Quando você vai descartar um objeto e se depara com as palavras reciclável e não reciclável inscritas na lixeira, essa distinção não é sem propósito. Isso significa que existe o lixo que não dispõe de utilidade alguma e aquele que pode ter outra finalidade. A definição talvez pareça uma obviedade, mas nem sempre é tão fácil saber que outro destino dar a um material que seria despejado. O designer Luís Palhares encontrou uma solução para o resíduo reciclável… na arte. Na exposição “Perdidos e achados”, na Ble Galeria, em Botafogo, ele reúne obras construídas a partir de chapinhas e isqueiros.
— O conceito da minha arte surgiu em 2015. Eu tomava muito refrigerante com meu pai, daqueles que vêm na garrafa de vidro. Quando percebi, estava com um pote cheio de chapinha. Fiquei apreensivo, não quis jogar aquilo fora e resolvi que precisava fazer alguma coisa para aproveitar o material. Então, veio a ideia de colar as chapinhas numa tela, para dar outro destino ao lixo que eu estava gerando. Montei o primeiro quadro, e minha mãe adorou. Ela mostrava para as visitas e todo mundo gostava. Aí passei a fazer com frequência, incluindo outros materiais, como isqueiro e teclado — explica Palhares.
A mostra inclui 16 fotografias, 11 desenhos em papel e em tela de algodão, além de 12 trabalhos de colagem. Segundo o artista, as obras compostas por objetos recicláveis são as que mais atraem os visitantes. Hoje, ao meio-dia, ele ministrará uma oficina de fotografia pinhole e, a partir das 15h, conduzirá uma visita guiada pela Ble Galeria. No curso, ensinará a montar uma câmera improvisada, a fotografar com o aparelho e a revelar a imagem. Pinhole, esclarece Palhares, é uma maneira mais analógica e caseira de tirar foto. Também conhecida como “câmera escura”, a técnica permite a obtenção de imagens a partir de dispositivos que não usam lentes.
— É o primeiro processo de fotografia feito no mundo. Ele é mais manual e artesanal, e nós só precisamos de uma lata de leite em pó para produzir as fotos. Com uma câmera analógica, você só sabe se a imagem ficou boa depois da revelação. Por isso, vou ensinar todas as técnicas e macetes para fazer um registro perfeito com a câmera pinhole. Hoje em dia, quase ninguém revela as fotos tiradas pelo celular. De repente, o aparelho dá um problema antes do backup e a pessoa acaba ficando sem as imagens. Daí a importância de conhecer essa técnica de revelação. É sempre bom aprender — afirma Palhares.
A programação de hoje também contará com a participação de artistas como Rafa Inácio, Meggetto, Cacá Fonseca, Lair Uaracy, Felipe Brown, Cristiano Prea, Chico Silva, Gais Ama, Felipe Guga e Henrique Clark. Todos amigos de Palhares. Pós-graduado em Administração, ele diz esperar que o trabalho seja uma porta de entrada no mundo da arte. Outra expectativa é que os visitantes saiam da exposição mais conscientes em relação a temas como meio ambiente e sustentabilidade.
— Fazer uma exposição é a realização de um sonho, uma perspectiva de entrar no universo artístico com meu próprio projeto, que, por sua vez, é ligado à reciclagem. Quero que as pessoas levem para suas casas todo o meu desejo de um mundo melhor — diz.
Fonte: O globo
Postado por: Raul Motta Junior