Jovens da Providência e da Mangueira criam orquestra de violino a céu aberto

Tudo começou com uma vontade incontida de comer pizza. Sem dinheiro, jovens músicos do Morro da Providência, no Centro, e da Mangueira, que estavam saindo de uma apresentação, não pensaram duas vezes. Sacaram os violinos, deram uma “palinha” nas ruas da Gávea e arrecadaram o suficiente. Com pressa para voltar para casa, acabaram desistindo do lanche, mas a ideia de ir para o palco a céu aberto logo se tornaria um projeto bem-sucedido: a Orquestra de Rua.

Juliane Nascimento, de 20 anos, Glaucia Maciel, de 18, Guilbert Vilela, de 19, Jéssica Oliveira, de 19, e Lucas Freitas, de 20, tocam de Mozart a Pixinguinha e o coração de quem passa por eles durante as apresentações.

— A música é uma fuga da nossa realidade, que é bem complicada, porque na comunidade em que moramos vemos violência e quase nenhum apoio à cultura — diz Glaucia, que começou a estudar violino aos 14 anos num projeto social da Light, já encerrado. — Meu sonho é fazer um solo no Teatro Municipal do Rio de Janeiro.

Lucas está terminando o ensino médio, e Jéssica faz faculdade de Música na UFRJ. Egressa do projeto Cartola, na Mangueira, já extinto, Juliane passou nas provas de aptidão da UniRio e da UFRJ, assim como Glaucia e Guilbert. Eles agora esperam o resultado do Enem. Enquanto isso, ensaiam cerca de quatro horas por dia com instrumentos emprestados dos projetos sociais que frequentavam. E ainda sob a tutela do professor Marco Lavigne, que segue dando aulas gratuitas aos jovens.

— A música é uma forma de ascensão social e uma perspectiva de vida para eles — diz Marco.

A atenção que o grupo recebeu de um total desconhecido foi definitiva na decisão de perseverar. Em novembro, a Orquestra de Rua foi convidada a se apresentar no Refettorio Gastromotiva (que oferece jantar a moradores de rua), na Lapa, num evento pilotado pelo chef indiano Gaggan Anand, dono do sétimo melhor restaurante do mundo, segundo a revista britânica Restaurant. Encantado com a história dos jovens, Gaggan os levou para tocar em um jantar de gala no Lasai, em Botafogo. Pagou US$ 200 e uma pizza para cada um. Depois, Marina Hirsch, sócia do Zuka, no Leblon, os convidou para um show em frente ao restaurante. E criou uma campanha de financiamento coletivo on-line para ajudá-los a comprar violinos profissionais:

— Uma história como a deles é emocionante.

Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior