Vencedor do Prêmio Faz Diferença na categoria Rio, o criador da Orquestra Maré do Amanhã, Carlos Eduardo Prazeres , definiu na noite desta quarta-feira sua vitória como “um reconhecimento fantástico ao projeto”. Ao receber a estatueta das mãos da editora de Rio, Gabriela Goulart, ele dedicou a vitória aos seus alunos e à comunidade.
— Este prêmio é de toda uma comunidade. Meninos e meninas que acreditaram nessa loucura. Este é um projeto que está transformando a vida de crianças na Maré — iniciou seu discurso.
Ele lembrou, também, as dificuldades enfrentadas pelo projeto no período em que o complexo esteve ocupado pelas Forças Armadas.
— Neste período de ocupação, registramos situações de usurpação dos direitos destes meninos. Os integrantes da Orquestra tinham que abrir suas caixas de instrumentos em revistas. O menino do oboé, por exemplo, sofria, pois o tamanho do instrumento era confundido com cigarro de maconha — contou.
Em sua comemoração, em seguida, Carlos Eduardo enalteceu o apoio da Lei Rouanet.
— Gostaria também de dizer uma coisa, e eu não sou corrupto, nem ladrão. Sem a Lei Rouanet — que financia a iniciativa —, teríamos 3,5 mil crianças atraídas para o tráfico.
Pouco antes de subir ao palco, o maestro destacou ainda o quanto a iniciativa do GLOBO ajuda a colocar em evidência estes adolescentes, que encontram obstáculos na busca por oportunidades.
— Muitas vezes os moradores de favela ficam invisíveis à sociedade, mas são pessoas dedicadas, que buscam seu lugar ao sol — acrescentou.
Prazeres lembrou, por fim, a importância dos patrocinadores num projeto como o da Orquestra.
— Temos planos para expandir o projeto para todas as escolas da Maré, mas, dependemos da entrada de patrocínios. Este ano, por exemplo, passamos por dificuldades e tivemos que adiar uma oficina no Instituto Dom Bosco, para menores infratores, na Ilha do Governador, por limitações de orçamento. Lá, atenderíamos entre 30 e 40 adolescentes. Após a mudança de governo, perdemos três patrocínios, um deles master — concluiu.
Tragédia pessoal se transformou em motivação
Em 14 de janeiro de 1999, uma tragédia marcou a música clássica brasileira. Após um sequestro relâmpago em Laranjeiras, o maestro Armando Prazeres, fundador da Orquestra Petrobras Sinfônica, acabou assassinado com um tiro. As investigações concluíram que o autor do crime era morador da Maré.
Foi justamente o complexo de favelas que margeia a Linha Vermelha e a Avenida Brasil que Carlos Eduardo Prazeres, filho do maestro, escolheu para transformar o luto em acordes, que, desde 2010, vêm mudando as perspectivas de crianças e jovens de uma área regida pela violência.
Oito anos depois de criada por Carlos Eduardo, a Orquestra Maré do Amanhã atende 3,5 mil meninos da comunidade. Do currículo da orquestra principal — com 40 instrumentistas, entre 13 e 19 anos — consta a emoção de ter se apresentado para o Papa Francisco, no Vaticano. O projeto conta ainda com duas orquestras infantis e oferece aulas de musicalização às crianças das 23 creches e Espaços de Desenvolvimento Infantil (EDIs) da Maré.
E são tantas as histórias de vida dos meninos da Maré do Amanhã que elas viraram o documentário “Contramaré”, produzido pelo GLOBO e lançado em 2018.
— Ganhamos uma sede. E, agora, o Faz Diferença. Tudo isso nos estimula ainda mais. Queremos multiplicar o número de alunos, chegar a quatro mil este ano. Estamos correndo atrás de patrocínio — diz Carlos Eduardo.
O Prêmio Faz Diferença, iniciativa do GLOBO em parceria com a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), prestou homenagem aos brasileiros que se destacaram em 2018 em 17 categorias. Na 16ª edição do prêmio, a atriz Fernanda Montenegro foi consagrada como a Personalidade do Ano de 2018.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior