Pacientes do Getúlio Vargas mostram desconfiança com planos de Witzel para a saúde

Em seu discurso de posse , Wilson Witzel usou seis vezes a palavra “segurança”, duas vezes “educação” e uma vez “saúde”, área em que prometeu integrar órgãos “com vistas a reduzir custos e ampliar o acesso”. Alheio à cerimônia da Alerj, o Hospital Estadual Getúlio Vargas, na Penha, atravessava a primeira manhã do ano entre vítimas do trânsito, objetos cortantes e excessos do réveillon. E, fosse no atendimento de adultos ou na pediatria, os planos para a saúde do Rio geraram desconfiança.

As críticas às propostas não ficaram restritas à emergência da Penha, claro. Ao longo do dia, analistas apontaram a insensibilidade de prever cortes na saúde de um estado pilhado por corruptos. Mas lá, no maior hospital da Zona Norte, o impacto desses planos calou fundo.

Enquanto Witzel discursava, Alexandro da Silva Gama chegava ao Getúlio Vargas com sua mulher, Alessandra Gomes dos Santos. Moradores do Jardim Gramacho, em Duque de Caxias, o casal passou o dia 31 de dezembro em um périplo por centros de saúde da Baixada Fluminense atrás de atendimento para Alessandra, que sentia dores nos rins. Passaram das 8h às 16h em um posto de saúde de Saracuruna, em Duque de Caxias, até que Alessandra começou a sentir tontura e perguntou à enfermeira se era efeito do medicamento que tomava na veia. Resposta: “Se a médica não sabe, eu vou saber?”

— Arranquei a agulha do braço dela e a gente saiu de lá na hora. Hoje (terça-feira) trouxe ela aqui no Getúlio Vargas e não houve essa ignorância. — diz Alexandro, técnico da Light, que comenta as propostas de Witzel. — Tem que dar um voto de confiança ao governador, eu e minha mulher votamos nele. Mas cortar da saúde? Vai cortar de onde?

“Tem que dar um voto de confiança ao governador, eu e minha mulher votamos nele. Mas cortar da saúde? Vai cortar de onde?”, disse Alexandro da Silva Gomes, que enfrentou problemas para conseguir atendimento para a esposa Foto: Guilherme Pinto / Agência O Globo
O Getúlio Vargas não está imune à crise do estado. Este ano, após duas mortes causadas por erros médicos, o hospital sofreu uma intervenção. Em várias ocasiões, os funcionários tiveram seus salários atrasados. Vale lembrar que o governo do Rio começou o ano com dívida de R$ 6,2 bilhões com fornecedores e prestadores de serviço da saúde. Em 2014, o investimento do estado fluminense em saúde foi de R$ 3,7 bilhões; em 2017, pouco mais que a metade: R$ 1,9 bilhão.

Enquanto isso, Maria do Carmo conta as moedas para comprar uma garrafa d’água de R$ 2,50 para o marido José Eduardo, com quem chegou ao hospital. Ele andava com dores no peito e, no meio das comemorações de Ano Novo, queixou-se de falta de ar. Após passarem a madrugada em um posto de saúde de Ramos, onde vivem, o casal de septuagenários (ela, 75, ele 72) conseguiram chegar de carona até o Getúlio Vargas. Ao ouvir sobre o “choque de gestão” proposto por Witzel, Maria fez cara de espanto acompanhada de “quê?” e depois resumiu:

— É tudo muito difícil.

Difícil também serve para resumir o final de ano na casa de Carla Roberta Gonçalves, moradora de Barros Filho, também na zona norte. Primeiro foi Ryan, seu filho de 8 anos: foi chutar uma bola de futebol, acertou a parede e quase perdeu um dedo. Após passarem pelos hospitais Sousa Aguiar e Albert Einstein, no Centro, levaram o menino para o Getúlio Vargas, onde ele foi atendido e levou sete pontos no pé direito. Depois quem aprontou foi Juan, seu caçula de oito anos. Brincando na pracinha, jogou brita para cima, engoliu algumas pedras que caíram e sente dor no estômago desde então.

— Trouxemos ele direto para cá, porque já sabemos que os outros lugares não prestam — diz o comerciante Valério Ventura Belisário, amigo de Carla que a acompanhou com Juan até o hospital. — Sabemos que o pessoal aqui está atendendo sem pagamento. E atendendo bem. Se cortar recursos daqui, não sei o que vai sobrar.

Fonte: O GLobo
Postado por: Raul Motta Junior