Quando Elisabete Vital perdeu seu irmão em 2014, descobriu que ele tinha um projeto para a Ilha do Governador que nunca saiu do papel. O Circuito Cultural seria uma forma de promover e revelar artistas do bairro, incentivando atividades culturais. Desde então, foram realizadas duas edições pontuais, com apresentações de música e teatro, com moradores das redondezas. A vontade de firmar o projeto cresceu e, desde a última terça-feira, Elisabete e Adelaide Pontual, sua parceira no Circuito, deram início às aulas da Orquestra Jovens da Ilha do Governador, na Biblioteca Euclides da Cunha, na Praia do Cocotá. O professor e maestro Ricardo Mirapalheta, voluntário, dá aulas de música gratuitas para crianças da região. As inscrições ainda estão abertas.
A música, de acordo com Elisabete e Mirapalheta, tem funções que vão além do lazer e do entretenimento. Seu poder transformador contribui para melhorar e aprimorar tanto o lado emocional das crianças quanto virtudes como disciplina e concentração. Pensando nisso, os dois, junto com Adelaide, resolveram se unir para fundar a orquestra.
Mirapalheta realiza trabalho semelhante na Maré, onde fundou a ONG Instituto Staumbor e montou a Orquestra Maréimbau há mais de dez anos. Ele também é idealizador do projeto Ecofonia, que ensina música e ecologia. O maestro pretende usar a mesma metodologia nas aulas da Ilha, inclusive com idas à horta comunitária que fica no aterro, ao lado da biblioteca.
— As crianças vão desenvolver o lado emocional com música, leitura, memória, fala, expressão e equilíbrio. A música também é um ótimo instrumento de inclusão, principalmente de jovens com problemas psicológicos e físicos. Já a ecologia proporciona a eles vivência ambiental. Antes das classes, vamos à horta fazer uma reflexão e observação da natureza, criar um estado de ser mais vital. A música e a ecologia, juntas, contribuem para que a criança descubra valores positivos e tenha uma postura de cidadania — afirma Mirapalheta.
A princípio serão duas aulas todas as terças-feiras: uma de flauta doce, das 9h às 10h, com 13 vagas; e outra de violino e violoncelo, das 10h às 11h, com três vagas. Os organizadores pedem doações de instrumentos para que as turmas aumentem. Qualquer outra contribuição também é aceita. A ideia é que a partir da segunda quinzena de janeiro surjam novas turmas com outros professores voluntários.
Um dos matriculados é Thayon Fagundes, de 17 anos, que sonha em ser musicista. Ele já toca violão, teclado e cavaquinho, e agora quer aprender violino. A pequena Samantha Fraga, de 8 anos, também se inscreveu e quer aprender a tocar flauta. Alunas da Orquestra Maréimbau, Kauani dos Santos e Maysa de Magalhães estavam na biblioteca a convite de Mirapalheta no dia em que a equipe de reportagem visitou o espaço. Após quatro anos nas aulas de flauta doce, elas vão começar a estudar flauta transversa na Maré. Quando crescerem, querem dar classes de música.
— Agora passei para a flauta transversa e vou começar as aulas no ano que vem. Gosto muito — resume Maysa.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior