Quem quer doce?

O Brasil anda morrendo e, modestamente, rogo a Cosme e Damião o poder da alegria dos erês para não desistir
Há coisa de uns sete anos, fui distribuir saquinhos de Cosme e Damião perto do Morro de São Carlos. Preservamos aqui em casa o hábito de dar doces, uma tradição que, no meu caso, vem da minha avó, que costumava distribuir as guloseimas entre a meninada do Jardim Nova Era, em Nova Iguaçu. Naquela ocasião, no São Carlos, me deparei pela primeira vez com crianças que recusavam doces porque, segundo os pais neopentecostais, as ofertas para Cosme e Damião eram oferendas ao demônio.

O mais triste da situação foi reparar que algumas crianças pareciam estar cheias de vontade de cair dentro dos saquinhos e se lambuzar de pé de moleque, suspiro, cocada, cocô de rato, balas, marias-moles etc. A intolerância que perpassa o mundo dos adultos e campeia cada vez mais na cidade desencantada impediu que a garotada se esbaldasse com os sortilégios de Dois-Dois.

A coisa me entristeceu ainda mais porque a minha religião é a devoção amorosa aos encantamentos do Brasil. Sou um arrebatado pelos tambores e pelas procissões; comovo-me com o santo no andor, o caboclo na macaia e o preto velho no gongá. Os calos das mãos brasileiras que seguram a corda santa do Círio de Nazaré são os mesmos calos maturados no couro do atabaque que evoca os orixás: mãos do Brasil e do seu povo.

Cosme e Damião é festa que tem gosto de rua, mercado e gente miúda. Tem alegria de moleque chutando bola, de dendê no caruru, da perna torta, do português torto, do flozô e da viração do mundo. Sou de observar o saber das miudezas e reverenciar o sentido da vida onde aparentemente ele não está. Não acredito em iluminados; acredito em gente virada em vento, pedra, flor de cambucá, cipó de jitirana, jurará, maritaca e areia de rio.

O senhor não acredita? Não tem problema, eu também tenho uma dificuldade tremenda de crer nas verdades desencantadas e abraçar as causas e as coisas visíveis, aquelas que não cantam e dançam ao sabor dos ventos que me ensinaram (enquanto tambores batiam) o pouco do que sei. Só me espanta o medo do outro, o refúgio entre os iguais, o horror da diferença, a falta de curiosidade, o pacto com a intransigência, o pânico de perceber na alteridade a possibilidade de beleza que aconchegue a vida.

Cosme e Damião é dia brasileiro dos santos estrangeiros e orixás africanos, com igreja aberta, terreiro batendo, criança buscando doce, amigos bebendo nos balcões a lembrança das estripulias de catar doce no vizinho e comer caruru na rua.

O Brasil anda morrendo e, modestamente, rogo a Cosme e Damião o poder da alegria dos erês para não desistir. A luta é nas ruas, nas rimas, nas escolas, nas artes, mas também nos corpos. Precisamos de outras vozes, musicadas, atravessadas, capazes de sugerir artimanhas de viver produzindo encantarias libertadoras no precário.

Sem espadas ao alto, sem o “já raiou a liberdade”, sem o povo heroico e o brado retumbante, sem galardões, sem ternos bem cortados, sem as fardas de generais, sem a arrogância bacharelesca e sem a ignorância bizarra dos senhores de engenho. Ainda insisto em colocar na água suja da aldeia, todos os dias, meu barquinho imaginado em que escrevo apenas e insistentemente: vida. Continuo oferecendo doce de Cosme e Damião para quem se dispuser a olhar o outro com alegria e zelo no meio da rua.

Fonte: O globo
Postado por: Raul Motta Junior