Linhas de empresa que fechou circulam com ônibus de outras companhias, e passageiros afirmam: ‘Serviço melhorou’

Os passageiros comemoraram o fim da empresa de ônibus Estrela Azul. Ela operava oito linhas, atendia cerca de 1,5 milhão de passageiros por mês e rodava por cerca de 700km². A firma operava, segundo os usuários, com coletivos em estado de conservação precários e pouquíssimos com ar-condicionado, além de intervalos muito grandes. A diferença do serviço já foi notada no primeiro dia com ônibus de outras companhias. A moradora de Inhaúma Cristina Leal, de 20 anos, conta que não soube da mudança da empresa, mas sentiu diferença.

— Foi muito rápido pegar o 292 (Engenho da Rainha – Candelária). E não é assim. Também fiquei surpresa com o ar-condicionado. Porque nunca é assim. O serviço melhorou — conta a jovem, que está desempregada e usa o serviço para levar a filha à fisioterapia na Zona Sul do Rio.

A 435 (Grajau x Gávea, via túnel Santa Bárbara) é a maior linha operada pela empresa. Sozinha, ela cobre 180 kms² e transporta cerca de 370 mil passageiros num mês, segundo dados de dezembro de 2017 — último dado disponibilizado pela Secretaria municipal de Transportes (SMTR) no Relatório de Operações por Linha, que deveria ser mensal. No entanto, é a maior fonte de reclamações dos usuários da empresa.

No quesito conduta dos funcionários, ficou entre as dez linhas com mais reclamações no último trimestre de 2018. Neste período, os trabalhadores conviviam com graves problemas de atraso de salário — que culminaram numa greve nesta segunda e a consequente suspensão dos serviços da empresa por parte dos donos da Estrela Azul.

Ônibus da linha 435, operado até esta segunda-feira pela Estrela Azul, com barra de ferro quebrada Foto: Bruno Calixto
Ônibus da linha 435, operado até esta segunda-feira pela Estrela Azul, com barra de ferro quebrada Foto: Bruno Calixto
A conservação também é um problema recorrente. A linha está entre uma das 20 que mais receberam reclamações no período neste quesito. Há registros até de coletivos com problemas nas barras de ferro que são utilizadas para os passageiros se segurarem. Na última semana, a frota chegou a ser reduzida por conta da falta de combustível para os veículos circularem.

— O 435 sempre está lotado. Não sei como a empresa faliu com tanto passageiro — reclama Carlos Lopes, de 25 anos.

Os coletivos foram substituídos temporariamente por duas outras empresas. A Secretaria municipal de Transportes (SMTR) afirmou que ainda não foi comunicada oficialmente sobre o encerramento das atividades. Nesta manhã, cerca de 400 funcionários da Estrela Azul decidiram fazer uma greve. O motivo é o pagamento de salários, cesta básica, vale refeição e 13º salário que, segundo eles, estão atrasados há quatro meses. Uma reunião com os sócios da empresa foi realizada e, nela, um dos sócios informou que a empresa suspenderia o serviço.

Esta é a 14ª empresa que fecha as portas desde 2015. De acordo com a empresa, “os consórcios já acionaram o plano emergencial de contingência e estão trabalhando para suprir todas as linhas operadas pela empresa e evitar transtornos à população”. Ainda de acordo com a firma, “a empresa empenhou todos os esforços para manter a operação nos últimos meses e não deixar a população desassistida, porém não suportou as dificuldades impostas pela grave crise financeira que afeta o sistema de transporte rodoviário de passageiros do Rio de Janeiro”.

A Estrela Azul funcionava no Rio desde 1958. Ela atendia as Zonas Sul e Norte da cidade. E também passava pelo Centro da cidade. As linhas que ela operava eram:

102 – Troncal 2 – Jardim de Alah X Rodoviária (Via Lapa)

118 – Troncal 8 – Cosme Velho X Rodoviária (Via Praça Mauá)

434 – Grajaú X Siqueira Campos (Via Lapa / Túnel Vellho) – Circular

435 – Grajaú X Gávea (Via Túnel Santa Bárbara)

464 – Maracanã X Siqueira Campos (Circular)

503 – Leblon X Gávea (Circular)

292 – Engenho da Rainha X Castelo (Circular)

311 – Engenheiro Leal X Candelária (Via Cavalcante)

Os funcionários alegaram que há um acordo feito, em dezembro, entre o sindicato e o TRT para o pagamento de oito meses de salários atrasados em 24 parcelas pela empresa aos trabalhadores não estava sendo cumprido. De acordo com eles, a direção da empresa chegou a pagar R$ 800 referente à primeira parcela de R$ 1.200 acordado, ficando de pagar o restante em seguida, o que não foi realizado.

No início do ano, o pedreiro Maviael Ferreira Cabral morreu ao ser atingido pela roda de um ônibus da linha 292 quando estava em um ponto de ônibus em Inhaúma, na Zona Norte do Rio. O acidente fez com que a prefeitura lacrasse 31 ônibus da empresa. Na garagem, a equipe encontrou irregularidades como vistoria vencida, equipamentos de acessibilidade inoperante, bancos rasgados, janelas sem puxadores e balaustres soltos. Foram aplicadas 37 multas.

Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior