Vínculos afetivos impactam diretamente a saúde mental, diz especialista

“RAUL BARROZO DA MOTTA JUNIOR”

Em um mundo cada vez mais conectado pelas telas, mas nem sempre pelas relações pessoais, especialistas têm chamado atenção para um fator muitas vezes negligenciado quando o assunto é saúde: a qualidade das amizades. Mais do que companhia para momentos de lazer, vínculos afetivos sólidos podem reduzir os efeitos do estresse, fortalecer a saúde mental e até contribuir para uma vida mais saudável ao longo dos anos.

A discussão ganha força na semana em que foi celebrado o Dia do Amigo, em 20 de julho. Embora a data tenha caráter simbólico, ela também abre espaço para refletir sobre um problema crescente: o aumento da sensação de solidão, mesmo entre pessoas cercadas por contatos presenciais ou virtuais.

Segundo a psicóloga Ligia Kaori Matsumoto, do Hospital Dia M’Boi Mirim I, unidade da Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo gerenciada pelo CEJAM (Centro de Estudos e Pesquisas “Dr. João Amorim”), as amizades exercem um papel importante como fator de proteção para a saúde física e emocional.

“Um amigo é, literalmente, aquela pessoa com quem podemos contar. Ter boas amizades aumenta a percepção de segurança, confiança e motivação para enfrentar os desafios do cotidiano”, explica.

Segundo a especialista, os vínculos de amizade não eliminam os problemas da vida, mas mudam a forma como eles são enfrentados. Isso acontece porque compartilhar dificuldades com alguém de confiança proporciona acolhimento e reduz a sensação de estar sozinho diante de situações estressantes. Como consequência, a sobrecarga emocional tende a diminuir, tornando mais fácil lidar com desafios pessoais, profissionais ou familiares.

Na ausência dessa rede de apoio, o cenário pode ser diferente. Ligia destaca que pessoas com vínculos fragilizados ficam mais vulneráveis ao desenvolvimento de sintomas de ansiedade, depressão e à sensação persistente de solidão. Ela ressalta, no entanto, que a falta de amizades, isoladamente, não provoca um transtorno mental, mas representa um fator que pode aumentar a vulnerabilidade emocional, especialmente em momentos de crise.

A importância das amizades vai além do aspecto emocional

Os benefícios das amizades estão relacionados à própria natureza humana. De acordo com a psicóloga, as relações sociais acompanham o indivíduo desde a infância e são fundamentais para o desenvolvimento emocional. Além de fortalecer o sentimento de pertencimento, amizades saudáveis favorecem a autoestima e podem estimular a liberação de neurotransmissores associados ao bem-estar.

“Não se trata apenas de uma relação afetiva, mas de um componente importante da vida social e emocional”, explica.

Um dos pontos destacados pela especialista é a diferença entre isolamento físico e solidão. Enquanto estar sozinho significa apenas não estar acompanhado naquele momento, sentir-se solitário é uma experiência subjetiva, relacionada à percepção da qualidade das relações.

Assim, uma pessoa pode viver sozinha e sentir-se plenamente satisfeita, da mesma forma que alguém cercado por familiares, colegas ou seguidores nas redes sociais pode experimentar uma intensa sensação de vazio. Para Ligia, a solidão está menos ligada ao número de pessoas ao redor e mais à existência de vínculos significativos.

Amizades e fases da vida

Construir e manter amizades tende a se tornar mais difícil com o passar dos anos. A rotina de trabalho, estudos, responsabilidades familiares e outros compromissos reduz o tempo disponível para convivência e para conhecer novas pessoas. Mudanças como divórcio, mudança de cidade ou alterações na rotina também exigem a reconstrução da rede de apoio, processo que, segundo a especialista, faz parte dos ciclos naturais da vida.

Além disso, muitos adultos acreditam que o círculo social já deveria estar consolidado, o que pode gerar insegurança ou receio de iniciar novos vínculos. No entanto, mesmo que a necessidade de vínculos sociais mude conforme a idade, mas sua importância permanece.

Na infância, as amizades contribuem para o aprendizado da cooperação, do compartilhamento e da convivência. Na adolescência, ganham papel central na construção da autonomia e da identidade. Na vida adulta, apesar da tendência de redução no número de amigos, as relações costumam se tornar mais profundas e significativas. Já entre idosos, manter uma rede de convivência ajuda a reduzir o isolamento, protege contra sintomas depressivos e estimula habilidades cognitivas.

Embora a tecnologia facilite manter contato com amigos que vivem longe e permita encontrar pessoas com interesses em comum, ela também pode favorecer relações superficiais. Para a psicóloga, é importante avaliar se os vínculos permanecem restritos ao ambiente virtual e se houve redução dos encontros presenciais.

“A tecnologia é uma ferramenta importante para manter conexões, mas não substitui completamente a convivência, o olhar e a presença física”, afirma.

Como identificar quando a rede de apoio está enfraquecida

Entre os principais sinais de que a rede de apoio pode estar fragilizada estão o afastamento de atividades sociais, o hábito de enfrentar todas as dificuldades sozinho, o isolamento durante momentos de descanso e a vergonha de pedir ajuda.

Segundo Ligia, esses comportamentos costumam surgir de forma gradual e podem indicar que a pessoa dispõe de menos recursos emocionais para lidar com perdas, frustrações e situações de estresse.

Apesar disso, ela destaca que é possível reconstruir esses vínculos por meio de pequenas atitudes, como retomar o contato com antigos amigos, aceitar convites ou tomar a iniciativa de iniciar uma conversa.

“Afastamentos acontecem por diferentes motivos, mas não precisam ser definitivos. Recomeçar faz parte da vida e pode abrir espaço para novas relações”, conclui.

Fonte CNN BRASIL