Quando o abre-alas da União da Ilha apontar na concentração, o público terá a impressão de estar diante de uma favela inteira entrando na Avenida. Será uma comunidade de 60 metros de comprimento, 16 metros de altura, barracos, mototáxis e cenas do cotidiano que parecerão um morro de verdade, num desfile que, do início ao fim, será marcado pelo extremo realismo. O enredo abordará as encruzilhadas que a vida impõe. E as mazelas do dia a dia, como o aumento da população de rua e a via-crucis na segurança pública, serão traduzidas em alegorias e fantasias de forma nua e crua, embora com os toques de leveza que o carnaval pede.
Essa reviravolta estética numa escola conhecida por temas mais lúdicos se dá pelas mãos da comissão de carnaval composta por Laíla e Fran-Sérgio, de tantos títulos na Beija-Flor, e Cahê Rodrigues, ex-Imperatriz Leopoldinense. Na estreia deles na Ilha, o trio promete impacto. O fio condutor do enredo será uma mulher grávida, negra e moradora da favela, prestes a dar à luz, preocupada com os desafios que o filho terá pela frente. O lugar em que ela vive será o primeiro espaço retratado. E para deixá-lo mais fidedigno, Fran-Sérgio visitou várias comunidades cariocas em busca de inspiração.
— Fui ao Complexo da Maré, a Vigário Geral, ao Boogie Woogie, na Ilha do Governador… E trouxe de lá cenas como a dos aviários, que desapareceram da cidade, mas resistem dentro da favela. E também imagens da barraquinha que vende carne de porco ou das pessoas carregando caixas e tijolos — conta o carnavalesco. — Além disso, esse enredo tem muito da infância do Laíla no Morro do Salgueiro.
O material usado para criar essa atmosfera também é diferente do habitual na folia. Não tem uma única pluma. Mas há muita sucata, objetos doados pelos componentes da Ilha e levados de casa até pelos carnavalescos. Uma manta de Fran-Sérgio, por exemplo, foi parar num tripé que mostrará uma família em situação de rua, vivendo perto de uma tubulação de esgoto. Realidade à que o carnavalesco assistiu em suas andanças pelo Rio.
— Infelizmente, é algo muito comum. Se você sair da Cidade do Samba em direção à Central do Brasil, vai cruzar com uma mulher que mora dentro do túnel. Acabou que, com esse enredo, passei a observar mais as ruas — diz Fran-Sérgio, que visitou ainda a área do antigo lixão de Gramacho, em Duque de Caxias. — É o momento de fazermos esse tipo de desfile, principalmente no Rio, que passa por uma série de problemas.
Nesse contexto, a rotina do transporte público lotado estará representada no segundo carro alegórico, que terá um vagão de trem abarrotado e um gigante, que chegará a 13 metros de altura, para representar um Brasil quebrado e descolorido, enquanto o povo tenta reconstruí-lo. Outra alegoria, cheia de privadas douradas, tratará dos problemas nas áreas da saúde, educação e segurança pública, com encenações e esculturas guardadas a sete chaves pela agremiação.
Fran-Sérgio, no entanto, refuta qualquer comparação com o desfile da Beija-Flor em 2018. Naquele ano, a azul e branca de Nilópolis foi campeã numa apresentação com teatralizações fortes e polêmicas, como a de um ataque a estudantes numa escola e a morte de um policial militar.
— É muito diferente. Em 2018, abordávamos Brasília e questões nacionais. Aqui, não. Falamos de nós mesmos, das encruzilhadas da vida que cada um de nós precisamos atravessar. E, apesar de ser um carnaval original e de muito realismo, não é pesado. Tem um pouco a cara da Ilha. São roupas leves e que trarão os personagens do cotidiano, como os trabalhadores que se viram como camelôs para sobreviver — ressalta o carnavalesco.
Em tudo, diz ele, a mensagem será de esperança, de que é possível passar por cima dessa coleção de problemas. É o que estará explícito no último carro. Nele, a favela volta à Avenida, só que desta vez num olhar mais aproximado, mostrando toda a efervescência que existe em seus becos e vielas:
— Tem festa na laje, funk, pagode, samba… Se a primeira favela é um olhar de quem a vê de fora, a da última alegoria a revela em detalhes, com as muitas ideias boas que surgem dentro dela. É a noção de que o povo brasileiro não desiste, é forte, está sempre ali batalhando.
Fonte: Globo
Postado por: Raul Motta Junior