Rio vive clima de harmonia entre turistas e cariocas

A Olimpíada é uma festa de encontros. Tanto dos atletas em pistas, quadras e piscinas quanto de turistas com cariocas numa esquina ou praia qualquer do Rio. Não faltam histórias, que serão guardadas na crônica particular de cada personagem, os de fora e os daqui. A estoniana Miina Looke encontrou a “baiana” carioca Danielle Vasconcelos na barraca da Dona Lucinha, na feira hippie de Ipanema. Miina, estudante de biologia, veio para o Rio trabalhar como voluntária nos Jogos. Danielle é afilhada de Lucinha e a responsável por atender os gringos curiosos que chegam querendo provar os quitutes do tabuleiro. A estoniana, após a explicação de Danielle, decidiu experimentar a tapioca. No recheio, só queijo. Uma mordida, duas mordidas, e o veredito: aprovado. Mas Miina estranha a consistência da tapioca.

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— É meio gelatinoso — ela diz, intrigada com o sabor, exótico para quem vem do frio europeu.

A voluntária trabalha no credenciamento das equipes de hóquei sobre grama, em Deodoro. Para economizar, alugou um quarto pela internet em Curicica, próximo ao Parque Olímpico. Miina levou duas horas para chegar a Ipanema, mas achou bom o sistema de transporte dos Jogos para o pessoal credenciado. À tarde, ela assumiria seu posto e estava aproveitando as horas de folga para passear pela cidade. Sorridente, conta que ficou impressionada com a goma que, magicamente, virou tapioca pelas mãos de Danielle. Novos encontros, pequenas surpresas. Nesse momento, a “baiana” já enchia mais frigideiras para atender a fila que se formava no final da manhã.

Se a alquimia da tapioca intrigava, um quitute com o estranho nome de “acarajé” também não era nada fácil de explicar. Do lado oposto da barraca, a própria Dona Lucinha enumerava para um gringo, na “língua da simpatia”, os ingredientes da iguaria. Era o escritor inglês Nick Fagge, que veio ao Rio acompanhado da esposa e do filho para assistir aos Jogos. Tiradas todas as dúvidas, Fagge decidiu encarar a comida baiana, sapecada em dendê.

— Pode colocar pimenta? Pepper”? — pergunta Dona Lucinha, arriscando um inglês que aprendeu na lida diária.

— Sim! — responde o escritor, sem esconder o orgulho de lançar uma das poucas palavras em português que conhece.

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COM INTIMIDADE, TURISTAS VIVEM O RIO PRÉ-OLÍMPICO

Seu filho, Luc, não parece muito empolgado com os camarões. Ele tira alguns, antes da primeira mordida. Nick, por sua vez, ataca o acarajé e lambe os beiços e os dedos:

— É muito bom!

SILÊNCIO DIANTE DO MOLEJO DA MULATA

A família tem ingressos para assistir às provas do ciclismo, no Velódromo, do remo, na Lagoa, e a aguardada final dos 100 metros rasos, com o astro jamaicano Usain Bolt, no Engenhão. O trio ainda está atrás de ingressos para outras provas, especialmente para a cerimônia de abertura.

— Minha esposa e meu filho estiveram na abertura da Olimpíada de Londres, em 2012, e ela diz que foi a noite mais incrível da vida dela. Infelizmente, parece que as entradas estão esgotadas, mas ainda tenho esperança — disse, arrematando com mais uma dentada no acarajé.

O gestor de fundos Hans Scheepers, que veio de Amsterdã com a família para apoiar a seleção holandesa de hóquei sobre grama, acreditando em duas medalhas de ouro, garantiu que esperava enfrentar mais percalços no Rio. Mas não contava com nossa simpatia.

— Essa é uma cidade muito mais amigável do que imaginava, não passamos por nenhuma dificuldade até agora — disse o holandês.

A praia, a caipirinha e o samba exercem um magnetismo irresistível e ajudam na integração entre turistas e cariocas. O chileno Patrício Morales ficou hipnotizado com a beleza da passista Marina Caetano, que protagonizava uma ação de marketing de uma agência de turismo. Após pedir para o seu genro tirar uma foto acompanhado da beldade, ele se vira para o repórter e provoca de um jeito carioquíssimo:

— Bicampeão! — grita, em referência aos títulos da Copa América que a seleção de futebol do seu país, e não a brasileira, ganhou em 2016 e 2015.

Voltando à mulata: ela nem precisou responder. O encantamento, às vezes, dispensa palavras.

Fonte: O GLobo
Foto: Ana Branco
Postado por: Raul Motta Junior