No Dia de São Jorge, uma multidão de fiéis ignorou a chuva e lotou as igrejas da cidade dedicadas ao santo, no Centro e em Quintino. Cerca de 700 mil pessoas foram neste domingo à paróquia da Zona Norte, que realizou 12 missas das 5h às 18h e foi ponto de partida de uma procissão, à tarde. Segundo a Arquidiocese do Rio, o templo recebeu cem mil devotos a mais este ano, em comparação com 2016.
“PADROEIRO EXTRAOFICIAL”
O cardeal arcebispo do Rio, dom Orani Tempesta, que celebrou a missa das 10h em Quintino, disse que a identificação do carioca com São Jorge, cuja popularidade o tornou “padroeiro extraoficial da cidade”, vem do fato de o santo ter sido um homem de Deus que não desanimava com as dificuldades. Após a celebração, ele afirmou que, se o santo guerreiro vivesse hoje no Rio, teria de derrotar não um, mas dezenas de dragões.
— Os monstros que ele enfrentaria seriam o da violência e os da falta de habitação digna, educação, saúde e trabalho. Enfim, são muitos os dragões que existem, e tenho certeza que São Jorge ajuda o carioca a vencer isso tudo — afirmou dom Orani.
No Centro, o domingo foi marcado pelo sincretismo religioso. Na calçada da Igreja de São Gonçalo Garcia e São Jorge, na Rua da Alfândega, muitos fiéis saíam da missa, recebiam passe de um pai de santo e, mais adiante, dançavam numa roda de samba. Com descontração, mas sem perder a fé, o dia foi de festa.
— O brasileiro é assim. As religiões se encaixam — argumentou o pai de santo baiano Adson Araújo, que há três anos vem ao Rio para fazer rituais de purificação ao lado da igreja.
Cândida Miriam de Vasconcelos Santos, de 65 anos, foi uma das pessoas que, depois de rezar para São Jorge dentro da igreja, foi pedir proteção ao orixá. Segundo ela, “para reforçar”. Assistente social do Hospital Universitário Pedro Ernesto, em Vila Isabel, Cândida contou que há dois anos pede ao santo que “abra os caminhos” para a realização do concurso público da brinquedoteca da instituição, suspenso por conta da crise financeira do estado.
— Em me preparei para o concurso para brinquedista, que é uma exigência legal, e já estava com tudo pronto quando veio a crise e o governo adiou a prova — contou a assistente social.
A dona de casa Antônia Costa, de 62 anos, levou todas as chaves de sua residência para pedir segurança ao santo guerreiro.
— Vim pedir a São Jorge para fechar minha casa (para a violência) e abrir meu coração para as coisas boas, como compreensão e amor ao próximo — explicou Antônia.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Thiago Freitas / Agência O Globo