Especialistas em transportes condenaram as más condições da Avenida Brasil, que virou uma via de obstáculos por conta das obras do BRT Transbrasil, interrompidas desde março. Mais um acidente, dessa vez fatal, ocorreu na manhã desta terça-feira na via. O capitão da Aeronáutica Vitor Elias Martins, de 49 anos e com seis filhos, morreu na hora, quando seu carro, um Mitsubishi, rodopiou e capotou sobre blocos de concreto que separam uma calha do BRT das faixas de rolamento. Ex-coordenador do Programa de Redução de Acidentes de Trânsito do Ministério dos Transportes, Fernando Pedrosa ressaltou que qualquer elemento estranho em uma via — obra e acidente, por exemplo — provoca interferência e problemas:
— Por isso, a sinalização de obras em vias tem de ser perfeita. Os obstáculos precisam estar identificados, e à noite a sinalização tem que ser iluminada. E os motoristas também têm de estar atentos.
Professor de engenharia de Transportes da Coppe/UFRJ, Paulo Cezar Ribeiro destacou que a prefeitura precisa, com urgência, repensar a sinalização da Avenida Brasil:
— É necessário apontar os perigos, os locais de risco. Não se consegue ver o começo da mureta que separa a calha do BRT, e as faixas de rolamento não estão pintadas em muitos trechos. A sinalização adequada dá mais fluidez e segurança para o trânsito.
O acidente com o militar aconteceu na altura de Barros Filho, sentido Zona Oeste, e provocou um engarrafamento de cerca de 20 quilômetros, que começava na saída da Ilha do Governador. Motoristas demoravam mais de três horas nesse trajeto. No domingo retrasado, perto dali, na altura do Viaduto de Coelho Neto, o aposentado Álvaro Teixeira Guedes, de 82 anos, também capotou. Mais três idosos estavam no carro. Os quatro, que sobreviveram, tiveram que sair pela janela do veículo.
— Falta sinalização e iluminação na Avenida Brasil. Estava escuro, e eu não vi que havia uma elevação na pista — contou Álvaro.
O capitão encontrava-se sozinho quando capotou. Mas a família e amigos da vítima também citaram as péssimas condições da via.
— As muretas de concreto das obras do BRT são irregulares, mal colocadas, e a sinalização é ruim. Cheguei ao local pouco depois do acidente. Foi preciso cortar o cinto de segurança para retirar o corpo do carro — afirmou Iago Vasconcelos, amigo dos filhos mais velhos do capitão.
O Corpo de Bombeiros e a Polícia Militar foram acionados por volta das 8h20m. O corpo do militar só foi removido às 14h. Mas, apenas meia hora antes, quando o carro foi retirado do local do acidente, é que o trânsito, que seguia em duas faixas na direção da Zona Oeste, começou a fluir melhor. Alguns motoristas cortavam caminho pelo acesso lateral que leva para Costa Barros.
O carro do militar seguia pela calha do BRT, liberada para uso dos motoristas. Segundo testemunhas, o veículo teria batido num bloco de concreto solto da obra, no canto da pista, perdeu o controle e rodopiou por quase 40 metros até capotar e ficar atravessado em cima da mureta.
Vitor morava na Ilha do Governador. Muito abalado, seu filho João Pedro Martins, de 24 anos, disse que não sabia para onde o pai seguia e que foi informado do acidente por um dos irmãos. O rapaz ficou próximo do corpo o tempo todo, mas, quando o rabecão chegou para fazer a remoção para o Instituto Médico Legal (IML), preferiu se afastar.
Motoristas que passavam pelo local reclamaram que a paralisação das obras de implantação do corredor do BRT e a falta de sinalização seriam responsáveis pelo constantes acidentes no local. O operador de máquinas Adriano Machado, de 50 anos, foi um dos que se queixou.
— Se a pista fosse melhor sinalizada não aconteceria essas coisas. A obra parada também contribui para isso— disse o morador de Irajá, que seguia da Ilha do Governador para Bangu e ficou preso por quase quatro horas no engarrafamento.
O servidor público Claudino Cabral Porto, de 48 anos, que ia do Centro para Santa Cruz, disse que demorou 3h30m entre o INCA, perto da Rodoviária, e Barros Filho. Ele também reclamou dos acidentes:
— Falta sinalização.
SECRETARIA PROMETE RETOMADA DAS OBRAS ESTE MÊS
Já a Secretaria municipal de Urbanismo, Infraestrutura e Habitação, por e-mail, garantiu que todos os pontos de interdição das obras do Transbrasil estão “devidamente sinalizados, isolados e monitorados”. Segundo o órgão, “existe hoje mais sinalização que antes do início das obras”. A secretaria atribui os acidentes registrados na via à imprudência e à alta velocidade. Quanto às obras do corredor de BRT, assegurou que elas serão retomadas este mês, após negociação entre a prefeitura, o Ministério das Cidades e a Caixa Econômica Federal.
A CET-Rio informou que é responsável apenas pela sinalização permanente das vias (postes e placas de regulamentação, painéis de mensagens variáveis e semáforos). Ainda assim, a companhia disse que tem atuado “implementando sinalização provisórias de direcionamento de fluxo e pintando barreiras de concreto nos locais mais críticos”.
A Rioluz alegou que atua diariamente na Avenida. Brasil realizando vistorias e manutenção na iluminação pública. Segundo a companhia, em 2017 foram realizados 931 serviços para restabelecimento de lâmpadas apagadas na via. Em 2018, até o mês de abril, foram substituídas 443 lâmpadas. A Rioluz prometeu que, se as condições meteorológicas permitirem, executará nesta quarta-feira reforço na iluminação local.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior