Nome de militante que teve a ideia da placa Marielle Franco permanece em segredo

O segredo é guardado até hoje. Mas, sem revelar o nome do santo, a história pode ser contada. Uma das homenagens mais emocionantes à vereadora Marielle Franco, morta junto com o motorista Anderson Gomes, em 14 de março do ano passado, foi a criação de uma placa, com o nome dela e a expressão: “defensora dos direitos humanos, covardemente assassinada”. A peça, durante um ato na Cinelândia, foi afixada sobre outras do mobiliário urbano. Assim, Marielle ganhou as ruas, literalmente. A ideia foi de uma mulher, cujo nome não é revelado.

Mas sabe-se que o fenômeno da placa Marielle, ao mesmo tempo um símbolo de luta e um ícone pop, teve início em Benfica. Dono de uma gráfica no bairro da Zona Norte, Sidnei Balbino conta que foi procurado por uma amiga militante, à época, para produzir a peça destinada à manifestação. Sem identificá-la, ele só diz que não imaginava que tanta coisa aconteceria, a partir daquele singelo pedido. E todas marcantes, para o bem e para o mal: da emoção original, que era fazer uma reverência à mulher negra e favelada que foi morta no exercício do mandato, à indignação de quando a placa foi rasgada.

Uma passagem que não lhe sai da memória foi quando o então candidato a deputado estadual pelo PSL, hoje eleito, Rodrigo Amorim, retirou a placa, que ainda estava colada no Centro, e a destruiu . Em um evento, ao lado do ex-juiz Wilson Witzel, agora governador, ele exibiu o feito, causando comoção não só entre os admiradores de Marielle, que a homenagearam, mas também entre aqueles que se integraram a um movimento pela elucidação dos assassinatos. Após a polêmica, Amorim alegou que não se tratava de desrespeito, mas de uma medida para preservar a ordem pública, já que a placa não era oficial.

De mão em mão
O fato é que a “réplica” de uma placa de rua, com o nome de Marielle, virou, por vários motivos, que permeiam o inconsciente coletivo, um objeto de desejo. Depois da primeira encomenda, vieram outros pedidos. Logo no início, o site Sensacionalista pediu a confecção de mil placas que foram distribuídas em nova manifestação. O trabalho, segundo Sidnei, foi orçado “pelo preço de custo”: R$ 8 cada réplica de placa.

Mais uma vez, as placas “despareceram” de mão em mão. A cada leva de placas, elas eram disputadas. Sidnei compara a um efeito tsunami. Até hoje, cerca de 20 mil peças já foram produzidas e ganharam o mundo.

— Hoje uma pergunta move as pessoas e o planeta: quem matou Marielle? Vou continuar na militância. Pensamos em confeccioná-las nas cores LGBT, por exemplo — diz Sidnei, que conta ter sido hostilizado no período eleitoral. — Eu estava na Praça São Salvador, e, após ser xingado, ameaçaram quebrar as placas. Achei que seria espancado. Outra vez, um senhor me parou para perguntar por que não faço placas do Brilhante Ustra (ex-coronel do Exército acusado de tortura na ditadura ).

A ferroviária Ida Saraiva, depois de ter perdido um ato, e, consequentemente, a “sua placa”, resolveu fazer uma encomenda. Mas foi só comentar com amigos no Facebook que acabou comprando 300.

— Houve uma hora que tive que pôr um ponto final. Mandei placa até para Manaus — diz ela, que mantém a sua bem guardada em casa.

O item vendido é, propositalmente, menor que uma placa de rua para evitar que os compradores colem réplicas pela cidade, o que poderia ser considerado vandalismo. Em vez de aço, passou a usar poliestireno, um plástico resistente. Com o aumento do preço da matéria-prima, a placa passou a ser vendida por R$ 10 nas cores tradicionais e por R$ 15 em verde e rosa, em alusão ao enredo do último carnaval da Mangueira.

O último passo do projeto foi o site “Rua Marielle Franco”, que disponibiliza a arte da placa gratuitamente para impressão.

Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior