Wolf Maya inaugura complexo teatral dedicado a Nathalia Timberg

Após dois anos de apresto, um projeto grandioso foi erguido no centro comercial Freeway. À medida que o cimento e a areia davam liga, moldando o teatro com capacidade para 400 espectadores, uma amizade de longa data e igualmente sólida mostrava seus frutos. “Eu sou o peão; e ela, a inspiração”, poetizou o ator e diretor Wolf Maya, autor da obra, referindo-se à sua querida Nathalia Timberg. A consagrada atriz é homenageada no novo empreendimento, que foi batizado com seu nome, cuja inauguração está prevista para o próximo dia 22. As portas serão abertas em grande estilo, com o musical erudito “33 variações”, um sucesso da Broadway traduzido e encenado pela veterana, que dividirá o palco com o velho amigo, ambos protagonistas. O outro espaço no complexo, até então usado apenas como treinamento da escola profissionalizante de atores de Wolf, tem apenas cem lugares e foi nomeado carinhosamente como Nathalinha. No dia 12 de fevereiro, ele ganhará uma peça profissional de estreia, a primeira aberta ao público: “A serpente”, uma tragédia de Nelson Rodrigues.

— É a materialização de um sonho, profissional e de vida, que data de quase meio século. Da minha vida, eu tenho dois presentes importantíssimos, que me foram dados por Wolf: sua filha (Maria Maya), hoje uma artista incrível, que eu batizei, e o teatro, que levará meu nome. Para mim, que tenho uma vida no teatro, não existe coisa mais bonita. Fiquei muito emocionada com o convite; até hoje não caiu a ficha — diz Nathalia, frisando que a única condição para aceitá-lo era que Wolf a dirigisse.

A trajetória nos palcos, para os dois, começou na década de 1980. E o espetáculo “Paixão”, estrelado por Nathalia, foi a última de muitas dobradinhas juntos; ela como atriz e ele como diretor.

— Nós estamos deixando este legado. Já fizemos grandes espetáculos juntos, como atores, e eu também a dirigi em várias montagens. Estava morrendo de vontade de reencontrá-la — diz Wolf.

Nessa estreia, ele retorna aos palcos de um teatro depois de um período de dez anos.

— Pensei que fosse encontrar o meu querido amigo enferrujado, mas este azougue humano é a criatura mais criativa com quem já cruzei na vida e tem uma capacidade incrível de realização. Sabe o vinho que fica bem guardado, na temperatura certa? Ele transita em todas as áreas das artes cênicas. Toda a experiência que o Wolf vem acumulando, inclusive com a didática na escola, reverteu em benefício próprio porque ele está um ator muito interessante — elogia Nathalia.

Wolf Maya no Nathalinha: espaço é utilizado pelos alunos durante o curso – Marcelo Carnaval/ Agência O Globo
Conceitos modernos nortearam a construção do teatro — vizinho da Escola de Atores Wolf Maya, uma ligação proposital —, moldado com linhas retas, materiais puros e uma arquitetura assinalada por força e elegância. O estilo foi conferido pela arquiteta Tereza Younes, que já havia projetado com Wolf o Teatro Nair Bello, em São Paulo. Das poltronas azuis, é possível admirar o palco em formato “stadium”, uma arquibancada com diferentes níveis entre cada fileira. Mas a robustez fica a cargo, principalmente, dos ambientes que são ocultos à plateia e da tecnologia que torna possível uma variedade de criações. Há sala de espelhos para ensaios de dança, um mezanino (onde alunos de arte dramática terão descontos especiais), um fosso de 200 metros sob o palco — que receberá um elevador — e quatro camarins completos. O alto investimento, mensurado em R$ 15 milhões, veio de recursos próprios do artista, que, entretanto, não considera o projeto rentável.

— Montamos um teatro na Barra, que é um lugar delicado. O bairro não tem uma identidade cultural estabelecida. Hoje você encontra no mesmo quarteirão um filme de arte e algo completamente diferente disso. Os eventos são efêmeros, pontuais. Estamos consolidando um polo cultural com cinema, teatro, escola e até um bar, que terá música ao vivo e mistura de clássicos. Temos como referência pessoas que fizeram algo significativo para o Rio, numa atividade de certa forma suicida ou individual; como Marieta Severo fez lá no Teatro Poeira ou como Domingos de Oliveira fez no Planetário — conta Wolf.

O projeto saiu caro, mas tem muitas compensações, acredita o profissional.

— Eu não queria simplesmente adaptar uma sala já existente, apesar de ser muito mais barato. Cheguei a ver outra possibilidade na Zona Sul, mas não tinham o que eu precisava para torná-lo habitável e confortável ao público. O único lugar em que encontrei isso, com a possibilidade de dois mil carros num estacionamento, um trânsito mais livre e espaços em torno do teatro, foi na Barra. E sabia que eu ia ter que desbravá-la — diz o empreendedor, que voltou a morar na região e tenta instigar a amiga Nathalia, moradora do Leblon há 35 anos, a fazer o mesmo.

Dessa forma, a dupla se orgulha de seguir na contramão da situação econômica do país, trazendo para o Rio, em 2016, um viés de esperança e, para a Barra, a solidificação de um polo cultural de teatro, num triângulo com a Cidade das Artes e o Teatro Bradesco.

— O futuro cultural e educacional do país está incógnito. Verbas foram cortadas, projetos foram interrompidos. Mas não nos aquietamos com essa tendência negativa. Recebi várias propostas para fazer disso algo comercial, mas queremos que seja um projeto cultural, mesmo no meio dessa aridez. Contamos apenas com um mínimo de apoio para a peça, vindo do Itaú e da prefeitura, porque nos reunimos diretamente com seus gestores. Isto representou um quarto do valor da produção. Estamos abertos a mais parcerias — diz Wolf.

AS ESCOLAS E O TEATRO: APOIO MÚTUO

Wolf ressalta o papel de sua escola de teatro como alicerce fundamental na viabilização do Teatro Nathalia Timberg, apesar de serem entidades independentes. No Rio, ela completou dois anos e tem, atualmente, 580 alunos, que contam com um aparato bem equipado de estúdios de cinema e televisão. A turma atual será certificada neste semestre. Já a primeira escola, criada em São Paulo, deu início às atividades em 2003 e já chegou a mil alunos.

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Toda a trupe responsável pelo musical que inaugura o palco principal do complexo – Marcelo Carnaval/ Agência O Globo
— As escolas funcionam como fundações, sem fins lucrativos. Por isso eu nunca tirei dinheiro algum delas. Elas estão funcionando bem e atraem cada vez mais alunos. A escola bancou a construção do teatro e teve o meu investimento particular. Fui vendendo tudo. Agora o nosso processo é de manutenção do espaço e redução de custos — afirma Wolf.

Enquanto o Nathalia Timberg é um teatro profissional, agora também usado como palco de treinamento para os alunos, o espaço nomeado como Nathalinha foi concebido para ser um braço da turma, com uma atividade menos comercial.

— O teatro funciona nas noites de sexta, sábado e domingo. Durante o dia, a escola o utiliza para treinamento, aulas, workshops e espetáculos alternativos. É um ninho de criação para jovens atores e para atores profissionais. Dessa forma, a engrenagem está sempre em movimento e eles fazem currículo dentro do teatro — enfatiza Wolf.

EM CENA, UM MUSICAL ERUDITO

Embora este seja o primeiro grande teatro idealizado por Wolf Maya, já é o terceiro construído por iniciativa dele.

— Com a prefeitura e com a então secretária estadual de Cultura Helena Severo (que instituiu uma rede municipal de teatros), transformamos o velho teatro de bolso Aurimar Rocha no Teatro Café Pequeno (de cem lugares), no Leblon, há uns 20 anos. Depois disso me mudei para São Paulo e, com muito mais parcerias, fiz o Nair Belo, há dez anos, no Shopping Frei Caneca (com 208 lugares), junto a minha escola de atores. E agora, o Nathalia Timberg, no Rio, que é um sonho antigo — diz Wolf.

Para ele, a época na qual o profissional de teatro projetava o seu próprio espaço ficou para trás e todos, agora, seguem vinculados a empresas, governos e prefeituras. De suas escolas, Wolf tira o custeio para equipamentos e luz, entre outros serviços, e equipe. Não por acaso, para a peça de estreia do Nathalia Timberg, ele recrutou dez de seus alunos para participarem de todo o serviço de bastidores, uma experiência muito disputada, frisa, e em pequenos papéis. A seleção foi feita com base na qualidade de suas vozes para performance de canto, um recurso especial planejado para o espetáculo.

Alunos da Escola Wolf Maya. Entre eles, Viviane Vieira (ao centro), que é uma das dez atrizes da instituição que estarão na peça “33 variações” – Marcelo Carnaval/ Agência O Globo
Prestes a se formar pela Escola de Atores Wolf Maya, a estudante de Medicina Viviane Vieira, já graduada em Direito e Farmácia, foi uma das selecionadas para esta atuação.

— O Wolf é empreendedor, dá a vida aqui e deixa a gente preparada para o mercado. Saímos daqui sabendo fazer produção teatral, passando por cenografia, bastidores, gravação, figurino, roteiro. A escola tem um corpo docente maravilhoso. Quem está entrando agora tem ainda o privilégio de contar com uma grande estrutura — diz a jovem atriz, que participa na produção do maquinário e como mezzo-soprano.

A peça de inauguração do teatro, criada originalmente por Moises Kaufmann, é sucesso em Nova York há oito anos. O musical conta a história de um compositor medíocre do século XIX, o austríaco Anton Diabelli, que escreveu uma valsa e, com intuito de publicá-la, entregou-a a alguns dos compositores importantes de sua época para ser aperfeiçoada. O único que, inicialmente, não aceitou o convite foi Beethoven. Ele, no entanto, voltou atrás e — até hoje não se entende por que — repentinamente, exigiu que ninguém mais trabalhasse na valsa, já que ele próprio o faria. Wolf interpretará o compositor alemão:

— O grande barato é este ser o primeiro musical erudito do mundo. É uma peça que tem a trilha sonora do Beethoven, numa história que conta como foram compostas as 33 variações dele, a partir da pesquisa de uma historiadora (vivida por Nathalia) e com presenças da época de 1780 até 1819 em cena. É a história de um espetáculo que esteve na Broadway junto com o Rei Leão, por exemplo, mas como um musical erudito. E nos interessa muito atrair o público de música clássica.

Num passeio pelo século XIX, a montagem terá ainda os atores Tadeu Aguiar, Lu Grimaldi, Flavia Pucci, Gil Coelho e Gustavo Engracia no elenco.

— Quando recebi o convite, me interessei na hora. É uma honra participar deste momento histórico, maravilhoso, e atuando num clássico como Beethoven. A grandiosidade do Wolf é contagiante. Aqui (nos ensaios) não tem climão, só energia boa. Para a cultura, que anda tão abandonada, este teatro é um ato de resistência — diz a atriz Lu Grimaldi.

Clara Sverner, renomada pianista de formação erudita habituada a trabalhar com orquestras, conduz um espetáculo teatral pela primeira vez – Marcelo Carnaval/ Agência O Globo
A música será co-protagonista em cena, pelas mãos da intérprete brasileira Clara Sverner, uma renomada pianista de formação erudita. É a primeira vez que a musicista, habituada a trabalhar com orquestras, conduz um espetáculo teatral.

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— A peça é maravilhosa e tem a música atravessando a montagem, conduzindo a história. Tudo se desenvolve ao redor dela. O meu estudo, normalmente, é contínuo e solitário, então é uma experiência nova ensaiar com eles. Este teatro logo será uma referência para a cidade, ainda que a Barra pareça outra cidade — brinca a moradora da Zona Sul.

Para Wolf, a peça representa um ato ousado, financeiramente, por ser um musical erudito, mas tende a atrair o público com uma cultura acessível.

— Comercialmente falando, talvez ninguém a fizesse, a não ser que fosse apaixonado por teatro e música. A própria Nathalia, que é uma estrela do teatro brasileiro, está atendendo a Beethoven. Esta versão brasileira da obra é a forma mais fantástica de popularizar esse grande compositor, numa trama teatral interessantíssima. Estamos pesquisando teatro contemporâneo, teatro clássico, novos autores. O projeto seguirá essa identidade, que representa um novo perfil na Barra, marcada até então pelo stand up comedy — finaliza o ator e empreendedor.

Fonte: O GLobo
Foto: Marcelo Carnaval/ Agência O Globo
Postado por: Raul MOtta junior