A trajetória de 24 anos do Teatro do Leblon daria uma bela história com direito às muitas nunces que fazem parte de uma boa peça. Este ano, em especial, o local viveu momentos que foram da agonia — chegou a ficar dois meses de portas fechadas por falta de recursos — ao êxtase: agora se despede do drama vivido nos últimos tempos e se prepara para estrear um novo momento. Abriu a Sala Marília Pêra para aulas de teatro musical com os premiados Charles Möeller e Cláudio Botelho, e vai começar a apresentar a partir de dezembro, na Sala Fernanda Montenegro, os shows da companhia Ginga Tropical, a única do estado a realizar exibições folclóricas para turistas e brasileiros.
— O Teatro do Leblon está passando por um renascimento. Vamos começar tudo de novo — explica Wilson Rodriguez, de 79 anos, engenheiro, economista e psicanalista, mas cujo fascínio pelo teatro falou mais alto. — Fui parar no teatro por paixão. Só se faz teatro no Brasil por paixão.
Rodriguez construiu, nos últimos 30 anos, dez teatros no Rio — entre eles, Teatro da Barra, Teatro da Artes e Teatro Fashion Mall — e em São Paulo. Alguns ele vendeu; outros ficaram para antigos sócios. Hoje, só restaram as duas salas do Teatro do Leblon. Quando viu as portas se fecharem, achou que era o fim de um sonho:
— Fiquei muito abatido, pois é um teatro de prestígio. Isso me tocou demais. De três a quatro anos para cá, o prejuízo ficou mais alto. Com a Lei Rouanet parada, a qualidade das produções caiu bastante, o que desencadeou uma procura baixa do público.
Para o proprietário, os projetos que começam a ser executados agora dão ao Teatro do Leblon um novo fôlego.
— Tem muita coisa boa acontecendo e outras ainda por acontecer. As expectativas são as melhores — diz ele, revelando também que está em estudo o processo de naming rights, quando empresas ou marcas emprestam seus nomes ou de algum produto relacionado a elas para estabelecimentos culturais e esportivos, entre outros, mediante um pagamento. — É uma possibilidade que vem sendo trabalhada.
Para a classe artística, que se mobilizou em peso para não deixar que a casa fechasse de vez, ver o Teatro do Leblon se reerguendo é motivo de vitória. A atriz Andréa Beltrão, dona do Teatro Poeira com a atriz Marieta Severo, é uma das que comemoram.
— O Teatro Leblon tem uma importância imensa para a cidade, que já perdeu quase 40 teatros nos últimos anos. Não pode perder mais nenhum — diz ela, que já esteve nos palcos da casa com montagens como “A dona da história” e “A prova”, esta última produzida por Rodriguez. — O Teatro Leblon e seus proprietários investiram muito no teatro e em grandes montagens. Por lá passaram peças e artistas que vão ficar para sempre na memória dos cariocas e de todos que tiveram a oportunidade de assistir aos espetáculos.
Para a atriz, o maior desafio da classe é manter o teatro vivo, como um lugar de encontros, descobertas, pesquisas, com uma programação que converse e interesse à cidade, ao público e aos artistas:
— A gente se reinventa todo dia. Vai contando histórias e fazendo teatro, nesse país onde a maioria da população não tem direito à educação, à saúde e a saneamento básico. A vida real está dureza, então a ficção tem que se esforçar para falar e estar à altura dos acontecimentos.
Nesta nova história vivida pelo Teatro do Leblon, uma das protagonistas é Rose Oliveira. Ela é a idealizadora da companhia Ginga Tropical, que mostra ao público um pouquinho do Brasil. Os músicos e bailarinos apresentam um tour ritmado passando pelo Festival de Parintins, carimbó, xaxado, forró, frevo, capoeira, bossa nova, lambada, maculelê, dança dos orixás, sertanejo e samba, entre outros ritmos que fazem parte da cultura regional do país.
— É um sonho estrear nessa casa nova, na Sala Fernanda Montenegro. Em cinco anos de vida, sempre precisamos nos adequar a espaços pequenos e que não eram preparados para nosso espetáculo. Nós é que nos adaptávamos — comemora Rose. — Pela primeira vez vamos conseguir montar o nosso espetáculo para um teatro, com espaço disponível e equipamentos e luz adequados.
As apresentações da companhia Ginga Tropical celebram todas as regiões do país – Norton do Carmo / Divulgação
O contrato de aluguel do Ginga Tropical com a casa tem duração de um ano, e a primeira apresentação está marcada para o próximo dia 19. Rose espera que a experiência nesse novo palco ajude a desmistificar o preconceito que esses shows têm dentro do próprio país, inclusive, entre a própria classe artística, como ela diz.
— Trabalhar folclore e cultura brasileira nesse país não é tão respeitado quanto você montar Shakespeare. Então o Brasil continua dando muito tiro no próprio pé. Nós cantamos, dançamos, representamos, fazemos stand up, damos aula, fazemos malabares, e ainda falamos de cultura. Não falta nada de arte no nosso trabalho. Entramos na área da elite sem ser elite e sem ser dono da casa, mas estamos pagando com o próprio dinheiro — explica ela, lembrando que a companhia sempre sobreviveu com recursos próprios, sem patrocínio.
Na estreia será apresentado o show já consolidado da companhia, com duração de 80 minutos. Entre os bailarinos, o clima é de ansiedade e euforia.
— Vai ser tudo novo de novo. Nosso show é muito leve, alegre e dinâmico, com uma resposta imediata com o público — conta a coreógrafa Jeane Cristine, grávida de Theo. — Dancei até os quatro meses com ele na barriga. Depois, não deu mais. Ele já vai chegar no ritmo do Ginga.
A companhia diz que as apresentações que tanto encantam os turistas também surpreendem os brasileiros.
— Queremos convidar todo mundo para conhecer um pouco mais da cultura brasileira, que é tão rica. Temos mais de 450 danças no Brasil, e a maioria dos brasileiros não faz ideia — conta o bailarino Pablo Guerreiro, que abre o espetáculo vestido de malandro e convidando o público a aprender a dançar o samba. — É uma forma de descontrair e trazer o público para a atmosfera do espetáculo. A partir daí, vamos apresentando os outros ritmos, e a festa continua. No fim, todos saem contagiados e felizes.
‘Uma relação de amor e de afeto’
A consagrada dupla de atores e diretores de musicais Charles Möeller e Cláudio Botelho, que se tornou referência no gênero, tem uma longa história com o Teatro do Leblon. Grandes espetáculos assinados por eles já passaram pela casa, como “Cole Porter — Ele nunca disse que me amava” e “Beatles num céu de diamantes”, que já está há dez anos em cartaz e retorna para mais uma temporada em janeiro na Sala Marília Pêra.
Charles Möeller e Claudio Botelho: cursos de teatro musical e nova peça em cartaz – Guito Moreto / Agência O Globo
— Ao mesmo tempo em que estou ensaiando, fico morando nesse teatro. A minha relação com ele é muito próxima, de afeto e de amor. Fiz grandes sucessos naquelas salas, que fazem parte da história da minha vida. Fora o respeito com o Wilson (Rodriguez) e todo o trabalho e a luta dele pelo teatro. Sinto que faço parte um pouco da história daquelas salas nos últimos anos. Sem falar que adoro a localização, acho que aquilo ali tem tudo para ser um sucesso sempre. Adoraria lutar para o local continuar sendo um teatro — afirma Möeller.
É ali, aliás, que eles têm ensaiado diariamente o mais novo espetáculo, “Se meu apartamento falasse”, a versão brasileira de “Promises, promises”, que estreou originalmente na Broadway em 1968, inspirado no enredo do filme “The apartment”. E também é no Teatro do Leblon onde acontecem as aulas de mais uma edição do curso de teatro musical ministrado por Möeller.
— Já ministrei um curso na Casa do Saber, na CAL e também no Teatro Ginástico. Este ano fiz uma primeira edição de um tipo de curso prático que eu chamo de Experiência Möeller & Botelho — diz.
Segundo ele, o método que leva o nome da dupla vai desde as audições até um trabalho com canções e repertório com Möeller, pianista e maestro. Depois, há uma apresentação final.
— A gente está com uma turma de 50 alunos maravilhosa. Uma turma de muitos solistas. Tem tantos artistas incríveis que mudei a minha prática de montagem em função de fazer uma coletânea de todas as grandes canções de 50 musicais para poder dar uma oportunidade para todos de tão bons que são. Meu curso foi uma grata surpresa — afirma ele, acrescentando que as aulas são realizadas duas vezes por semana, com três horas de duração cada.
Para ele o teatro musical profissional se abriu, mas não existem livros, material didático. Os artistas precisam ter uma base de formação, de preparo, de ferramentas para continuar tocando a profissão:
— Acho que a minha função depois de 47 espetáculos e 30 anos de produtor é dividir meu conhecimento e não guardar meus coelhos numa cartola, mas alimentar esses talentos todos para que possamos ter um exército de gente talentosa.
Ele conta que, com as aulas, vislumbra um futuro ainda mais amplo, em que pretende montar uma escola de musical que ensine tudo: canto, dança, interpretação e que tenha instrumentos e orquestras.
— Que a gente possa oferecer um campo de trabalho para as pessoas e, além disso, dar uma profissão para elas. Eu me preocupo muito com a parte educacional.
Botelho conta que passou a vida inteira escutando que brasileiro nunca poderia fazer musical porque não tinha formação, porque brasileiro ou canta ou dança ou interpreta. Mas é categórico ao dizer que essa situação já mudou há muito tempo:
— A ideia das aulas é oferecer tudo no mesmo lugar e apontar, pelo menos, para um caminho frutífero, rápido e real.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior