Era carnaval de 1964 e João Roberto Kelly recebeu do então diretor da TV Excelsior Carlos Manga a missão de cobrir o grande baile do Teatro Municipal. Asseado, de smoking e braço dado com a atriz Sônia Lancelotti, ele tomou um susto ao ouvir pela primeira vez num salão, logo no comecinho da noite, a marchinha “Cabeleira do Zezé”, composição escrita pouco tempo antes, cujo sucesso ele desconhecia completamente. Cada vez que a música era tocada — e naquela época o teatro inteiro já urrava “Será que ele é, será que ele é?” —, os dois corriam para o bar para brindar o feito com champanhe. Lá pela 12ª vez, as carteiras se esvaziaram e os dois foram obrigados a andar da Cinelândia até Copacabana a pé — trocando as pernas sim, mas inebriados de alegria. Por sorte, Kelly abandonou o ritual no nascer do sol. Caso contrário, já teria entornado muito mais do que um Rio Amazonas nessas mais de cinco décadas de folia.
Ano passado, a “Cabeleira do Zezé” foi a segunda música mais tocada durante o carnaval, segundo o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad). Na lista das 20 mais reproduzidas durante o festejo, simplesmente 19 são marchinhas antigas, produzidas até 1964 — a única exceção é a novata “Lepo lepo”, que ocupa sem grande brilho a última posição.
Mas se os blocos de rua voltaram com força de tornado nos últimos anos, por que as colombinas e pierrôs ainda cantam músicas que foram compostas há anos-luz, como é o caso de “Abre alas”, feita por Chiquinha Gonzaga, em 1889? Existem diversas teorias para responder a essa questão. A do coordenador do Centro de Referência do Carnaval da Uerj, Felipe Ferreira, é que a história tem a ver com direito autoral, já que muitos compositores morreram há mais de 70 anos e suas obras entraram em domínio público.
— Você não vai pagar para usar uma música nova, que não sabe se vai colar, podendo usar uma que todo mundo conhece, né? — pergunta. — Outro ponto é que a marchinha é um gênero muito político, no sentido amplo da palavra. Antigamente havia um certo consenso com relação às coisas, mas a globalização e a internet fizeram com que as pessoas tivessem uma opinião diferente sobre tudo. Antigamente, você falava mal de alguma coisa e todo mundo falava mal junto.
A melodia de uma marchinha tem que ser reconhecida antes da letra – Barbara Lopes / Bárbara Lopes
Kelly lembra que as marchinhas começaram a minguar na década de 1970, quando uma safra boa de sambas-enredos caiu no gosto dos foliões. Ao mesmo tempo, o rádio, que era o principal veículo de propagação, foi perdendo a sua força. Por consequência, os compositores também foram se desestimulando a escrever. Atualmente, ele opina que o maior problema seja mesmo a falta de divulgação. Kelly recorda os tempos em que cada gravadora lançava um LP com 12 marchinhas no mês de novembro: um repertório amplo, que era namorado pelo povo. As melhores participavam de um concurso que só acontecia depois da Quarta-Feira de Cinzas.
— O público não toma conhecimento das canções novas. Então, você não sabe se essa safra que está aí poderia produzir tanto quanto a nossa. O ressurgimento dos blocos fez recrudescer o gosto pela marchinha. Essa moçada voltou cantando as antigas e compondo outras músicas novas — diz.
‘MARCHINHA É O DIABO FALANDO BESTEIRA’
Não existe fórmula para uma marchinha de sucesso, mas há certas similaridades entre aquelas que se consagraram na boca do povo. O que a maioria concorda é que ela tem que ser concisa, ter em média duas estrofes, melodia fácil e original e, ao mesmo, tempo ser atraente, para chamar a atenção de quem ouve e mexer com a curiosidade do folião. Marchinha boa, Kelly ensina, é a que se reconhece a melodia antes da letra, logo nos primeiros acordes da música. É importante lembrar que antigamente as bandas não tinham nem vocalista. Por último e não menos importante, a música não pode ser “atropelada”.
— O sujeito está na rua, andando debaixo do sol, já tomou várias. Então tem que ser fácil de cantar. Imagina se “Mamãe, eu quero” não tivesse essa respiração entre uma frase e outra? O povo ia precisar correr para cantá-la — ensina o mestre.
É essa pausa que dá margem para um dos maiores trunfos das marchinhas, como diz Felipe Ferreira, do Centro de Referência do Carnaval, da Uerj.
— A ironia é tudo! Acho saudável discutirmos o que é politicamente correto, mas o excesso de cuidado tira essa coisa do sacana, do satânico. Marchinha é o diabo falando besteira — diverte-se. — Com a volta dos blocos, acho que haverá uma valorização cada vez maior da marchinha. A minha dúvida é como esse espírito ressurge. Falta um investimento sério com relação a isso.
Candidatos do Concurso de Marchinhas da Fundição Progresso e o idealizador da competição, Perfeito Fortuna (ao centro) – Barbara Lopes / Agência O Globo
A maior referência na luta pela pela manutenção e renovação do gênero atualmente é o Concurso de Marchinhas Carnavalescas da Fundição Progresso, que este ano chega à sua décima primeira edição. Até hoje, foram inscritas cerca de dez mil canções inéditas, vindas de todos os estados brasileiros e até do exterior. Na edição de 2016 — cujo resultado será divulgado dia 6 — foram 298 músicas, sendo 30% de compositores cariocas.
Segundo o presidente da Fundição e idealizador do concurso, Perfeito Fortuna, o principal mérito da iniciativa foi ajudar a resgatar o carnaval de rua na cidade.
— Percebemos aquele momento do retorno do carnaval de rua, ainda embrionário, e embarcamos junto. Muito além do objetivo de revelar novas marchinhas, queremos é chamar a atenção para o assunto, o que tem feito muita gente conhecer as canções antigas também — explica Fortuna.
Ele reconhece que o calendário do concurso não é o ideal para que as composições novas se tornem conhecidas. O melhor seria fazê-lo no meio do ano, com tempo hábil para que as músicas tocassem nas rádios.
— O problema é que não temos condições de pagar uma grande divulgação. Dependemos totalmente da mídia espontânea, e ninguém quer falar de carnaval em agosto. Além disso, as rádios não estão interessadas em tocar esse tipo de canção — afirma.
A falta de verbas fez com que a organização cogitasse cancelar a edição deste ano. No fim, a solução foi unir o concurso com a Rio Marchinhas, evento com shows gratuitos também organizado pela Fundição, nos Arcos da Lapa, durante o carnaval.
— A decisão de continuar com essas ações é quase um ato de resistência. Estamos com um déficit de R$ 130 mil em patrocínios. O mundo vive um momento muito duro e o brasileiro tem essa capacidade de “carnavalizar” a vida. A gente “carnavaliza” até para entender o que está acontecendo — diz.
Boca do povo. Gênero ganhou força com a volta do carnaval de rua – Barbara Lopes / bárbara lopes
Os perfis distintos dos compositores e a quantidade de canções inscritas no Concurso de Marchinhas Carnavalescas da Fundição Progresso comprovam que, mesmo que o gênero não tenha emplacado novidades nos últimos anos, ele ainda conquista foliões de diferentes gerações. As visões de cada um sobre o momento atual do estilo também variam.
Para o professor Ernesto Pires, um dos candidatos, a marchinha é vítima da invasão de outros ritmos e estilos no carnaval carioca. Ele defende que haja uma valorização e até proteção do estilo.
— O axé é sucesso em Salvador porque lá as rádios tocam o estilo o ano todo. O ritmo é valorizado. Aqui no Rio, por sua vez, existe uma valorização muito maior das opções que fogem do tradicional, como blocos sobre o cantor Wando e Beatles. O que é que Beatles tem a ver com carnaval? — indaga o compositor, que participa do concurso com a “Marcha do Lava-Jato” — composta em parceria com Sérgio Rocha.
Outro participante, o compositor Dimitri Rebello, morador de Botafogo, tem opinião diferente. Para ele, qualquer estilo é bem-vindo à folia e serve como porta de entrada para conhecer os clássicos.
— O carnaval de rua do Rio voltou com força total. Pessoas que nunca tinham brincado agora ficam ansiosas o ano todo. As fanfarras contribuíram muito para isso também, já que elas permitem uma festa desplugada, sem qualquer estrutura, o que é mais democrático — opina.
Já a jornalista Marcia Valéria Teixeira, moradora da Glória, outra candidata, sempre gostou de pular carnaval, mas é uma novata no papel de compositora.
— Participei de um concurso de uma rádio e minha canção ficou entre as dez selecionadas, com direito a participar do CD. Com isso, me animei a entrar no concurso da Fundição — diz Marcia, que se inscreveu com a marchinha “Praga do Egito”, sobre o Aedes aegypti.
Novas ou antigas, o que importa é que mais canções floresçam neste jardim, já que, como bem lembra Felipe Ferreira, a marchinha representa muito melhor o carnaval do que o samba.
— A marchinha é o carnaval. Ela existe em função desta festa. O samba está aí o ano inteiro, ele só encontra o carnaval nesta época — vaticina.
Que rufem os tambores: depois de 52 anos questionando Zezé, no maior caso de bullying que este país já viu, no final das contas, ele não era. Em 1964, João Roberto Kelly dedicava seus dias às composições de sambas de balanço e aos estúdios da TV Excelsior, em Ipanema. Nessa época, a patota toda costumava frequentar a boate Fred’s, uma casa que funcionava onde hoje está localizado o Windsor Atlântica. E foi nesse exato lugar que o músico veio a travar encontro com o então desconhecido Zezé, um garçom com um jeitão meio diferente do que se via naquela época no Brasil. Kelly lembra que José Antônio usava um cabelão até o ombro, era comunicativo e calçava umas botinhas meio gringas. Parecia até um fã dos Beatles.
— Eu disse: “Vem cá, meu irmão! Se eu fosse um desenhista, faria uma caricatura sua, mas como não sou, vou fazer uma música”. — conta ele. — Eu achava aquilo um pouco ridículo. A música é uma gozação a essa coisa, que foge do que era o brasileiro naquela época. A prova é que a letra diz: “Será que ele é bossa nova, será que ele é Maomé, parece que ele é transviado. Mas isso eu não sei se ele é”. Era uma referência aos rebeldes, aos transgressores. Mas o povo escuta um viado e já sai interpretando… — dá risada.
E nessa história de zombar do pobre do Zezé, até Silvio Santos teve uma dose de culpa. Foi nos auditórios do programa dele que a plateia tomou a liberdade de enfiar um “bicha” entre uma pausa e outra da música. A composição fez (e faz) tanto sucesso que já teve até interpretações exóticas, como uma “performance dantesca” em inglês, que enrubesceu um Kelly sentado desconfortavelmente na primeira fileira de um bar.
— Teve outra que fizeram em japonês. Você não entende nada, mas a melodia é batata! Certinha naquele ritmo meio deles, né? Muito engraçadinha — derrete-se.
Já Maria Sapatão — aquela que de dia era Maria e de noite era João — teve outro destino. Uma promessa do tipo olho no olho fez com que Kelly nunca revelasse a identidade da tal moça. O compositor só diz que a música nasceu quando ele encontrou sua musa, uma cantora do início dos anos 1980, na praia. Kelly conta que a menina era um espanto e, depois de trocarem telefone, se encontraram horas mais tarde, por acidente, em Copacabana. Dessa vez, ela estava acompanhada de duas amigas e usava uma gravatinha:
— Ela adorou a música, não ficou de maneira nenhuma ofendida. Pelo contrário, a segunda parte é só elogio!
Outra homenageada de Kelly é Vera Lúcia Couto dos Santos, a primeira mulata a participar de um concurso de beleza nos anos 1960. É ela a mulata bossa nova que caiu no hully gully. Nessa música, inclusive, o compositor comprou até uma briga com o maestro Radamés Gnattali. Parece que ele não gostou muito do “pá-pá-pá”, feito pelo bumbo, que vem antes do “e só dá ela”.
— Essa quebrada é que dá a bossa. Dava até uma tremedeira na banda — diz.
Para quem quiser saber mais histórias, Kelly fará uma noite de autógrafos do livro “Cabeleira do Zezé e outras histórias” (Vitale) na quarta-feira, às 19h, na Livraria Bossa Nova e Companhia, no Beco das Garrafas, em Copacabana.
Fonte: O GLobo
Foto: Barbara Lopes / Agência O Globo
Postado por: Raul Motta Junior