Leandro Vieira: a personalidade da Mangueira que desafia a prefeitura do Rio

Aos 31 anos, Leandro Vieira pisou pela primeira vez o palco da Marquês de Sapucaí como carnavalesco principal de uma escola de samba do Grupo Especial, após elogiada passagem pela Caprichosos de Pilares na Série A. E não era em qualquer agremiação: a Mangueira vinha de um jejum de títulos de 13 anos que ampliava a responsabilidade. Os resultados pesavam ainda mais pelas más colocações dos anos anteriores, que a afastavam até mesmo do desfile das campeãs. Com uma homenagem a Maria Bethânia, proposta pelo estreante, a verde e rosa arrebatou o título de 2016 e projetou o nome do novo talento. Este ano, o enredo “Só com a ajuda do santo”, uma sensível narrativa sobre as manifestações de fé e religiosidade pelo país, colecionou uma miríade de prêmios e um quarto lugar. Essa trajetória acabou por transformar o artista formado na Escola de Belas Artes da UFRJ na principal voz contra a redução de 50% da subvenção paga pela prefeitura às escolas de samba, uma decisão do prefeito Marcelo Crivella (PRB), sob a alegação de que investiria a verba em creches.

A resposta veio pouco depois da decisão, com a divulgação do enredo para o carnaval 2018: “Com dinheiro ou sem dinheiro eu brinco”. O carnavalesco, que se diz um homem de esquerda, admite que a decisão é uma resposta ao chefe do executivo municipal, mas explica que o enredo não se limita ao deboche e reforça a necessidade de se carnavalizar a política.

— Eu defendo o carnaval à luz da cultura popular, e não como espetáculo. Há tempos o sentido da festa tem sido desvirtuado para transformá-la em entretenimento, exclusivamente, e isto a afastou da população. Achei ótimo que a medida proporcionasse a volta do debate. No posicionamento do prefeito eu encontrei uma possibilidade de carnavalizar, de forma satírica, o carnaval. Este é um enredo para abraçar, não apenas a Mangueira, mas o sambista. A prefeitura está tentando implementar uma ideologia conservadora em uma cidade cosmopolita — afirma.

‘Eu defendo o carnaval à luz da cultura popular, e não como espetáculo’
– LEANDRO VIEIRA, CARNAVALESCO DA MANGUEIRA
Artista critica a perda da essência da festa
Estarão representados no desfile rodas de samba, bares, botequins, blocos de rua, travestis e foliões que fazem fantasias para criticar a atuação da classe política. Ou, como resumiu o artista, “Tudo aquilo que o prefeito não gosta”.

Em uma escola grande, decisões como a da escolha de enredo não são tomadas sem a anuência do presidente. No início do ano, a Mangueira chegou a rejeitar uma proposta de R$ 6 milhões por um enredo patrocinado. Presidente da agremiação, o deputado estadual Chiquinho da Mangueira (PMN) é de um partido que integra a base de apoio de Crivella. O parlamentar tenta separar as duas funções para explicar a escolha.

— Não é só um tema político. O enredo relembra a história do carnaval, quando as pessoas se divertiam, tendo dinheiro ou não. O Leandro é a maior revelação do carnaval nos últimos anos e tem carta branca para conduzir o trabalho da forma que melhor entender — afirma.

Embora seja visto com adereços religiosos e aborde o tema frequentemente em seus enredos, o carnavalesco revela não ter religião.

— Antes, as religiões serviam para aproximar os diferentes. Hoje, têm sido utilizadas para separá-los. Está muito difícil ser religioso assim. Tenho minha fé, sou cristão e respeito a religiosidade assim como respeito a cultura. Sou capaz de usar um terço em uma mão e uma guia de orixá na outra, de ir a um terreiro e a um culto — afirma.

‘O Leandro tem um amor à brasileirice que é muito interessante, vem do coração’
– ROSA MAGALHÃES, CARNAVALESCA DA PORTELA
Elogio ao caçula do grupo especial
IMAGENS DELICADAS E IMPACTANTES

Leandro tem se especializado em criar imagens impactantes relacionadas à cultura brasileira. Em 2016, a porta-bandeira Squel, com quem é casado, desfilou caracterizada como uma iaô, termo em iorubá utilizado para designar quem ingressa no candomblé. Um truque fez parecer que tinha raspado a cabeça para iniciar na religião. Este ano, um tripé que representava o sincretismo entre Jesus Cristo e Oxalá causou comoção na avenida, mas provocou o desconforto da Igreja Católica e não retornou para o Desfile das Campeãs. A alegoria não estava no barracão quando uma comitiva da instituição religiosa visitou o local para conhecer o enredo.

— Eu sabia que repercutiria bastante e que causaria certo incômodo, mas não poderia deixar de falar sobre sincretismo no enredo “Só com a ajuda do santo”. E o interessante é que a imagem era pequena, não era uma escultura gigante. Nas duas situações, a grandeza estava no significado — afirma.

As principais referências para o trabalho do carnavalesco são os artistas que viu fazer sucesso na adolescência: Renato Lage e Rosa Magalhães. Os mestres são só elogios ao caçula da festa.

— O Leandro tem um amor à brasileirice que é muito interessante, vem do coração. Tem um apego à nossa cultura, não tem vergonha de ser emotivo, admite que somos assim. Mas espero que não vença no ano que vem, que deixe essa vaga para nós — brinca Rosa Magalhães, carnavalesca da Portela.

Atualmente na Grande Rio, Renato Lage destaca o método de trabalho de Leandro.

— Ele é dedicado, extremamente meticuloso, além de ter muito bom gosto e atenção aos detalhes. Ele é o cara do momento — analisa.

Para Leandro, a ausência da temática política nos desfiles é fruto da transformação do carnaval em espetáculo.

— Nos anos 90, São Clemente e Caprichosos de Pilares ficaram marcadas por esses enredos, mas isto se perdeu. O Rio é plural, muito cosmopolita, abriga várias cidades. Não há espaço para esse conservadorismo exacerbado. Nossa política é altamente carnavalesca, é um pastiche, uma ópera cômica. Não podemos vilanizar a cultura popular e as escolas de samba. Se não há dinheiro para as outras rubricas do governo, a culpa não é da cultura — afirma.

O artista preferiu manter segredo sobre qualquer representação do poder público municipal no desfile.

Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Roberto Moreyra / Agência O Globo