coisas. Antigamente, era difícil tirar dinheiro do Santa Marta. Só tinha birosca. Hoje em dia, todo mundo tem o seu próprio negócio.

Quanto mais perto da Laje do Michael Jackson (a que mais aparece no clipe, de onde uma estátua incansável do popstar ergue os braços para o morro dia e noite), mais empreendimentos brotam. Thiago Firmino, por exemplo, já viu uma menina gastar R$ 700 de uma só vez, em uma loja de suvenir, levando uma tela, camiseta, pulseira e boné da favela — ele mesmo já recebeu gorjetas bem gordas, como U$ 100 do príncipe da Arábia Saudita. Firmino diz que alguns moradores torcem o nariz para os turistas, mas a maioria curte a ideia.

— Antigamente as pessoas se baseavam pelo que saía na mídia para definir o que era a favela, né? Hoje, não. O cara vem aqui, bebe uma cerveja, tira foto, joga futebol e não acontece nada com ele — diz , depois de dar informação para um casal de estrangeiros que subia sem guia às 18h.

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ELEVADOR DA FAVELA PARA O ASFALTO

Ao fundo, o plano inclinado, inaugurado em 2008 – Custódio Coimbra 23-002-2012 / Agência O Globo

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A ida do gaúcho Robespierre Avila para o Santa Marta foi acidental — ou, como o próprio destaca, ele foi “enganado”. Em 2000, quando o tráfico ainda corria solto, o músico se mudou de mala e cuia para uma casa na Rua Marechal Francisco de Moura, via que sai da Rua São Clemente e que sobe até a favela. Sua locatária jurava que se tratava de uma via sem saída e ele não entendia o porquê de tanta gente sair e entrar em uma rua que não dá em lugar nenhum. O músico só foi descobrir onde tinha se assentado duas semanas depois, quando acordou no meio da noite com uma percussão de tiros fora do comum.

Robespierre Avila chegou “enganado” ao morro e hoje é uma das figuras mais influentes – Guilherme Leporace / Agência O Globo
Apaixonado por samba, Pierre não se intimidou e passou a frequentar o Bar do Tota, espécie de Baixo Santa Marta onde todo mundo se encontra. No dia 23 de abril, aliás, Dia de São Jorge, a festa é tão grande que a região fica intransitável. De enganado, então, Pierre virou enganador. Por quatro anos, ele tocou chorinho no estabelecimento, bem antes do ensaio da escola de samba. Quem tinha medo de subir para conhecer o morro, ficava consideravelmente mais corajoso depois da sessão musical. Apesar disso, ele diz que tem até hoje um amigo que não sobe de jeito nenhum.

Pierre conta que a ideia de abrir um projeto social para ensinar música para as crianças da comunidade só nasceu algum tempo depois, vendo tantos talentos por ali, entre uma cerveja e outra tomadas no Bar do Tota.

— Comecei a procurar um imóvel para abrir a escola e a moça que estava me ajudando disse: “todo mundo quer tocar um projeto social aqui embaixo. Quero ver fazer lá em cima, onde as crianças estão abandonadas”.

E lá foi ele para o alto do morro, para não levar desaforo para casa. Como o confronto entre polícia e bandido era o maior estopim para a violência no morro, Pierre parava no meio do caminho, tomava um cafezinho na casa de um, perguntava para o outro se estava tudo calmo e descia pelo mesmo trajeto que havia subido. A corrida levava cinco ou dez minutos numa época em que não tinha nem Plano Inclinado (elevador gratuito que percorre toda a extensão da favela).

PASSAGEM DE MICHAEL JACKSON EM 1996 MEXEU COM MORADORES

Moradores observam Michael Jackson em pose que foi imortalizada em estátua de IqueFoto: Aníbal Philot 11-02-1196 / Agência O Globo

Santa Marta recebeu Michael Jackson com carinho em 1996Foto: Jorge William 11-02-1996 / Agência O Globo

Equipe filma clipe de Michael Jackson no Santa MartaFoto: Jorge William 11-02-1996 / Agência O Globo

Michael Jackson com os braços abertos em laje no Santa MartaFoto: Aníbal Philot 11-02-1996 / Agência O Globo
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Atualmente, o projeto virou o Ponto de Cultura aos Pés do Santa Marta (ongatitudesocial.com), instituição que ainda oferece aulas de músicas para as crianças, mas promove outras iniciativas interessantes, como sessão de cinema ao ar livre, biblioteca e produção audiovisual.

A casa fica embaixo da Laje do Michael Jackson, um dos pontos que mais sofreram modificações ao longo desses anos. Na época em que o cantor exibiu sua famosa coreografia por lá, o local era endereço de um ambulatório. Isso durante o dia. À noite, rolava o homônimo “baile do ambulatório”. Como o lugar não tinha iluminação, vivia cheio de preservativos e outras coisinhas mais.

Pierre lembra que, nos dias de aula na laje, tinha que chegar mais cedo para lavar o chão antes das crianças chegarem. Quando Michael Jackson morreu, em junho de 2009, o governo do estado resolveu inaugurar ali uma estátua do artista. Um ano depois, o panorama começou a mudar e o ponto passou a ser o mais procurado do Morro Santa Marta.

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FISGADO PELA MÚSICA

Mosaico em parede do Santa Marta – Marcelo Theobald 09-06-2015 / Agência O Globo

O músico Felipe Souza — que tinha 3 anos quando o astro gravou o clipe e lembra muito bem da quantidade de gente subindo nas árvores para depois cair das mesmas, sem entender bem o porquê — foi um que cresceu por ali. Quando tinha uns 8 anos, foi fisgado pelo som de uma roda de choro que estava rolando no alto do morro.

Novo horizonte: menino observa a favela do mirante do Plano Inclinado – Guilherme Leporace / Agência O Globo
Era, literalmente, música para seus ouvidos, habituados apenas aos estampidos de trovão das balas de revólver. Findo o show, o menino pediu o cavaquinho de um dos músicos para dar umas dedilhadas e nunca mais desgrudou dos instrumentos. Com 23 anos, ele toca 30 deles (a flauta é o principal), vai de Robert Schumann a Pixinguinha, faz faculdade de Música na UFRJ e dá aulas no projeto de Pierre.

— A vida melhorou quando entraram os serviços sociais e os recursos que a gente não tinha e precisava. Hoje, só não faz faculdade quem não quer. Há 20 anos, minha avó falava: “você nunca vai entrar numa universidade, porque você não é rico. Ainda mais para estudar música, que é para quem tem dinheiro. Você tem que quebrar chão, pegar cimento. Tem que fazer o que pobre faz. Tem que ser homem”. Ela não entendia que homem também estuda. Acho que a maneira como as pessoas pensam mudou completamente — analisa.

Para Souza, a maneira como as pessoas de fora veem os moradores do Santa Marta também mudou.

— Não somos mais marginalizados. Hoje, eu vou na Vieira Souto dar aula e passei o ano novo numa cobertura da Avenida Atlântica na casa de um amigo. As pessoas perceberam que uma minoria faz coisa errada na favela. Tem morador aqui que é ator, jornalista, médico. Eu tive sorte, porque a família do meu pai me levava para passear e eu via que existia um mundo fora daqui, de gente armada, de gente morta. Hoje, a favela mudou. O morro foi incorporado pela cidade.

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DISTANTES DA TÃO SONHADA ESTRUTURA

Cristo Redentor visto da entrada do Santa Marta – Fabio Guimaraes 11-10-2015 / Agência O Globo

Segundo consta no Instituto Pereira Passos (IPP), a comunidade nasceu em 1942, numa corrente migratória proveniente do Norte e do Nordeste. Desde 1999, primeiro ano de registro do IPP, a comunidade diminuiu de área: eram 55.124 metros quadrados contra os 53.733 atuais.

A instalação da primeira UPP — que tem 123 PMs, comandados pela tenente Tatiana Lima — transformou a comunidade numa favela modelo e permitiu a chegada de serviços diversos. No entanto, questões básicas de infraestrutura estão longe de serem revolvidas. O morro está cheio de valas por onde o esgoto corre a céu aberto. Robespierre Avila conta que água, por exemplo, falta todo dia, em um lugar ou outro da comunidade.

A Cedae diz que, em 2012, reformou o reservatório e redimensionou a estação elevatória, “eliminando por completo a intermitência no abastecimento de água”. Segundo a concessionária, “não existem interrupções ou flutuações no abastecimento no Santa Marta”, só quando há algum problema em Botafogo. “A única possibilidade de faltar água isoladamente é uma eventual falta de energia, que paralisa a elevatória que bombeia água”.

O Santa Marta tem 1.777 domicílios e encolheu de tamanho nos últimos anos, segundo o Instituto Pereira Passos – Guilherme Leporace / Agência O Globo
Quanto ao esgotamento sanitário, está em fase de elaboração o “Programa de Saneamento em Comunidades”. A Cedae colocará uma Manifestação Pública de Interesse, provavelmente nas próximas semanas, para que o setor privado possa manifestar interesse em implantar, operar e atuar sobre a água e o esgoto de comunidades pacificadas. O Santa Marta está entre as aglomerações a receber a implantação do programa na primeira fase. Outra reclamação de Pierre é a varrição das ruas.

— O gari não vem todo dia, não varre como varre o Leblon e, quando aparece, tira o lixo somente dos lugares de fácil acesso. É claro que existe um grande problema de falta de hábito de descartar o lixo de maneira correta, mas como se cria esse hábito se não há lixeiras nem na Laje do Michael Jackson, o ponto mais turístico? — reclama.

Segundo a Comlurb, cinco toneladas de lixo são recolhidas por dia em 40 contêineres, distribuídos nas seis estações do plano inclinado. A companhia diz que vinte garis limpam as ruas diariamente e, com frequência, tiram resíduos de encostas e canaletas.

Já para Thiago Firmino, a maior dor de cabeça se refere à luz. São dois os problemas: o primeiro é que alguns moradores reclamam que recebem contas que não condizem com seus consumos (Thiago cita vizinhos que têm apenas geladeira e são faturados em R$ 800). O segundo é que os moradores não têm acesso aos relógios de eletricidade, que ficam trancados em uma caixa.

A Light, por outro lado, afirma que, com a regularização depois da UPP, instalou medidores de energia e visores em 2.125 casas para que fosse possível acompanhar o consumo — em 2008, eram apenas 73 clientes. Firmino afirma, porém, que essa informação não é verídica.

— Eu ando nessa favela todos os dias e estou em todas as reuniões. Aqui ninguém tem esse medidor. Isso é contra a lei. Não temos acesso ao nosso próprio medidor. Tem gente deprimida porque não tem como pagar R$1200 de luz — rebate.

Com relação as altas taxas, a Light diz que os clientes estão percebendo o aumento da tarifa atribuído ao crescimento no consumo de energia no verão (35%); as bandeiras tarifárias determinadas pela Aneel (o valor da conta de luz aumenta a cada 100 kwh consumidos); aos reajustes tarifários concedido pela Aneel, em 7 de novembro, que indexou as contas de energia residenciais em 15,99%, e ao reajuste extraordinário do Governo Federal, em março de 2015, de 21,06%; e aos “gatos” de energia, que aumentam a conta de luz em 17%.

Fonte: O Globo
Foto: Guilherme Leporace / Agência O Globo
Postado por: Raul Motta Junior