Domingo de sol é um convite para a praia. Mas muitas pessoas, mesmo vivendo no Rio de Janeiro, preferem se refrescar na piscina. Nada contra o banho de mar. Trata-se mesmo de comodidade. Para quem mora longe da orla da Zona Sul e da Barra, é mais prático curtir o fim de semana ensolarado nas piscinas de clubes perto de casa.
O medo de arrastões, como o que aconteceu recentemente no Arpoador, figura entre os motivos que fazem muita gente evitar as praias. Mas a violência não é a única razão apontada por quem troca a água salgada pelo cloro, e as areias pelos azulejos. Tempo no trânsito, congestionamento, dificuldade para estacionar o carro ou viagens desconfortáveis em ônibus também pesam na hora da escolha.
Morador de Brás de Pina, o vendedor Nelson Fernandes, de 45 anos, é frequentador assíduo da piscina do Sesc Ramos. Para ele, a infraestrutura perto de casa é o grande diferencial.
— A região tem vários clubes e acho que a tendência é eles crescerem cada vez mais. Para quem mora na Zona Norte, é ótimo poder contar com essa infraestrutura. Eu só vou à praia de segunda a sexta, quando posso, e, mesmo assim, opto pelas mais distantes, como Grumari, Reserva e Recreio. Tudo para evitar tumulto — diz.
A contadora Leila Mara Gonçalves Antunes, de 60 anos, não deixa de frequentar o Posto 6, em Copacabana, mas costuma se refrescar também na piscina do Bonsucesso Futebol Clube.
— Prefiro a praia, e não deixo de ir ao Arpoador nem a Copacabana. Mas, como moro em Bonsucesso, é muito cômodo vir ao clube. Também gosto muito — diz Leila.
Mas há quem tenha trocado definitivamente as praias do Rio pelas piscinas de clubes, como as amigas Lucimar Arruda, de 57, Márcia Meyer, de 55, e Eliane Gessário de Oliveira, que não revela a idade. As três costumam se encontrar na ampla área de piscina do Olaria Atlético Clube.
— Deixo de ir a qualquer lugar para ficar aqui. O ambiente é muito familiar, nunca vi uma briga no clube — afirma Eliane.
Lucimar, que é sócia do Olaria há mais de quatro décadas, tem o clube como segunda casa. E a piscina, claro, é uma de suas principais áreas de lazer.
— Tenho carteirinha do Olaria desde os 9 anos de idade. A piscina é a extensão da minha casa. Venho praticamente todos os dias — conta Lucimar, que desistiu das praias da cidade há muitos anos. — Adoro praia, mas aqui no Rio é inviável. É longe de onde moro e a violência não é de hoje. Além disso, o estacionamento é complicado; e o pedágio da Linha Amarela, caro.
Os veterinários Romulo Freitas, de 35, e Ana Cristina Guedes, de 42, também preferem levar os filhos, Manuela, de 4 anos, e Mateus, de 11 meses, para a piscina do Olaria. Desde que se tornaram sócios do clube, há três anos, evitam as praias do Rio com a crianças.
— No clube, não nos preocupamos com arrastões. Além disso, o ambiente para a Manuela interagir com outras crianças é ótimo — avalia Ana Cristina.
A opinião é compartilhada pela servidora pública Luciana Leitão, de 42, que fica mais tranquila com os filhos Gabriel, de 7, e Rafael, de 5, no Olaria.
— Para ir à praia, é muito complicado. Venho de carro para o clube, mas moro em Olaria mesmo. É perto. Não enfrento engarrafamento, e fico mais sossegada — afirma Luciana.
Vice-presidente de futebol do Olaria, Roberto Elustondo, o Gaúcho, acredita que a tendência é os clubes da região atraírem cada vez mais frequentadores. Para este verão, a expectativa é de um aumento de 30% no público da área que abrange as três piscinas do Olaria.
— O funcionamento é das 9h às 17h, mas já estamos pensando em estender um pouco mais o horário neste verão. A tendência, principalmente por conta dos arrastões nas praias, é que aumente a procura. E estamos no preparando para receber essa demanda — diz Gaúcho.
Nas unidades do Sesc em Madureira e Ramos, as piscinas também fazem sucesso entre os sócios.
— O histórico de frequência é grande. Em Ramos, a média é de mil pessoas por dia, nos fins de semana. Em Madureira, chega a 1.500 — diz Fernando Borba, gerente de Esporte e Recreação do Sesc Rio, lembrando que a piscina do Sesc Madureira, que passa por reformas, deve ser reaberta em novembro.
Apesar dos recentes arrastões, a opção pelos clubes não é repentina. Ambiente familiar e proximidade de casa contam muitos pontos. E mesmo o medo da violência não é fator novo.
— Já passei por arrastão na Praia de Copacabana. Foi em 1994 ou 1995. Quando vi aquela correria na areia, eu me joguei em cima dos meus filhos para protegê-los. No clube, não temos essa preocupação — diz o professor de Educação Física Nilton Jorge Silva Angelo, frequentador do Olaria.
Sócia do Bonsucesso, a dona de casa Dulce Helena Firmo Baptista, de 57 anos, também lembra de momentos de pavor na orla da Zona Sul.
— Sou louca por praia, mas não fico sossegada. Podia não ser como hoje, mas sempre teve arrastão. Há uns seis anos, tive que correr com tudo para dentro da água para fugir de um arrastão em Copacabana. Por isso acho a piscina uma boa opção — avalia Dulce, que costuma levar a neta Maria Eduarda, de 6 anos, para se refrescar e brincar no clube.
Fonte: O Globo
Foto: Guilherme Leporace / Guilherme Leporace
Postado por: Raul Motta Junior