Pedido de retirada de oratórios de praças do Rio causa polêmica

O Rio foi tomado por uma polêmica santa. Uma ação do Ministério Público pede que a prefeitura remova todos os oratórios instalados em praças públicas da cidade a partir de 1988, e que proíba novas obras do tipo. Como antecipou Ancelmo Gois em sua coluna no GLOBO , o estopim da confusão foi um oratório construído em 2017 na Praça Milton Campos, no Leblon, que fica dentro do condomínio Selva de Pedra, em comemoração aos 300 anos da aparição da imagem de Nossa Senhora Aparecida no Rio Paraíba.

O órgão argumenta que a presença de oratórios em praças públicas fere a laicidade do Estado, garantida pela Constituição. O MP alega que a obra do Leblon, inicialmente, seria uma estrutura temporária, que permaneceria pelo período em que durassem os festejos em torno da santa, de cerca de um mês. Idealizador do projeto, o pároco da Igreja Santos Anjos, padre Thiago Azevedo, contesta:

— Mais de mil fiéis assinaram o documento pedindo permissão à prefeitura para construir o altar. Primeiro, nos deram o aval provisório, mas, depois, permitiram a permanência do oratório em caráter definitivo.

A diretora jurídica da Arquidiocese, Claudine Milione, vai recorrer a todos os procedimentos jurídicos possíveis para impedir a remoção dos oratórios. E classificou a ação do MP como um “grave caso de intolerância religiosa”.

Opiniões divididas
Mesmo antes da construção do oratório, moradores da Selva de Pedra já costumavam se reunir uma vez por semana para rezar na praça. O encontro, que acontece há cerca de 12 anos, reúne cerca de 20 fiéis. Muitos fazem uma pausa na correria cotidiana para fazer preces. É o caso de dona Rosa Maria, de 70 anos, que desce todos os dias para caminhar na praça e aproveita para orar.

— Quando não desço, eu fico triste. Sou muito devota — diz, emocionada.

Enquanto a briga corre na Justiça, moradores da Selva de Pedra se dividem sobre o tema.

— Não sou favorável. O Estado é laico. Se você coloca Nossa Senhora na praça pública, tem que colocar as outras religiões também — argumenta a arquiteta Cláudia Amaral, de 53 anos.

Já a servidora pública Cristine Marques, de 44, diz que apoia a permanência do oratório:

— Eu sou espírita, mas não me ofende em nada ter a santa ali. Quem quiser reza. Quem não quiser, é só não rezar.

A Praça Milton Campos é uma das dez da capital que abrigam oratórios, segundo levantamento do site Inventário dos Monumentos. Na Tijuca, o oratório de Nossa Senhora da Medalha Milagrosa ocupa a Praça da Medalha Milagrosa há 22 anos. Já em Copacabana, a Praça Edmundo Bittencourt abriga uma imagem de Nossa Senhora de Fátima desde 2008. Moradora do bairro, Vera Lúcia Peres, de 65 anos, é uma das devotas que frequentam a novena que acontece todos os dias em frente ao altar. Ela defende a permanência do oratório:

— Aqui é um ponto de paz. As pessoas vêm rezar em busca de alento.

Já a aposentada Elisabeth Machado, de 71 anos, é contra a construção de altares religiosos em locais públicos:

— A praça não pode contemplar arbitrariamente uma fé ou outra. Tem que ser um espaço livre.

Procuradas, a Procuradoria-Geral do Município e a Fundação Parques e Jardins não se pronunciaram.

Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: David Barbosa