A recuperação de um cartão-postal do Rio que tem sofrido pela ação de vândalos e do clima pode estar nas mãos de guias turísticos. A Escadaria Selarón – obra do ceramista e pintor chileno Jorge Selarón – é alvo de um projeto que propõe o inventário de todas as peças e o mapeamento de danos. A ideia é de guias independentes, que decidiram partir para o financiamento de recursos através da arrecadação online. A Liga Independente de Guias de Turismo (Liguia) está concorrendo ao edital Matchfunding de Cultura BNDES, que seleciona projetos patrimoniais para custear via Benfeitoria, uma plataforma virtual de captação de fundos.
O inventário é o que ainda falta para o ponto turístico da Lapa finalmente se tornar um patrimônio público oficial. Passados 14 anos, a escadaria possui apenas um tombamento provisório, decretado em 2005 pelo então prefeito Cesar Maia. Depois da passagem de quatro prefeitos pela administração municipal, os azulejos ainda não foram catalogados, mas, se concretizada a ação dos guias, a estrutura com 215 degraus e 125 metros de comprimento pode enfim ganhar status definitivo.
— Quando o órgão municipal tombou provisoriamente a escada, eles não fizeram nenhum levantamento. O que tinha que acontecer desde 2005, e isso eu estou falando de 14 anos, é que o órgão municipal deveria ter feito um inventário. Estamos com o projeto engatilhado e já temos a permissão do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH). A conservação é urgente, dado o histórico de vandalismo no local e de desastres naturais na cidade — afirmou Andre Andion, integrante da Liguia e coordenador do projeto.
Segundo especialista, diante da degradação do monumento, a manutenção e medidas de prevenção contra futuros danos são necessárias para manter a beleza do mosaico de cores e formas que os azulejos compõem. Para a realização do projeto “Escadaria Selarón: pedaço(s) do mundo”, que inclui, além do mapeamento, um plano executivo inicial, no entanto, é preciso angariar R$ 45 mil.
Piora da conservação
Comerciantes e moradores reclamam que não há alternativas para contornar a piora no estado de conservação, pois a prefeitura não realiza a manutenção e tampouco deixa que iniciativas da vizinhança para a reposição de azulejos ocorra. O local, segundo moradores, é alvo constante de vandalismo, praticado em horários noturnos, quando termina a visitação guiada de turistas.
— Há pessoas que tiram os azulejos de noite e vendem por R$ 5 e R$ 10. Ano passado, alguns moradores propuseram comprar azulejos vermelhos para preencher os espaços deixados pela falta de peças, mas não puderam. É difícil você querer fazer algo, mas não poder — contou a comerciante que não quis se identificar.
Moradora do local há 40 anos, Gina Santos afirma que resta aos moradores realizar mutirões de limpeza.
— Não são os turistas mas as pessoas aqui do Rio que arrancam. Deveriam ter mais cuidado e conservar mais. Agora está faltando alguém para consertar, e a prefeitura, que deveria fazer isso, não fez nada até agora. Nunca nem a vi funcionários por aqui — relatou Gina
De acordo com Andion, o mapeamento de danos solicitado no Matchfunding também vai ajudar a detectar os danos decorrentes da alternância de sol e chuva que criam condições para a cerâmica se soltar. Ele explica que a água das chuvas arrasta a estrutura com força suficiente para desgastar o revestimento da escadaria.
Se forem selecionados no edital, o coletivo com pouco mais de mil guias contará com a ajuda da iniciativa do BNDES, que dará R$ 2 para cada R$ 1 doado no Benfeitoria. Segundo o gerente no Departamento de Educação e Cultura do BNDES, Eduardo Bizzo, com o edital, o banco pretende abranger projetos pequenos de todo o país, a partir de R$ 30 mil. O engajamento da sociedade através de plataformas de financiamento coletivo é priorizado.
Procurada, a assessoria da Secretaria de Conservação e Meio Ambiente confirmou o recebimento de um relatório do IRPH e está analisando as reformas necessárias que serão incluídas na programação futura do órgão.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior