Restrições retardam o avanço da doença na cidade de Niterói

No dia 17 de março, um idoso de 69 anos morreu em Niterói, o que foi, ao lado de outro caso no mesmo dia em Miguel Pereira, os primeiros óbitos no estado causados pelo novo coronavírus. Naquele momento, o alerta se acendia no município, que mais concentra famílias das classes A e B no país, palco propício para rápida propagação da doença que chegou ao Brasil trazida por pessoas que viajaram para o exterior. Mas, quase um mês depois, o cenário trágico não se confirmou, e a letalidade está em proporção menor que a média nacional — três mortes e 107 diagnósticos confirmados.

Especialistas e as autoridades da cidade atribuem os números às medidas de restrição adotadas com rapidez. Depois de ter montado barreiras sanitárias em sete acessos da cidade, fechado a maior parte do comércio e proibido a circulação por praias e parques, a prefeitura começou ontem a distribuir um milhão de máscaras nas ruas. Além disso, anunciou programas de estímulo econômico, como pagamento de até nove salários mínimos para microempresas, liberação de créditos a pequenas e médias firmas com juro zero e ajuda de R$ 500 para trabalhadores autônomos.

À espera de testes
Outra ação será a inauguração na sexta-feira do Hospital Oceânico, em Piratininga, que foi arrendado para o combate da pandemia, com previsão para 140 leitos de UTI. Já a testagem em massa, que foi anunciada há duas semanas, ainda não se concretizou. Nesse caso, Niterói atribui o problema à concorrência agressiva americana, que atravessou encomendas da China para vários países, segundo o prefeito Rodrigo Neves. Por enquanto, apenas dez mil dos 80 mil testes encomendados chegaram à cidade, mas há expectativa de que mais 50 mil sejam recebidos até o fim da semana. Dos 200 respiradores, encomendados há 40 dias, apenas 50 foram entregues.

— Queremos que Niterói continue na trajetória de propagação mais lenta e com taxa de mortalidade baixa — afirmou Neves. — Desde que vieram as primeiras informações da China, criamos um grupo de pronta-resposta para desenvolver protocolos, estudos e treinamentos.

Atualmente, a rede municipal de Niterói realiza apenas testes em pacientes internados. Quando os testes rápidos chegarem, a prioridade será atender grupos de risco e pessoas em situação de vulnerabilidade. O passo seguinte será levar os infectados para os centros de referência de quarentena, montados em dois Cieps com capacidade para até 600 pessoas. Além disso, foram arrendados hotéis com 70 vagas para moradores de rua.

Para Alberto Chebabo, infectologista da UFRJ, as medidas de isolamento adotadas por Niterói, apesar de consideradas radicais por alguns, foi importante para evitar o colapso do sistema de saúde.

— Eu acho que a situação estaria muito pior se não tivesse o distanciamento social — disse o especialista, que, por outro lado, não vê efetividade em outras medidas tomadas pelo município, como a sanitização em comunidades.

Para Ligia Bahia, especialista em saúde pública da UFRJ, Niterói é um “modelo a ser seguido”:

— A cidade está adotando medidas corretas de distanciamento social, de organização da rede de serviços de assistência e buscando utilizar bem os testes, que ainda são insuficientes.

Neves disse que está custeando as medidas com recursos próprios da cidade, que vem recebendo repasses significativos de royalties nos últimos anos. Segundo ele, no entanto, não está descartado uso de verba do fundo da prefeitura, que tem hoje R$ 290 milhões vindos do petróleo.

No Mercado de Peixes São Pedro, um dos mais importantes de Niterói, os lojistas comemoraram o anúncio da ajuda financeira. O movimento no local caiu cerca de 70% desde o início das restrições, mas ontem houve filas para as compras da Semana Santa.

Fonte: Globo
Postado por: Raul Motta Junior