A música de fundo do vídeo é o funk “Rap do Salgueiro’’, da dupla Claudinho e Buchecha. “Eu sou pobre, pobre, pobre, pobre de marré/ Mas sou rico, rico, rico, rico de mulher’’, diz o refrão que embala meninas com o “uniforme’’ das noites cariocas (top com short ou calça justa) e cabelos lisos até a cintura. Corta para um motoboy que as leva até a festa “Errejota: o baile funk é foda’’, cuja próxima edição será dia 9 de abril, no Píer Mauá, com ingressos entre R$ 70 e R$ 90. No tal vídeo de divulgação do evento, a dança das meninas continua num cenário que reproduz o que seria uma favela carioca, com roupas no varal e banheiro com vaso sanitário que traz no lugar da tampa um papelão em que se lê “não usar, entupido’’. Na linha “quer que eu desenhe’’, uma imagem daquilo que você imagina ilustra o aviso.
Durante todo o dia de quarta-feira, as imagens provocaram polêmica dentro e fora das redes sociais. Nos comentários postados na página da festa, a maioria reprovava (“alegoria de favelado’’) ou ironizava (“vai ter rodada de bala perdida?’’) a publicidade.
Uma das principais pesquisadoras do funk no país, a antropóloga, historiadora e professora da UFRJ Adriana Facina disse que viu “racismo, estigmatização e cinismo’’ no vídeo:
Vídeo de divulgação da festa ‘Errejota’mostra cenário com favela estigmatizada – Reprodução
— Não haveria problema algum se os favelados estivessem presentes como público consumidor e não somente como atração a ser consumida. Não haveria problema se a desigualdade social brutal de nossa sociedade, que gera precariedade, não fosse utilizada como ambientação para dar “o clima’’ da festa. Em não sendo assim, vejo muitos problemas.
Produzida pela Fábrica Entretenimento, a “Errejota’’ existe há quase três anos e já rodou o país. No início da noite de ontem, seus organizadores divulgaram uma nota oficial em que pedem “sinceras desculpas aos que se sentiram ofendidos’’.
Renan Coelho, um dos idealizadores da festa, diz que foi pego de surpresa pelas críticas. Ele conta que procurou ícones do gênero musical e conversou com amigos que moram em favelas, quando surgiu a ideia de “levantar a bandeira do funk’’.
— A classe A do Rio ama essa cultura, assim como ama samba, black, rap e hip-hop — ressaltou Coelho, que disse empregar mais de 250 pessoas a cada edição, muitas delas moradoras de favelas.
Fonte: O GLobo
Foto: Reprodução
Postado por: Raul Motta Junior