Uma fileira de cangas estendidas no chão, bugigangas, carrocinha de churros, banca de álcool gel contra o coronavírus. Nada menos do que 399 ambulantes tomavam o calçadão da Avenida Atlântica, em Copacabana, entre as 17h30 e 18h50 da última quarta-feira. O passeio de fim de tarde na orla virou uma caminhada com obstáculos. Era mais um dia no cobiçado cartão-postal do Rio, que vê a desordem urbana se alastrar, impulsionada pela falta de fiscalização e pela escassez de empregos formais.
Um caos semelhante toma conta também de outras três avenidas emblemáticas da cidade, com trechos transformados em verdadeiros camelódromos, como constatou uma equipe do GLOBO durante a última semana. A Rio Branco, no Centro, a Ministro Edgard Romero, em Madureira, e a Armando Lombardi, na Barra da Tijuca, se tornaram um labirinto de ambulantes tão grande que é praticamente impossível identificar o que é legal ou irregular.
Na Atlântica, as ofertas vão de leque de tecido ganês a jogo de xadrez inca. Grande parte dos ambulantes, por sinal, é imigrante. Os africanos dominam o mercado de souvenires do Rio, como Cristos que acendem, chaveiros e ímãs. Já os latino-americanos, quase sempre, ofertam falsificações de marcas de roupas, rivalizando com os vendedores de camisas do Flamengo e das seleção brasileira. A gastronomia é de coisa nossa: tem tapioca, milho verde e açaí —dezenas de carrinhos, quase monopólio de um mesmo fornecedor.
— A concorrência é tamanha que vou embora após vender um único copo de açaí por R$ 5 — dizia um ambulante, desistindo de disputar o espaço ali.
Em alguns pontos da aglomeração, sobretudo nos postos 4 e 5, formam-se duas filas de camelôs, uns postados perto da areia, outros próximos à ciclovia. Eles encobrem o mosaico de pedras portuguesas tombado de Burle Marx e deixam só um corredor estreito para os pedestres, gerando engarrafamentos de gente nas horas mais movimentadas.
— A impressão é de um problema sem solução. Por um lado, quase toda semana o prefeito (Marcelo Crivella) faz uma solenidade para entrega de licenças a ambulantes — afirma Horácio Magalhães, presidente da Sociedade Amigos de Copacabana, acrescentando, no entanto, que não se pode falar que a Guarda Municipal (GM) não faz nada. — Há operações rotineiras. Quando os ambulantes avistam o comboio, no entanto, recolhem as mercadorias rapidamente e, minutos depois, estão de volta.
Guerra pelos fregueses
Por volta das 17h15 da última quarta-feira, a equipe do jornal flagrou cena parecida na altura da Rua Siqueira Campos. Quatro carros da Guarda se aproximaram e, ato contínuo, alguns ambulantes se alvoroçaram para ir embora. Só que os agentes não estavam ali para coibir o comércio ilegal no calçadão, apenas recolheram barracas da corporação que estavam na areia.
No coração financeiro da cidade, a Rio Branco, durante toda a tarde da terça-feira passada, cerca de 260 camelôs que disputavam a clientela tampouco foram incomodados pelos fiscais do município. É outra área em que a algazarra impera, com produtos nas calçadas e no meio dos trilhos do VLT. O passeio público inaugurado em 2016 está hoje apinhado de ambulantes. Perto do Edifício Avenida Central é pior: virou um emaranhado difícil de transpor.
— Sou lojista no prédio. As barracas só não ficam coladas nas nossas portas porque a segurança do edifício chegou a um acordo para que não ocupassem debaixo da marquise. Para os nossos prejuízos, no entanto, não há solução. É desleal. Vendem o mesmo que a gente, a preços mais baixos — queixa-se um comerciante.
Um estudo do Clube de Diretores Lojistas do Rio (CDLRio) aponta que, em 2019, o comércio no Centro registrou queda nas vendas de 4,5% em relação a 2018, com o fechamento de 250 estabelecimentos. Os camelôs, junto a outros fatores, como sujeira e violência, contribuíram para o revés.
Ao longo da Rio Branco, para conquistar clientela, aceita-se pagamentos com cartão de débito, crédito ou por aplicativo de celular. Nas bancas, é possível encontrar pitaia, a fruta do momento, propagandeada como receita para emagrecer, e também tripés de R$ 200 com luz de LED para fotos e até galões de água mineral ou frascos de álcool gel.
Na Barra, os acessos ao metrô Jardim Oceânico, às margens da Armando Lombardi, ganharam praças de alimentação improvisadas, com pipoca, comida árabe, pastel e o que mais a fome pedir. Nenhum lugar, porém, bate a variedade de mercadorias da Ministro Edgard Romero, em Madureira. Nas calçadas entre as estações de trem do bairro e o Mercadão, dá para fazer a compra do supermercado, do shopping e encontrar produtos proibidos ou “exclusivos”. Um dos mais falados é o “Raio Mosca”, um líquido vermelho indicado como solução para baratas, pulgas, piolhos e lêndeas, a R$ 10. Em meio à ameça do coronavírus, Madureira oferece até máscara florida para combinar com a roupa. A pandemia foi incorporada, inclusive, ao marketing dos camelôs.
— Chumbinho! Comeu, morreu. Mata mais que coronavírus — dizia um deles na passarela que liga dois trechos da avenida.
Arquiteto e urbanista, Luiz Fernando Janot ressalta que sempre existiu comércio ambulante na cidade. A questão, diz ele, é que hoje muitos dos produtos são contrabandeados ou oriundos do roubo de cargas. Os vendedores, às vezes, são submetidos às regras de grupos criminosos. Soma-se a isso o que ele chama de um desgoverno em relação ao espaço urbano da cidade, gerando cenas como as da Atlântica e da Rio Branco:
— É uma omissão absoluta, que se reflete não só nos camelôs, mas nas ruas esburacadas, na arborização esculhambada, nas encostas por fazer. Quando não se tem a presença do estado nas políticas públicas, parece que tudo foi liberado para que se faça o que bem entender.
A prefeitura afirma que, por meio do Programa Ambulante Legal, distribuiu até agora 8 mil documentos com QR Code para camelôs autorizados. A partir deles, é possível verificar os dados dos vendedores e dos produtos negociados. Os artesãos da Atlântica, diz, têm licença para trabalhar. As operações para coibir os irregulares chegam a ser diárias na avenida de Copacabana. Na Rio Branco, garante o município, são realizadas seis grandes ações por mês. E, no entorno da estação Jardim Oceânico e na Edgard Romero, há em média quatro operações mensais.
Fonte: Globo
Postado por: Raul Motta Junior