“Eu protegi teu nome por amor. Em um codinome beija-flor”. No ponto de encontro entre a Rua Dias Ferreira e a Avenida Ataulfo de Paiva, no Leblon, o trecho da música inscrito no chão — já um tanto apagado — era o único elemento que lembrava aos passantes a relevância daquele largo, projetado por Helio Pellegrino. Ao menos até esta quinta-feira, quando uma aguardada estátua do músico que dá nome ao espaço será inaugurada, justamente na data em que se comemora também o Dia Mundial de Luta Contra a Aids. A mãe de Cazuza, Lucinha Araújo, avisa que será a primeira a chegar ao evento de inauguração, às 19h. As canções do compositor serão relembradas na ocasião em show conduzido pela cantora Teresa Cristina.
A escultura feita em bronze foi criada por Christina Motta, a mesma que reproduziu a atriz francesa Brigitte Bardot na orla de Búzios. Foram anos de espera, por questões burocráticas, até que o desejo de Lucinha se concretizasse. Ela se diz satisfeita com o resultado da obra e em poder ver o filho imortalizado de uma nova forma.
— Eu espero, primeiro, que a praça seja bem cuidada, E depois, que dê prazer às pessoas, tanto para as que são fãs como também para as que não são fãs. Espero que zelem pela praça, que é pequena, mas muito bonita. Era o lugar dele. Ele está de volta ao Baixo Leblon, onde saía para beber e passear — conta.
MAIS VIDA À PRACINHA DE CAZUZA
Durante 12 anos, Cazuza morou com a família em frente à praça que leva seu nome. Para representá-lo em forma de estátua, a mãe, Lucinha, e a artista Christina Motta usaram como base uma foto do cantor, apenas acrescentando uma bandana, seu acessório rotineiro. O ar descontraído, característica marcante do artista, também foi captado.
Homenagem apagada. A Praça Cazuza, no Leblon, com sinais de abandono, antes da chegada da estátua do cantor: uma década de espera – Monica Imbuzeiro
— As estátuas que vemos por aí estão sentadas ou em pé. Achei que deitado ali em cima, bem relaxado, ficaria mais a cara dele — comenta Lucinha.
Ainda está em seus planos promover shows no espaço, ao menos uma vez por mês, para dar mais vida à pracinha, que até hoje exibia claros sinais de abandono.
— Tem aquele prédio fechado ali na frente, onde era o McDonald’s, que é horrível. Está todo pichado. Eu queria comprar o espaço para fazer um bar temático, com garçons vestidos de Cazuza ou uma biblioteca ou um centro cultural, mas o preço é altíssimo — conta.
Segundo ela, mendigos tomavam banho no lago que havia ali, onde ficava um realejo tocando a música “Codinome beija-flor”. Este teria sido roubado, assim como uma escultura de beija-flores suspensa que o ornamentava.
— Agora, com a praça revitalizada, vai ter que ter um segurança de plantão. E eu me proponho a ir lá de vez em quando — diz Lucinha, que mora em Ipanema.
Maria da Graça Lustosa mora no Leblon há 30 anos e sente falta do movimento de antes:
— Tinha mais gente, era mais bonito, com um laguinho. Agora a praça está muito vazia. Acho ótima essa homenagem para dar uma virada.
Outra moradora da região, dona de uma loja de artigos de papelaria próxima à Praça Cazuza, Ane Marques conta que, há pelo menos sete anos, já ouvia falar da estátua. Mas que, passado tanto tempo, já não nutria grandes expectativas.
— É bacana a homenagem ao Cazuza, tem tudo a ver, mas acho que vai ficar um bando de gente pichando essa estátua, que custou uma fortuna. Se não tiver algo que mantenha a praça viva, vai ficar ao léu. O lugar está abandonado — diz.
Ane frisa que é preciso investir mais em eventos, como os que são feitos em lonas culturais da cidade, para fazer jus à imagem do artista que é referência em poesia e música.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior